Pé na praia: Despachante

Thomas Fischermann

Um gringo inexperiente pode se afundar no lamaçal da burocracia brasileira. Por isso, precisa de um despachante, aquele que abre caminho através da selva de papéis - ou que, às vezes, apenas torna impossível o possível.Um dos meus primeiros conhecidos no Brasil foi um despachante. Colegas da comunidade de expatriados tinham me avisado: no Rio não se mova um centímetro sem um despachante! Não vá a repartições públicas, não preencha nenhum formulário e sequer se atreva a sair na rua! Um gringo inexperiente vai se afundar no lamaçal da burocracia brasileira. Sou alemão e, como tal, gosto de fazer as coisas de maneira absolutamente correta. Tinha uma carteira de habilitação alemã, mas, já que morava no Brasil, queria ter uma brasileira. Correto é correto! Entrei no 12º andar de um prédio no centro do Rio de Janeiro. Era uma construção de cubos muito feia, com ares-condicionados barulhentos nas janelas. E então cheguei ao escritório do Senhor V. O despachante, Senhor V, promete "auxílio de natureza comercial e jurídica" a seus clientes. É um senhor mais velho com cabelos grisalhos cortados bem curtos. Gosta de vestir roupas de negócio de cores neutras. Na minha visita havia montanhas de pastas milimetricamente arrumadas na estante. A máquina copiadora estava posicionada exatamente no meio do espaço, de acordo com a lei do caminho mais curto. O Senhor V me transmitiu a impressão de eficiência. Conversou amenidades por um mínimo de tempo. Sim, que bom, o Senhor é da Alemanha. Por favor, sente-se. Conheço muita gente da Alemanha. Boa gente, os alemães. Mas eles têm problemas gigantescos aqui no Brasil. Senhor V, preciso de uma carteira de motorista brasileira! Não é assim tão fácil, disse o Senhor V, olhando para mim penalizado. Felizmente, o homem se apresentou como a solução exata para os meus problemas. Como eu já sabia, despachantes tornam possível o impossível, abrem caminho através da selva. Conhecem as pessoas certas nas repartições e os truques certos. Alguns pagam até mesmo gorjetas para funcionários, para que trabalhem mais focados. Mas será que isso também daria certo com o maior problema de todos os tempos? O Senhor V seria capaz de trocar a minha habilitação? De modo algum no Rio de Janeiro!, disse. No Rio poderiam acontecer coisas terríveis. Minha carteira alemã seria confiscada, e a brasileira só viria muitas semanas depois. Sabe-se lá quanto tempo demoraria! E nunca mais veria a minha carteira alemã. Em seguida, V foi até a máquina copiadora. Com dedicação, ao copiar os documentos, foi contando seu plano sofisticado: primeiro, mandar fazer uma tradução juramentada da carteira de habilitação, da língua alemã para o português. Depois, requisitar a nova carteira no estado vizinho, São Paulo. Isso significaria mais um custo extra, o Senhor V provavelmente teria que ir lá pessoalmente, mas em São Paulo ele conhece as pessoas certas. Em um mês eu ganharia a minha carteira. Ok, quanto isso vai custar? 500? 1000 reais? "Vamos começar com a tradução", disse o despachante, colocando meus documentos em um envelope pardo. Mas o Senhor poderia me dizer qual será o preço? "Existem muito poucos tradutores alemães no Rio", respondeu. "E todos eles já estão muito velhos – estão atolados de serviço." Saí do escritório do Senhor V nesse dia e nunca mais o vi. Fui de metrô até o departamento de trânsito. Esperei menos de dez minutos para ser atendido. Uma funcionária jovem sorriu para mim e explicou tudo direitinho. Alguns formulários, uma tradução informal, um pequeno exame e poderia receber uma carteira de motorista. "Mas na verdade o Senhor nem precisa disso", ela acrescentou. "No seu emprego o Senhor está sempre saindo e entrando no país. A cada entrada a carteira alemã fica válida por 180 dias. Bem-vindo ao Rio de Janeiro!" Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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