"Paisagem urbana de Pyongyang está mudando", diz arquiteto

Esther Felden (ca)

Em entrevista, Calvin Chua, que atua na Coreia do Norte, fala à DW sobre monumentos de concreto, imensas praças públicas e sobre o que a arquitetura da capital diz sobre a cidade e a sociedade norte-coreana.Calvin Chua leciona na Universidade de Tecnologia e Design de Cingapura. Como arquiteto, ele já participou de vários projetos premiados na Europa e na Ásia. Nos últimos tempos, ele tem trabalhado na Coreia do Norte, onde organiza oficinas das quais arquitetos estrangeiros e locais participam e trocam ideias. Em entrevista à DW, Chua fala sobre o que o fascina na Coreia do Norte, sobre como a imagem de Pyongyang mudou nos últimos anos e sobre a criatividade dos arquitetos norte-coreanos. Deutsche Welle: Quando e como você teve a ideia de atuar na Coreia do Norte? Calvin Chua: A Coreia do Norte já me interessava quando estudei na escola a história e a política da Guerra Fria. A minha curiosidade foi aguçada. Viajei pela primeira vez ao país quando estava na universidade, como turista. O que exatamente o motivou a trabalhar lá? Motivos arquitetônicos ou interesse geral pelo país? Aquelas imensas praças públicas e os monumentos de concreto foram a primeira coisa que me atraiu em Pyongyang. Mas, mais tarde, foram mais os pequenos detalhes que compõem a cidade. Pormenores como os vasos de plantas em quase todas as varandas dos prédios habitacionais ou as pequenas lojas onde se pode comprar de roupas a azulejos para piso. Isso permite ter uma impressão da sociedade norte-coreana. Para um leigo, a aparência de Pyongyang é cinza e monótona. Qual a real diversidade da arquitetura da cidade? E quais são as típicas características arquitetônicas? A característica mais marcante da arquitetura em Pyongyang é o uso de concreto armado. Este é o material de construção mais utilizado. Ele enfatiza o caráter monumental dos edifícios. Quando se vai mais um pouco além, também se pode deduzir algo sobre a história da cidade por meio das diferentes tipologias construtivas. Prédios governamentais e outros edifícios públicos, que foram construídos logo após a Guerra da Coreia, são caracterizados por um estilo neoclássico, já que foram projetados em cooperação com arquitetos soviéticos e da antiga Alemanha Oriental. Por outro lado, os blocos habitacionais com seus edifícios pré-fabricados sóbrios e sem adornos têm algo de modernista. Projetos dos anos 1970 e 1980 utilizam, por sua vez, elementos tradicionais, como os telhados de telhas coreanos. Até certo ponto, a arquitetura de determinadas casas é muito variada, mas quando se observa o todo, a paisagem urbana pode parecer bastante monótona para um turista que vem pela primeira vez ao país. Que mudanças na arquitetura local você tem observado ao longo dos anos? Quando estive pela primeira vez no país, em 2008, havia uma relação próxima entre a arquitetura dos edifícios individuais e o quadro geral da cidade. Por exemplo, variava-se a altura dos prédios habitacionais para melhorar a vista para as ruas. Devido ao maciço boom da construção nos últimos anos, parece que o mero ritmo passou a prevalecer frente a uma arquitetura unificada. Assim, por exemplo, nas proximidades da Praça Kim Il-sung, foram construídos diversos arranha-céus no meio de uma área residencial. Isso não é comum, pois eles não combinam com o gabarito baixo dessa praça monumental. Também as torres de apartamentos na rua Mirae e na rua Ryomyong apresentam uma arquitetura bastante diferente. Elas parecem representar uma ruptura com as tradições anteriores, quando os prédios no mesmo distrito deveriam apresentar uma similaridade. Quais são os prédios mais incomuns de Pyongyang em termos arquitetônicos? A Grande Sala de Estudo do Povo, onde realizamos nossos seminários, é impressionante devido às suas proporções espaciais e seus detalhes arquitetônicos. Comparado a outros edifícios, ali foi dada, aparentemente, muito mais atenção ao projeto. Por outro lado, a casa dos répteis no Zoológico Central mostra para qual direção a arquitetura poderia ir na Coreia do Norte. O interior se parece com uma biosfera; o lado de fora, no entanto, tem a aparência de uma tartaruga. O projeto e a construção dessa unidade são únicos na Coreia do Norte, pois se trata de um dos poucos edifícios no país onde foi utilizado principalmente o aço como material de construção. Além disso, ele possui uma geometria em curva e contracurva. Normalmente, os projetos construtivos norte-coreanos são executados por grandes equipes: arquitetos, engenheiros e trabalhadores da construção civil. Nesse caso, foi somente um grupo pequeno, que, além disso, trabalhou em estreita colaboração com fabricantes estrangeiros. Em suma, este exemplo mostra quão ambicioso é o cenário da arquitetura norte-coreana e que potencial ainda se encontra nele adormecido. Desde que Kim Jong-un está no poder, teve início um verdadeiro boom de construção. Um dos edifícios residências de maior prestígio, que você mencionou anteriormente, desabou no início de 2014. O que se pode dizer da qualidade média da construção e dos materiais utilizados? Trocamos ideias com arquitetos e engenheiros norte-coreanos. Com base nisso, posso dizer que estão trabalhando para melhorar o isolamento e a impermeabilidade das construções de novos edifícios. Isso é absolutamente necessário devido às temperaturas extremas e à falta de energia elétrica durante os meses de inverno. A situação política na Coreia do Norte é bastante conhecida. Que dificuldades você teve para se estabelecer nesse contexto? E que obstáculos você teve de superar? Minha vinda foi organizada pela Choson Exchange, uma organização sem fins lucrativos com sede em Cingapura e que oferece treinamento empresarial à Coreia do Norte. Primeiramente, eu participei de alguns programas como voluntário, antes de organizar as primeiras oficinas em cooperação com a Architecture Association School of Architecture (AA, Londres). Talvez o maior desafio tenha sido organizar esse workshop apesar das opções limitadas de comunicação. Há dois anos, você organizou pela primeira vez um programa de intercâmbio, em que jornalistas estrangeiros podiam viajar durante dez dias pela Coreia do Norte. O que esse programa oferece e até que ponto é possível, realmente, se aproximar dos arquitetos locais? O programa começa com um passeio de dois dias pela cidade. Em seguida, há várias palestras e intensas sessões de análise. Apesar de algumas diferenças culturais e da barreira do idioma, os estrangeiros cooperaram muito bem com os arquitetos norte-coreanos. Por meio de rascunhos digitais e maquetes virtuais, eles falaram sobre ideias e conceitos. O fato de usarem um único software de arquitetura foi muito importante para ambas as partes. Há planos de convidar arquitetos norte-coreanos para o exterior? Ou isso não é possível? Temos interesse em convidá-los para vir ao exterior, mas isso depende dos recursos financeiros. Além disso, precisamos de programas adequados dos quais possam participar. Os estudantes de Arquitetura recebem algum estímulo na Coreia do Norte? Não, mas têm a chance de desenvolver suas habilidades técnicas logo cedo. Assim, no último ano na universidade, os alunos podem trabalhar em verdadeiros projetos construtivos sob a orientação de um arquiteto mais experiente. Isso lhes oferece a oportunidade de adquirir experiência prática como parte do currículo, antes de se formarem. Você se deparou com algum arquiteto especialmente talentoso? Os participantes de nossos workshops são todos talentosos. Muitos receberam condecorações em Pyongyang ou trabalharam em projetos de prestígio. Como um coletivo, eles são capazes de executar um projeto em curto espaço de tempo. Até que ponto um arquiteto pode ser criativo? Quanta liberdade artística há lá? Teoricamente, um arquiteto pode ser criativo – desde que suas ideias combinem com a Ideologia Juche [ideologia oficial do país]. Mas se trata antes de um conjunto de princípios do que diretrizes estilísticas dogmáticas. Na realidade, a criatividade é limitada, no entanto, pelos materiais que se encontram à disposição – o concreto, em primeira linha. Isso também explica por que as construções parecem, muitas vezes, maciças e pesadas. O que você espera alcançar com as oficinas? Quais são seus objetivos para o futuro? Através do contato direto com as pessoas, os workshops representam uma possibilidade de entender melhor a cidade e a sociedade norte-coreana. Pretendemos reunir nossas experiências e, eventualmente, organizar uma exposição e publicar um livro.

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