Opinião: Menos bastidor, mais coragem

Volker Wagener

Campos políticos alemães deveriam simplesmente lançar seus candidatos à presidência em vez de manter a atual prática de tentar formar maioria antes da eleição, opina o jornalista Volker Wagener.O grande jogo de estratégia em torno da sucessão do presidente alemão, Joachim Gauck, começou mais cedo do que se pensava. Sigmar Gabriel não conseguiu se segurar: Frank-Walter Steinmeier, ministro alemão do Exterior, deverá ser o candidato, afirmou Gabriel, líder do Partido Social-Democrata (SPD). Uma gafe política, uma falta de tato? Nem uma coisa nem outra. Foi uma jogada. A situação é a seguinte: existe um acordo entre os partidos da coalizão de governo, segundo o qual a União Democrata Cristã (CDU) e a União Social Cristã (CSU) – ou simplesmente a União, no jargão político alemão – e o SPD definiriam juntos um candidato. Mas essa ideia foi agora frustrada por Gabriel. E não pela primeira vez. Há duas semanas, o presidente do SPD já sondara o Partido Verde e A Esquerda, ambos de oposição, para ver se eles concordariam em eleger a pastora luterana Margot Kässmann para a presidência da Alemanha. A ex-presidente da Igreja Evangélica da Alemanha (EKD) e o ministro do Exterior do país têm em comum a popularidade e o fato de serem conhecidos por amplas camadas da população – eles teriam chances de ser eleitos até mesmo numa eleição direta. Segundo pesquisa do instituto de opinião Emnid, 41% dos alemães querem que o posto de presidente seja ocupado pelo atual chefe da diplomacia do país. Nenhum outro candidato tem tanta aprovação. Na Alemanha, porém, quem elege o presidente não é o povo, mas uma assembleia reunida para esse fim, e nela valem outras regras. Os candidatos não fazem campanha eleitoral, eles são simplesmente nomeados e depois eleitos por aqueles que detêm uma maioria – ou que pretendem alcançá-la. No entanto, tais maiorias não são organizadas publicamente, mas à surdina (e o presidente do SPD sabe disso), até porque a escolha do presidente se realiza meio ano antes das eleições parlamentares. Tudo é, portanto, estratégia, e a procura por uma maioria na assembleia que elege o presidente é vista como um teste para opções de futuros parceiros de coalizão. Assim, não se deve pensar que Gabriel está sendo ingênuo. Ele quer se posicionar e apenas está fazendo pressão. Principalmente sobre Angela Merkel, que já teve mais força para impor paz e disciplina dentro da coalizão. Gabriel quer somar pontos junto aos eleitores que prestigiam Steinmeier. No entanto, a União, que indica 40% dos assentos na assembleia que elege o presidente, não quer, por motivos compreensíveis, ter um social-democrata como candidato. Por outro lado, Steinmeier até seria um candidato aceitável para os conservadores – tirando as opiniões sobre a Rússia. Mas o que mais desagradou a União foi a precipitação do chefe do SPD: parceiros de coalizão gostam de ser consultados antes para não perderem a confiança. Além disso: raramente a sociedade alemã esteve politicamente tão tumultuada quanto agora, sob o impacto da atual política migratória, do crescimento do partido populista de direita AfD e da desestabilização da União Europeia. O novo – ou a nova – ocupante do Palácio Bellevue, sede da presidência em Berlim, precisa ter muitas qualidades: equilibrar e integrar, entender o seu tempo e saber falar bem. Steinmeier seria alguém assim. Mas também Nobert Lammert, atual presidente do Bundestag. Da mesma forma que Andreas Vosskuhle, presidente do Tribunal Constitucional Federal. Ambos, assim como outras pessoas de respeito, já rejeitaram um possível convite. Tudo isso não só é lamentável como também irritante. Pois aclamações precoces e públicas de possíveis candidatos intimidam principalmente os "bons", aqueles que seriam mais adequados para o cargo. Quem quer arriscar uma candidatura se a eleição não é garantida? E é justamente essa situação que os rituais de bastidores estimulam. Seria um ganho para a democracia se dois candidatos de alto nível, provenientes dos dois grandes campos políticos, competissem entre si. Depois de perder para Christian Wulff na eleição de 2010, Joachim Gauck não ficou realmente em desvantagem. Ele só recebeu as chaves de Bellevue um pouco depois, numa segunda tentativa. Também Richard von Weizsäcker perdeu para Walter Scheel em 1974, antes de se tornar um presidente altamente respeitado em 1984. Ou seja: é preciso mais coragem para correr riscos e menos medo de perder. Até porque, caso se chegue a uma terceira e decisiva votação, a maioria simples basta para a vitória.

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