"Quero fazer o Brasil ser respeitado dentro da música erudita"

Augusto Valente

A cantora lírica catarinense Cristiane Roncaglio trilha um caminho artístico marcado pela ousadia e versatilidade. Em entrevista à DW, ela fala dos desafios de uma carreira europeia e dá um conselho aos jovens cantores.A trajetória internacional da soprano brasileira Cristiane Roncaglio alcançou um novo patamar nesta terça-feira (04/10) no Teatro Schiller, que atualmente sedia a Staatsoper Berlin, uma das três casas de ópera da capital alemã. Num programa inteiramente dedicado a Johannes Brahms, ela integrou o quarteto vocal que apresentou os ciclos Liebesliederwalzer (Valsas-canções de amor) opus 52 e 65. Acompanhados pelos pianistas Oliver Pohl e Dana Sturm, seus parceiros eram a meio-soprano Katharina Kammerloher, o tenor Florian Hoffmann e o barítono Roman Trekel, marido e mentor musical de Roncaglio. É notável a versatilidade de estilos nos projetos abraçados pela cantora natural de Blumenau: do lied alemão à canzone napolitana, da ária barroca às canções de Villa-Lobos, da ópera mozartiana à MPB e o samba. E, como se não bastasse tamanha ousadia na música, ela também atua como fotógrafa profissional. Após o recital no Gläserne Foyer, o "Hall de Vidro" do prestigioso teatro berlinense, a DW entrevistou Cristiane Roncaglio sobre seu caminho pessoal no mundo do canto. Para ela, a disciplina exigida por uma carreira na Europa como um desafio enriquecedor: "A concorrência é muito grande, mas eu acho que ela faz você crescer, faz você ir para a frente." DW: Parabéns pelo concerto desta noite. É a primeira vez que você canta nas dependências da Staatsoper? Cristiane Roncaglio: É a primeira vez que eu faço alguma coisa dentre deste nome, que é muito grande. Essa série de recitais de lieder que eles fazem aqui é tão importante quanto a própria atividade operística. Então, dizer "hoje foi o meu debut neste Gläserne Foyer", para mim é arrebatador, me deixa muito feliz. Você está na Alemanha há 12 anos. Como foi a decisão de vir estudar na Escola Superior de Música Hanns Eisler, em Berlim? Eu tinha 23 anos quando saí com o diploma da Escola de Música e Belas-Artes do Paraná. e senti que alguma coisa ainda tinha que acontecer, eu precisava ir para fora. E a primeira coisa que eu pensei foi a Alemanha, porque eu venho de Blumenau, a cultura alemã sempre superpresente. Eu ainda era muito jovenzinha, não tinha ainda suporte, nem físico, nem de experiência, para começar uma carreira. Então entrei na Hanns Eisler daqui. Eu já era formada, mas mesmo assim foram três anos e meio para mim, e eu me formei em 2007 como cantora lírica. Como você descreveria o que a saída do Brasil lhe deu? O que você alcançou na Europa, em termos de formação, que talvez não alcançasse lá? Disciplina. Aqui você é forçado a ter muita disciplina e a estar sempre buscando um aperfeiçoamento. A gente nunca para, não diz "agora está bom, agora só vou cantar". A concorrência é muito grande: eu acho que ela faz você crescer. É estressante? É, lógico. Mas ela faz você ir para a frente, estar sempre buscando o melhor da sua própria técnica. Isso é definitivamente diferente do que você encontrava no Brasil? Sim, porque até mesmo o público daqui não perdoa muito. Nós temos essa coisa calorosa, sempre olhamos: "Ah, ele está doente hoje. Tudo bem, cantou mais ou menos, mas foi..." Aqui não existe isso, o público não quer saber se ele está com dor de garganta ou não, se tem problemas em casa, se está se separando. Eles pagaram, e bem, pelo ingresso, eles querem precisão, e cem por cento. É estressante, mas quem quer viver disso, como é o meu caso, quer pagar as contas com o que ganha, tem que se adequar a esse novo universo. E do ponto de vista humano, você considera essa uma experiência válida? Claro. Eu tenho a disciplina e tenho também a flexibilidade. E juntando os dois, eu chego bem longe. Sua agenda está cheia, por 2017 adentro, com diversos programas de recitais. Um projeto chama a atenção, em especial: "Um brasileiro em Berlim – Alberto Nepomuceno (1864-1920)", sobre esse compositor muitas vezes negligenciado. Ah, esse é um projeto bem bacana, junto com o Marlon Maia, um barítono brasileiro que também está fazendo carreira aqui. Vamos fazer as canções mais conhecidas do Nepomuceno, como as Trovas, por exemplo, mas também as que ele escreveu em alemão. Ele viveu aqui, estudou aqui também, e adorava os lieder alemães. Vai ser lindo, no Bode Museum. Dois outros projetos seus, centrados na música popular brasileira, também viraram CD: Brazilian sentiments e Sambalá. Há novos lançamentos previstos? Sim, dois. Tem o Parlami d'amore, onde eu canto desde Giovanni Battista Pergolesi e Giacomo Carissimi até a música napolitana dos nossos tempos, com bandoneón e viola portuguesa de fado – é um programa que eu amo. E um disco só de árias de ópera, com orquestra – autobiográfico, falando da minha vida, das cruzes que eu já tive que carregar. Vai ser lindo! Para além dos trabalhos já em andamento, quais são seus sonhos? Peças que pretende cantar, óperas de que quer participar? Eu quero fazer as Quatro últimas canções, do Richard Strauss. Eu quero fazer a Traviata - esse é o grande, grande, grande sonho. E eu quero cantar mais música brasileira clássica, para fazer o nosso país ser respeitado dentro da música erudita. Depois de ter tido professores como Roman Trekel e a soprano americano Barbara Bonney, que cantores que são, hoje, uma inspiração para você? Anja Harteros e Dorothea Röschmann. Que conselho daria aos jovens cantores brasileiros recém-formados que enfrentam agora no mesmo impasse que você 12 anos atrás: ficar no país ou completar a formação e tentar carreira na Europa? Venha, se você tiver nervos para segurar a barra da concorrência. Junto com isso, se você tiver uma bagagem musical definida e precisa; se você tiver disciplina. E se não tiver medo de estudar bastante, nem preguiça.

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