Opinião: A paralisia alemã na proteção do clima

Jens Thurau

O pioneirismo da Alemanha é coisa do passado. O país vai à Conferência do Clima no Marrocos de mãos vazias, pois não consegue fechar seu plano de ação para 2050 antes do evento. E isso é constrangedor, opina Jens Thurau.Nas conferências sobre o clima, os alemães gostam de ouvir que são os precursores na redução de gases causadores do efeito estufa e pioneiros mundiais com sua política de virada energética e indústria limpa. Afinal, que país rico reduziu, desde 1990, as emissões mais que a Alemanha (no momento a diminuição é de 27%). A Alemanha, o superpaís que respeita o clima. Há um ano, as palavras "beyond 2 degrees" (além dos dois graus) estavam orgulhosamente estampadas no pavilhão alemão na lendária Conferência do Clima de Paris. Rapidamente, o local se tornou ponto de encontro de negociadores, ambientalistas e profissionais dos meios de comunicação de todo o mundo. A Alemanha estava na vanguarda. Dentro da Alemanha, porém, o coro de elogios entoados no cenário internacional não são ouvidos com o mesmo vigor. A grande coalizão que governa o país se comprometeu a elaborar um plano concreto, que vá até 2050, para sua política climática. Essa estratégia deve incluir como a Alemanha pretende alcançar seu próximo objetivo de diminuir a emissão de gases de efeito estufa em 40% até 2020; quando o país vai deixar de usar o carvão; e como quer combater as ainda sempre elevadas emissões que se originam do setor de transportes e da agricultura. A estratégia terá que responder ainda como será alcançada a ambiciosa promessa de alcançar neutralidade climática até a metade do século, como anunciou a chanceler federal Angela Merkel na cúpula do G7 no ano passado, na própria Alemanha. Porém, a proposta do Ministério do Meio Ambiente, no caminho para deliberação de diversos ministérios, tem sido talhada em pequenos pedaços, principalmente pelo ministro da Economia, Sigmar Gabriel, do Partido Social-Democrata (SPD); pela chancelaria federal de Angela Merkel, da União Democrata Cristã (CDU); e seu chefe de gabinete, Peter Altmaier, da CDU. Todos os citados já comandaram, no passado, a pasta do Meio Ambiente. Agora, o plano não é nada mais do que uma lista não vinculativa de boas intenções. E até mesmo esta listagem patética não é resolvida antes da Conferência do Clima deste ano em Marrakesh, no Marrocos, porque a CDU tem ainda a necessidade de realizar alterações no texto. Agora, mas com atraso, a ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, brada em alto volume por uma posição firme da chancelaria federal – algo que, provavelmente, não vai ouvir. Por isso, ela deverá ir de mãos vazias à Conferência do Clima anual, que começa na próxima semana. Atualmente há, sem dúvida, temas mais urgentes na política. Há questões como a dos refugiados, populismo de direita e crises internacionais na Síria e na Ucrânia. Há também alguns temas sociais que foram por muito tempo negligenciados, como as aposentadorias. Em breve começará na Alemanha a corrida eleitoral, e todos esses problemas serão, mais uma vez, discutidos. Enquanto isso, a transição energética é executada silenciosamente por todo o país. Mas por que se preocupar com o clima se nós ainda estamos atuando ativamente na questão? Nós construímos turbinas eólicas e painéis solares, e deixamos de lado a energia nuclear – assim pensam os políticos. Mas os problemas estão nos detalhes: por exemplo, na dependência que o setor energético tem do carbono, que deve ser mantida em consideração a Renânia do Norte-Vestfália e Brandemburgo, estados ricos em carvão e governados pelo SPD, partido membro da coalizão de Merkel. E no setor de transportes, onde a indústria alemã ignorou tendências do futuro, como a mobilidade elétrica. É tempo de dar um novo impulso: poucos países têm tão boas condições de proteger o clima de forma ambiciosa como a Alemanha. Isso inclui dar novos passos neste sentido – e agora. Que no passado muito já foi feito, isso não deve servir de desculpa. E sem a Alemanha tendo seu importante papel crível será difícil dar realmente vida ao grande juramento de Paris, de manter o aquecimento abaixo dos dois graus.

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