O que as eleições municipais dizem sobre o cenário político?

Jean-Philip Struck

Enquanto golpe duro para o PT já era esperado, alto número de abstenções sinaliza desilusão de parte do eleitorado com o sistema. Vitória de João Dória mostra bem-sucedida estratégia de discurso antipolítico.As eleições municipais de domingo (02/10) reapresentaram um duro golpe para o PT e para o prestígio pessoal de figuras como Lula e Dilma Rousseff. Também mostraram um crescimento do PSDB e a manutenção da influência do PMDB, apesar do envolvimento da sigla em escândalos. Por outro lado, o alto número de abstenções, votos nulos e brancos sinalizou uma desilusão de parte do eleitorado com o sistema político. Já a vitória do empresário João Dória (PSDB) em São Paulo, maior cidade do país, mostrou uma bem-sucedida estratégia de discurso antipolítico. Derrocada do PT Dias antes do pleito, a pergunta não era se o PT, que foi defenestrado do governo federal e atingido por denúncias da Lava Jato, sofreria algum encolhimento em relação a 2012, mas qual seria o tamanho da derrocada. No final, a legenda saiu 59% menor do que no pleito anterior. Elegeu 256 prefeitos no primeiro turno e ainda tem chances de eleger sete no segundo. Em 2012, foram 611 prefeitos eleitos. Desta vez, só levou uma capital, a pequena Rio Branco (AC). O maior símbolo do encolhimento petista foi a derrota do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Foi a primeira vez que o partido ficou de fora de um segundo turno na capital paulista. "Haddad pode ser considerado um gestor moderno e é um dos melhores quadros do partido, mas acabou pagando em parte pelos erros da cúpula petista", afirma o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie. Os resultados do PT também apontaram o quão baixa anda a influência dos ex-presidentes Lula e Dilma, que em campanhas passadas foram cabos eleitorais cobiçados. Dilma, por exemplo, apoiou e participou de eventos de campanha de candidatos de Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. Todos foram derrotados. Já Lula viu seus candidatos naufragarem até mesmo no seu reduto tradicional, o Nordeste. Proibição das doações As eleições também mostraram os efeitos da proibição de doações eleitorais por parte de empresas. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a arrecadação dos candidatos até o dia do pleito sofreu uma queda de 60% em comparação com as eleições de 2012. De acordo com o tribunal, em 2012 as campanhas contabilizaram doações de 6,2 bilhões de reais. Neste ano, foram 2,3 bilhões. O número ainda deve aumentar ligeiramente quando os candidatos apresentarem suas declarações finais, e as doações recebidas no segundo turno forem computadas. Ainda assim, o efeito de doações menores foi visível em várias campanhas, que tiveram que lidar com uma estrutura mais enxuta. Como resultado, algumas campanhas ficaram mais baratas. Em São Paulo, o vitorioso João Dória declarou ter gasto 13,4 milhões em sua campanha. Haddad, em 2012, gastou 67 milhões de reais (ou 86 milhões em valores corrigidos) para vencer uma eleição que teve dois turnos. A vitória do "outsider" Disputando sua primeira eleição, Dória conseguiu uma inédita vitória no primeiro turno usando um discurso que enfatizou seu lado profissional, apesar de a sua candidatura ser formada por uma ampla aliança partidária. "Não sou político, sou um gestor, um empresário", disse Dória ao longo da campanha. Com uma fortuna declarada de 180 milhões, conseguiu contornar em parte as restrições de doações de empresas financiando parte da campanha com dinheiro próprio (doou a si mesmo 2,9 milhões). Seu discurso antipolítico teve efeito até mesmo entre o eleitorado mais pobre. O prefeito eleito só não venceu em dois distritos da cidade. Ficou à frente em toda a Zona Leste da cidade – Haddad, em contraste, teve resultados melhores em alguns distritos ricos, como Pinheiros. "Na periferia, empresários não são encarados pelas lentes de teses de esquerda – como burgueses que representam sua classe –, mas como geradores de empregos. O discurso da eficiência do gestor sobre o político tem grande ressonância", afirma Prando. O resultado da eleição em São Paulo também significou uma vitória do grupo do governador Geraldo Alckmin, que praticamente impôs a candidatura do empresário ao diretório paulistano do PSDB, contrariando figuras como o ministro José Serra. Desilusão com a política Segundo dados do TSE, 38,4% dos eleitores registrados em São Paulo não votaram em nenhum candidato. Essa foi a soma de abstenções, votos em branco e nulos - em números absolutos, esse total supera a votação recebida por Dória. Esses também se repetiram em outras oito capitais, como o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde o número de votos brancos, nulos e de eleitores e de abstenções também foi maior do que a votação do candidato que acabou em primeiro lugar. "Esses números mostram um sinal de repulsa de parte da população com a forma que se faz política no Brasil", afirma Prando. Possíveis sinais para 2018 Computados os votos, os resultados mostraram que o PSDB foi o principal vencedor das eleições. A sigla, que tem como objetivo voltar a comandar o Planalto em 2018, elegeu 791 prefeitos no primeiro turno. Caso conquiste outras 19 cidades em que filiados disputam o segundo turno, o PSDB poderá ter um crescimento de 18% em relação a 2012. Segundo Prando, esses resultados mostram um PSDB turbinado para disputar 2018 e um PT ainda mais fragilizado, apesar de Lula ainda aparecer em primeiro lugar nas pesquisas. "A base da política brasileira é local. É a partir de alianças com prefeitos, vereadores que os partidos conseguem eleger deputados e consequentemente estabelecer uma base para o governo federal", afirma. Ainda assim, ele avalia que os tucanos podem ver essa nova influência desaparecer caso a sigla volte a ser palco de disputas internas. "O problema do PT é que ele só tem uma grande figura, o Lula. Já o PSDB tem três lideranças – Serra, Aécio Neves e Alckmin – disputando o poder. Alckmin se fortaleceu com a vitória de Dória, mas isso não significa que ele já é tucano favorito para disputar a Presidência", opina. Outros resultados mostraram que a Rede, a sigla novata de Marina Silva, ainda enfrenta dificuldades para se estabelecer nos municípios e estabelecer uma base local para a candidatura da ex-ministra à Presidência em 2018. O partido lançou 154 candidatos a prefeito e só elegeu cinco – um número inferior ao de siglas praticamente desconhecidas como o PEN e o PRTB. Em capitais, a Rede contou com dez candidatos e não elegeu nenhum. Apenas Clécio Luis, atual prefeito de Macapá, ainda tem chance no segundo turno. Para o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as eleições municipais foram resultado de um "ciclo atual" e ainda não podem ser vistas como uma prévia de 2018. "Eles revelaram tendências, mas resultados econômicos têm mais influência numa eleição municipal do que número de prefeituras administradas. O PT foi mal, mas pode voltar a se fortalecer se o governo Temer tiver maus resultados", afirma.

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