Macri põe fim a subsídios ao futebol argentino

Philip Verminnen

Durante anos, futebol foi usado para remediar a arranhada popularidade do governo Kirchner, que praticamente nacionalizou as transmissões das partidas. Pressionado por clubes, presidente chuta medida para escanteio.O presidente da Argentina, Mauricio Macri, acabará este ano com a transmissão gratuita de jogos de ponta do futebol nacional, por meio de um contrato entre o governo e a Federação Argentina de Futebol (AFA). Criado em 2009, o programa Futebol para Todos é um dos mais polêmicos do governo da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner. Para seus apoiadores, ele democratiza o acesso ao esporte mais popular do país, permitindo que toda a população possa acompanhar os jogos. Para os detratores, é puro e simples populismo com verbas públicas, uma espécie de subvenção aos clubes da elite do futebol argentino. O pano de fundo da transmissão pelo Estado de partidas de futebol era a briga de poder entre os Kirchner e o grupo Clarín, que é um dos donos da empresa que, até 2009, detinha os direitos de transmissão dos jogos, a Torneos y Competencias. Para aceitar a proposta do governo – muito mais vantajosa – a AFA rompeu unilateralmente o contrato com a empresa do grupo Clarín. A decisão de Macri atende a um pedido dos clubes. Em agosto, o vice-presidente da AFA, Claudio Tapia, indicou que a federação já tem na gaveta um acordo para transferir os direitos de transmissão ao empresário americano Ted Turner por cerca de 3 bilhões de pesos (138 milhões de dólares) por ano, valor bem superior aos 1,8 bilhão de pesos que recebe do Estado argentino. Turner é o criador da emissora CNN e estaria interessado em adquirir o canal aberto argentino Telefé. Para aceitar o fim do contrato, Macri teria imposto uma condição: que o futebol seguisse sendo gratuito para a população até 2019, como previsto no atual contrato do governo com a AFA. A gratuidade das transmissões é uma promessa eleitoral do chefe de Estado, embora ela seja contra seus ideais liberais. Macri, porém, sabe do poder do futebol na política argentina. Ele próprio foi presidente do clube mais popular do país – o Boca Juniors – de 1995 a 2007. Foi ao longo desses 12 anos que criou um nome e se aproximou de milhões de futuros eleitores. Poucas semanas depois de ter assumido a presidência da Argentina, em janeiro, Macri determinou que os jogos dos quatro principais clubes do país – Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing Club – fossem transmitidos no Canal 13, emissora do Grupo Clarín, e na Telefé. Desde a criação do Futebol para Todos, os jogos do campeonato argentino, da Libertadores e Sul-Americana (quando havia clubes argentinos envolvidos) e até da seleção eram transmitidos somente na televisão pública. Mas o que é o Futebol para Todos? Em muitos países, o futebol é administrado por uma liga, que funciona como uma empresa privada que negocia contratos televisivos e de publicidade. Essa liga opera sem vínculos com o Estado e a confederação nacional de futebol, que normalmente fica restrita à organização dos jogos da seleção nacional. Na Argentina, o futebol foi usado para remediar a arranhada popularidade da então presidente Cristina Kirchner. Em meio a uma forte batalha de poder com o Grupo Clarín, notório por ser contrário ao kirchnerismo e que, na época, era o detentor dos direitos de transmissão, Cristina praticamente nacionalizou as transmissões esportivas. Desde 2009, o governo subsidia o futebol com cerca de 1,8 bilhão de pesos por ano. Com o argumento de que ampliar o acesso do futebol à população, Cristina nomeou o programa de Futebol para Todos. Ela aparecia nos jogos e se deixava presentear com camisas da seleção no meio do campo. Nos intervalos das partidas, eram exibidos anúncios oficiais da Casa Rosada, com obras de sua gestão nos telões dos estádios e na televisão. Anúncios de empresas privadas eram proibidos. Cristina Kirchner também convencia a AFA a atender desejos. Alguns eram um tanto bizarros, como nomear a liga argentina de Eva Perón, o que foi rejeitado. Outros tinham claramente um interesse político – como agendar os principais jogos da rodada de domingo para o mesmo horário do programa Periodismo para Todos, conduzido pelo jornalista Jorge Lanata, critico ferrenho do governo. No dia da oficialização da estatização, a presidente prometeu que o lucro excedente obtido com as transmissões dos jogos seria destinado ao estímulo dos esportes olímpicos. No entanto, nem um peso sequer chegou ao setor olímpico, já que, sem patrocinadores, a estatização dos jogos só gerou déficit para o Estado argentino. A estatização gerou também uma onda de corrupção no futebol. Apesar do montante vindo do Estado, a maioria dos clubes está quebrada financeiramente. Em 2016, três ex-chefes de gabinete do governo Cristina Kirchner, Aníbal Fernández, Juan Manuel Abal Medina e Jorge Capitanich, foram indiciados pelo desvio milionário de verbas públicas do Futebol para Todos. A produção das transmissões era realizada desde 2009 pela produtora La Corte, que, coincidentemente, também era responsável pela transmissão dos atos oficiais na Casa Rosada. O programa Futebol para Todos foi o único caso mundial de estatização das transmissões dos jogos. Com a rescisão de contrato do governo, a imprensa argentina afirma que já há diversos interessados em adquirir os direitos de transmissão. Empresas como IMG, Artear, Fox, Al-Jazeera, MediaPro e o próprio Clarín estariam na corrida. Mas o nome mais forte é o de Ted Turner, criador do canal noticioso CNN. Segundo o diário Clarín, representantes da Turner já teriam se reunido com Marín para negociar detalhes do contrato.

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