Tailândia mergulha em incerteza após morte de rei

Rodion Ebbighausen

Para muitos tailandeses, mais séria que a ameaça de instabilidade política é a crise espiritual aberta no país: Bhumibol Adulyadej simbolizava a ordem - o soberano budista ideal.A morte do rei Bhumibol Adulyadej, após sete décadas no trono, ameaça ainda mais a estabilidade da Tailândia, país já abalado por lutas políticas, intermináveis reformas constitucionais e golpes militares. Popular, o monarca de 88 anos era profundamente reverenciado, tido como uma figura unificadora – ainda que respaldado por leis draconianas de lesa-majestade. A dimensão da incerteza pode ser percebida no discurso que o primeiro-ministro tailandês e ex-general Prayuth Chan-ocha, que chegou ao poder através de um golpe militar em 2014, fez após a morte do rei, dizendo que a prioridade máxima seria a manutenção da ordem e da segurança. Desde então, forças militares adicionais garantem a segurança de posições-chave. Prayuth alertou para qualquer tentativa de se tirar proveito político da atual situação. Ele também instou a comunidade empresarial a prosseguir o tanto quanto possível com os seus negócios. Na Bolsa de Valores, a notícia da morte do rei ocasionou uma súbita queda no preço das ações, mas a situação se acalmou já no dia seguinte. Nem mesmo a crise econômica e política que se arrasta há anos consegue diminuir o choque para muitos tailandeses. Na realidade, o rei já não aparecia em público há bastante tempo, e sua influência sobre os acontecimentos políticos era pequena na comparação com anos anteriores. Mais séria é a crise espiritual que a morte do rei Bhumibol desencadeou. A Tailândia é um país budista, sendo boa parte de sua população profundamente religiosa. O rei simboliza e garante a ordem cósmica. Na imaginação de muitos tailandeses, o rei é o soberano budista ideal: por meio de autoridade moral e carisma, ele traz ordem ao caos telúrico. Para os seus súditos, o rei Bhumibol cumpriu completamente esse papel. O que muitas pessoas na Tailândia agora temem não é somente a crise política e econômica, com que têm que lidar há anos, mas um profundo abalo espiritual. Agora que o rei não está mais vivo, paira a ameaça de que virtudes budistas, como a bondade e moralidade, possam se perder na política. Está completamente em aberto se os militares e a monarquia vão conseguir abarcar todos esses níveis da sociedade. Os dois anos que se passaram desde o último golpe mostraram que, embora os militares sejam capazes de manter a estabilidade e a ordem, eles fracassaram num abrangente programa de reformas, que pudesse superar a profunda divisão política da sociedade. Apesar de diversas tentativas dos militares, a economia também não avançou. Embora os militares tenham saído vencedores no referendo constitucional de agosto de 2016, todos os partidos avaliaram como muito pequena a margem de manobra democrática garantida na Constituição. Não há nenhuma certeza de que as eleições previstas para 2017 vão realmente se realizar. A questão da sucessão, que é regulada pela Constituição e pela legislação palaciana, ainda não foi decidida, embora o primeiro-ministro Prayuth tenha anunciado nesta quinta-feira que o príncipe herdeiro de 64 anos Maha Vajiralongkorn deverá suceder a seu pai para "evitar o caos". Em 1972, o rei indicou seu filho como sucessor. Esse, no entanto, pediu um adiamento para chorar a morte do pai junto à população tailandesa. Talvez esta seja uma primeira tentativa de melhorar sua infamada imagem entre a população. O príncipe herdeiro foi casado três vezes. A mãe dele o comparou uma vez com um Don Juan. Ao contrário de seu pai, que foi um exemplo de sacrifício, humildade e disciplina, o príncipe herdeiro é considerado caprichoso, imprevisível e excêntrico – qualidades que o desacreditam como chefe de Estado ideal aos olhos de muitos tailandeses.

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