Opinião: Pegida perverte os ideais de 1989

Marcel Fürstenau

Apoiadores desse movimento xenófobo que, em Dresden, gritaram "nós somos o povo", usando slogan que acabou levando à queda do Muro, são covardes que pervertem os valores da democracia, opina Marcel Fürstenau.Não há o que relativizar: as fotos deste 3 de outubro, Dia da Unidade Alemã, arranharam a imagem de Dresden. Mais ainda: arranharam a imagem da Alemanha. O mundo se pergunta o que está acontecendo neste país, admirado por seu poder econômico, que representa para muitos uma promessa de futuro – não só para refugiados, mas para pessoas de todos os cantos deste planeta. Há um quarto de século, o mundo se espantava com uma revolução pacífica sem qualquer derramamento de sangue; com corajosos alemães-orientais que protestavam contra a ditadura. O lema mais conhecido era: "Nós somos o povo." Sem a coragem, primeiramente, de alguns poucos ativistas dos direitos civis na antiga Alemanha Oriental, não haveria surgido o posterior movimento de massas. E dessa massa, desse povo, os velhos homens do politburo e da Stasi (serviço secreto) tinham tanto medo, que o poder acabou-lhes escapando. Mas esse triunfo dos justos continha também a semente da qual rapidamente brotaram perdedores. Aliás, muito diferentes entre si. Entre os que se decepcionaram estavam vários ativistas dos direitos civis, cujos ideais esbarraram na dura realidade de uma – muitas vezes brutal – democracia de economia de mercado. Não é por acaso que apenas poucos dos heróis de 1989 conseguiram – ou quiseram – se manter num sistema político de cunho predominante alemão-ocidental. Decepcionados, alguns se afastaram. Mas nunca esqueceram o valor que uma democracia – ainda que, por muitos motivos, imperfeita – tem em comparação com qualquer outra ordem social. A ativista Bärbel Bohley, uma das mais conhecidas opositoras ao regime da Alemanha Oriental, foi direto ao ponto certa vez, ao dizer: "Nós queríamos justiça e recebemos o Estado de Direito." Não era uma solução perfeita, mas era uma que protege o indivíduo da arbitrariedade do Estado – e essa é uma conquista que vale a pena ser defendida. Faz parte da necessária ambivalência da democracia que seus adversários, ou até inimigos, tenham os mesmos direitos que seus admiradores mais fervorosos. Por isso pessoas como os apoiadores do movimento xenófobo Pegida podem espalhar suas opiniões impiedosas. Eles rejeitam muçulmanos e refugiados, agitam a bandeira da Alemanha e exibem a cruz cristã. Mas o amor ao próximo é algo tão estranho para eles quanto lhes são indiferentes os valores da Lei Fundamental (Constituição) alemã. Eles reivindicam apenas para si o primeiro artigo desta que é a melhor Constituição que a Alemanha: "A dignidade humana é inviolável." Eles pervertem o direito à liberdade de expressão e manifestação ao interpretá-lo como carta branca para a intolerância e a difamação dos que pensam diferente. Na boca dessas pessoas, o lema "nós somos o povo" soa pateticamente oco e hipócrita. Chamar essa gente de "corja", como fez o vice-chanceler Sigmar Gabriel em 2015, não ajuda em nada. Mesmo que há tempos esses manifestantes, que não demonstram qualquer disposição a ouvir e dialogar, o sejam. Os discursos do governador da Saxônia, Stanislaw Tillich, e do presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, no Dia da Unidade Alemã, perderam-se em meio aos gritos de ódio. Os apelos por respeito feitos pela chanceler federal Angela Merkel e por outros políticos podem parecer impotentes, mas foram a reação correta. Por fim: aqueles que em 1989 bradavam "nós somos o povo" pediam, ao mesmo tempo, "sem violência". Na época, todos atenderam – hoje é diferente. A linguagem está brutalizada, o comportamento também. Às palavras sucedem atos. Causa e efeito são inequívocos. Os valentes de 1989 eram corajosos. Os valentões de 2016 são covardes. Enviado especial a Dresden, o jornalista Marcel Fürstenau trabalha na sucursal da DW em Berlim.

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