Trump ou Hillary: o que espera Wall Street?

Sophie Schimanski (lpf)

Às vésperas da eleição nos EUA, investidores demonstram sinais de preocupação e pouco entusiasmo em relação a ambos os candidatos à presidência. Previsibilidade de Hillary é apontada como vantagem em relação a Trump.Wall Street é uma das questões mais polêmicas da corrida eleitoral de 2016 nos EUA. Durante a campanha, os candidatos dos dois maiores partidos – a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump – adotaram um tom bastante crítico sobre as práticas no distrito financeiro e ressaltaram suas predileções por uma reforma no setor. A retórica dos candidatos não surpreende, dada a imagem negativa que banqueiros e instituições financeiras têm atualmente no eleitorado americano. Afinal, eles são amplamente vistos como os culpados da crise financeira de 2008, da qual a economia ainda não se recuperou completamente. Os efeitos ainda são sentidos por grande parte da população dos EUA, cujos sonhos de empregos bem remunerados e vidas melhores foram destruídos pela crise. Oito anos depois da turbulência nos mercados financeiros, Wall Street continua sendo assombrada por controvérsias e escândalos. E como nenhum outro setor da economia, o financeiro é caracterizado pela ganância, crueldade e falta de escrúpulos. A situação oferece aos candidatos à presidência a oportunidade de enaltecer a si mesmos ao criticarem o setor financeiro. Num evento de campanha no início do ano, Hillary disse que estava determinada a agir contra Wall Street, fechar lacunas e adotar medidas para reduzir o salário de executivos. A candidata também se referiu à legislação Dodd-Frank, de 2010, que foi promulgada em resposta à crise. Ela observou que a lei permitiu que o governo mantivesse os bancos sob controle ao impor exigências de capital próprio mais altas e controles estritos sobre suas atividades. Afirmando estar orgulhosa dos esforços da Casa Branca, Hillary disse que, se eleita presidente, implementaria a lei Dodd-Frank de maneira muito mais vigorosa. Trump também usou um tom inflamado para falar sobre os excessos da Bolsa de Valores de Nova York e de Wall Street. Ele criticou o setor numa entrevista à Fox News em abril, sublinhando que adotaria medidas contra aqueles de Wall Street por ganharem muito e pagarem poucos impostos. Posição firme Embora haja poucos pontos sobre os quais Hillary e Trump concordam, os dois parecem adotar uma posição igualmente firme quando se trata do setor financeiro. Mas apesar de suas críticas severas, não está claro quão determinados eles estão para realmente transformá-las em medidas concretas após a eleição. Isso porque ambos tiveram relações extensas com o setor durante várias décadas, afetando sua credibilidade nessa frente. Trump, ele mesmo um homem de negócios, foi criticado por ter pagado poucos impostos ao explorar disposições do código fiscal americano. É questionável se ele realmente quer fechar essas lacunas. Por outro lado, Hillary teve dificuldade em justificar seus discursos bem pagos em bancos, pelos quais recebeu quantias astronômicas. Enquanto Trump se negou até agora a revelar sua declaração de impostos, Hillary não divulgou as transcrições de seus discursos. Entretanto, e-mails hackeados revelados pelo Wikileaks dão uma ideia sobre como a democrata vê o setor financeiro. De acordo com as mensagens, em um dos discursos Hillary até mesmo livrou parcialmente os banqueiros da culpa pela crise financeira. Temores dos investidores Mas será que realmente importa para Wall Street quem será o próximo presidente? Peter Costa, corretor de ações, responde que sim. Atuando na Bolsa de Nova York há 35 anos, ele vivenciou ali os mandatos de seis presidentes – três de cada partido. "Os mercados sempre tiveram bom desempenho sob os democratas." Wall Street sempre presta mais atenção a impostos e regulamentações, diz Costa, apontando que a tributação excessiva e a regulação complexa impedem que pequenos negócios deslanchem. O imposto corporativo americano – que está em torno de 39% - é um dos mais altos do mundo. Enfatizando que quer fortalecer os negócios no país cortando impostos e aliviando a regulamentação, Trump afirmou que reduziria a alíquota de 39% para 15%. O republicano também pretende proteger a economia doméstica de produtos importados baratos, ao mesmo tempo em que pretende impulsionar as exportações. Assim, sua intenção seria controlar o galopante déficit comercial americano. Especialistas afirmam que a política de Trump remete à adotada pelo ex-presidente Ronald Reagan nos anos 1980. "Ela é claramente voltada para o lado da oferta", afirma Oren Cass, do Instituto Manhattan, que apoiou o republicano Mitt Romney na eleição presidencial de 2012. À primeira vista, Trump parece ser o candidato dos sonhos de Wall Street. Hillary tem um plano No entanto, Wall Street não é fã do candidato republicano. "O problema de Trump é bem diferente – ele é muito imprevisível para nós", diz Costa. O magnata não apresenta plano concreto algum – a coisa que investidores mais odeiam é a incerteza. Essa é exatamente a vantagem de Hillary, apontam analistas, destacando que ela é a candidata mais estável nesta eleição. Isso porque ela ao menos tem um plano, embora Wall Street não o aprove. Apesar de querer manter os impostos inalterados, a democrata quer reforçar a lei Dodd-Frank, preocupando Wall Street. "Ainda assim, Hillary continua sendo Hillary, o que significa que ela tem um plano, ela tem foco, ela tem uma ideia, e não importa o que ela vá colocar em prática, sabe-se o que é", ressalta Costa. "E mesmo com o plano de Hillary para os impostos, que é extremamente complicado, é preciso dar crédito a ela. Não sou um grande fã dela, mas se você tem alguma clareza antes da eleição, você sabe o que vai vir depois dela. E acho que essa é a vantagem de Hillary em relação a Trump." Mesmo o fato de Trump ser empresário não impressiona muitos em Wall Stret, onde se reconhecem as grandes falhas do republicano envolvendo a companhia aérea Trump Airlines, a Universidade Trump e os cassinos do magnata. Como os mercados vão reagir? Costa afirma que os mercados vão sofrer queda se Trump ganhar a eleição, o que também é apontado por uma série de estudos. O instituto de pesquisa Macroeconomic Advisers, por exemplo, estima que as ações cairão em 8%. Para chegar a esse número, pesquisadores analisaram resultados de enquetes com eleitores e seu impacto nos preços das ações. Eles descobriram uma correlação negativa entre a popularidade de Trump e os movimentos do mercado de ações, indicando que investidores estão mais preocupados com a perspectiva de Trump do que de Hillary na Casa Branca. "Não sou fã de Hillary, ninguém aqui é", diz Costa. Mesmo assim, Wall Street decidiu apoiar a democrata, por considerar a alternativa – Trump na presidência – simplesmente preocupante demais.

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