Opinião: Iraque precisa de uma nova cultura política

Kersten Knipp (md)

Batalha por Mossul poderá libertar a cidade dos jihadistas do "Estado Islâmico", mas não levará a paz ao Iraque. O que o país precisa com urgência é de uma nova mentalidade política, opina o jornalista Kersten Knipp.Saddam Hussein nunca gostou de xiitas. Nem mesmo quando ele era uma criança em Tikrit, onde corriam boatos desabonadores sobre eles, que seriam potenciais traidores da pátria, mais ligados ao Irã, o maior Estado xiita da região, do que ao próprio país. Mais tarde, em 1980, quando Saddam liderou o país numa guerra de oito anos contra o Irã, ele teve de ver como alguns xiitas se rebelaram contra o seu regime – o prelúdio da rebelião que eles tentaram no início de 1991, depois do ataque fracassado ao Kuwait. Foram os americanos que indiretamente os estimularam a isso. Quando Saddam, em busca de vingança, enviou suas tropas para as cidades xiitas no sul do Iraque, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, preferiu não intervir. O ditador iraquiano mandou matar e expulsar dezenas de milhares de xiitas, tirou deles o fundamento para a vida. Essa situação se manteve até a invasão americana, em 2003. Para os xiitas, ela veio como uma redenção. Assim, eles se viram totalmente reabilitados quando, em 2006, um deles, Nuri al-Maliki, assumiu o cargo de primeiro-ministro. No poder, foi a vez de ele começar a perseguir os sunitas, que não tiveram outra opção a não ser procurar proteção com os extremistas da Al Qaeda e, depois, do chamado "Estado Islâmico" (EI). Com isso, os jihadistas do EI se tornaram tão poderosos que, em meados de 2014, conquistaram a cidade de Mossul, no norte do Iraque, com milhões de habitantes, sem grandes esforços – um choque para todo o país. Os xiitas reagiram criando as chamadas Forças de Mobilização Popular. Agora, estas se aproximam, ao lado do Exército iraquiano, de Mossul, para reconquistar a cidade das mãos do "Estado Islâmico". Porém, não apenas em prol do Estado iraquiano, mas também – talvez até sobretudo – para elevar sua influência em regiões habitadas majoritariamente por sunitas. Essa longa história de violência dá uma ideia de como se apresenta o futuro do Iraque: ruim, muito ruim. As inúmeras brigadas que os xiitas enviaram para a batalha por Mossul dão a impressão de serem tão sombrias quanto os homens do EI. Também as atrocidades cometidas por elas contra os civis sunitas não ficam muito atrás das cometidas pelos combatentes do EI. Ambos os grupos, tanto os jihadistas sunitas como as milícias xiitas, fazem de tudo para impor a lógica de uma religião politicamente manipulada ao extremo. O Iraque é um excelente exemplo de como a violência duradoura pode dar amplamente cabo da sociedade civil. O regime de morte de Saddam, com suas centenas de milhares de vítimas, depois a invasão dos EUA em 2003, e depois os anos de combates: tudo isso fez com que a sociedade iraquiana se brutalizasse, gerando um pensamento dicotômico do tipo "ou meu amigo, ou meu inimigo", que corre em paralelo às linhas confessionais. Em grande parte se esqueceu que, onde agora marcham esquadrões da morte fundamentalistas, até há meio século florescia um espectro político no qual todas as cores políticas e religiões estavam representadas – incluindo também o vermelho do comunismo, defendido sobretudo por muitos xiitas. Isso acabou. Uma sociedade brutalizada se assenta sobre suas ideologias – nesse caso, uma religião interpretada de forma fundamentalista, entremeada de fantasias de destruição e aniquilamento. Em seu nome vale arriscar tudo, qualquer acordo pode ser jogado fora em nome de uma doutrina supostamente pura. Nós ou eles: essa é a lógica daqueles que concluem, a partir da história e do presente de seu país, que a política é a luta pelo todo e que qualquer compromisso é, portanto, um sinal de fraqueza. Os guerreiros se aproximam de Mossul. Eles não vão conseguir obter a paz enquanto não estiverem dispostos a enfrentar, após a batalha, um desafio muito maior: a reorganização da cultura política nacional. Esse seria o maior triunfo dos iraquianos, com consequências muito além das fronteiras do país.

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