Donald Trump: rebelde e narcisista

Jefferson Chase (fc)

  • Carlo Allegri/Reuters

Ele vem cunhando sua marca ao mesmo tempo impetuosa e grosseira há 40 anos. Dois dos biógrafos de Trump dizem que a personalidade dele basicamente começa e termina com um enorme amor por si próprio.

Pergunte aos biógrafos de Donald Trump sobre a personalidade do magnata, e eles vão começar a fazer uma associação livre de palavras, como se não pudessem evitar: agressivo, incoerente, sem princípios, materialista, presunçoso, perspicaz, indisciplinado, imprevisível e carismático são alguns dos adjetivos mais usados para descrever Trump.

Mas duas palavras se destacam: narcisista e vendedor. "Ele é um vendedor e está vendendo a si mesmo. Ele acredita em si mesmo", diz, em entrevista à DW, Gwenda Blair, autora de dois livros sobre o magnata e sua família. "Muito ocasionalmente, quando alguém chega até Trump com a ideia de que algo que ele fez não teve sucesso, ele reage como se tivesse se ferido. Ele fica visivelmente muito perturbado e ataca. É uma ferida narcísica."

O biógrafo Timothy L. O'Brien, autor do livro "TrumpNation: The Art of Being The Donald" (ainda sem edição no Brasil) sabe do que Blair está falando. Trump processou o escritor, sem êxito e por 5 bilhões de dólares, por ele ter tido a ousadia de sugerir que a fortuna do magnata do setor imobiliário, que se transformou em estrela de reality show nos EUA, era menor do que anunciado publicamente pelo empresário.

"Essencialmente, ele é um menino de sete anos que envelheceu. Ele pode ser convincente pessoalmente, mas também é uma pessoa muito indisciplinada intelectual, emocional, financeira e publicamente", afirma O'Brien à DW. "Ele é um profundo narcisista. A pessoa que mais lhe interessa em cada momento de sua vida é ele mesmo."

Blair e O'Brien concordam que não existe um Trump na vida privada diferente do magnata que vemos na televisão. Ou como Blair diz: "Essa maneira de falar é exatamente quem ele é." Portanto, a questão é menos sobre quem é o homem, mas como ele conseguiu ganhar a nomeação do Partido Republicano, uma vez que ele é um dos candidatos mais incomuns já vistos na corrida à Casa Branca.

Alguém deve levar a culpa

É muito fácil criticar a personalidade de Trump, mas seus biógrafos afirmam que é importante não subestimar a habilidade do candidato em canalizar a raiva sentida por muitos americanos. "A candidatura de Donald Trump reflete o longo braço da crise financeira de 2008", afirma O'Brien. "Essa crise deixou muitos americanos da classe trabalhadora pós-industrial em situação muito incerta.

A capacidade deles de pagar hipotecas, pensões, e colocar seus filhos na escola foi ameaçada.Toda a noção do chamado sonho americano foi ameaçada." Há uma sensação de ressentimento sobre ser excluído no país, sobre uma elite que controla as coisas, um Congresso que está quebrado, uma pequena porcentagem no topo que manipula tudo", concorda Blair. "Alguém tem que levar a culpa. E Trump aparece com uma longa lista de pessoas que são culpadas, de imigrantes a mexicanos e muçulmanos, de mulheres à mídia mentirosa."

Outro fator na habilidade de Trump de apelar para as massas é sua autoconfiança, que, segundo Blair, foi infundida nele durante a infância. Na vida privada, Trump é um abstêmio. Sua droga, por assim dizer, é o sucesso. "Ele tem a convicção básica de que ganhar dinheiro é a mais alta aspiração e que vencer a todo custo é a coisa mais importante", conta Blair.

"Sua família e o próprio Donald são muito influenciados por Norman Vicent Peale e [seu livro] O poder do pensamento positivo: guia prático para solução dos seus problemas diários. A premissa mais importante de Peale é que o sucesso é a coisa mais importante, e que isso faz parte do plano de Deus."  A ironia é que, embora Deus possa ter um plano, Trump, muitas vezes, não tem.

Assustado consigo mesmo?

No passado, Trump anunciou três vezes que iria concorrer à presidência apenas para se afastar da ideia antes que as coisas ficassem sérias. O'Brien diz que Trump raramente planeja algo no longo prazo. Ele acredita que o candidato republicano foi entrando na política aos tropeços, depois que sua carreira de negócios piorou, e ele passou de um legítimo desenvolvedor do setor imobiliário a celebridade da televisão, e alguém que empresta seu nome a tudo, de roupas íntimas a bifes, de vodka a edifícios.

"Eu acho que ele percebeu: eu tenho toda essa atenção e publicidade gratuita simplesmente fazendo algumas poucas paradas durante a campanha eleitoral", diz O'Brien. "É um ótimo marketing gratuito e ele não estava errado sobre isso. Em algum lugar na porção reptiliana de seu cérebro deve haver uma parte que está assustada por ele ter conseguido chegar tão longe, porque ele sabe que não é apto para exercer o cargo."

Os biógrafos de Trump duvidam que ele tenha qualquer convicção política profunda – uma visão baseada no fato de o candidato republicano ter apoiado posições independentes e de esquerda no passado. A atual tendência conservadora de Trump pode ter surgido simplesmente porque a oportunidade estava no lado republicano, embora ele também pareça ter uma animosidade particular contra Barack Obama, que publicamente zombou diversas vezes do empresário.

"Em 2011, ele começa com uma teoria da conspiração de que Obama não havia nascido nos EUA e explora sua não tão profunda ira racista por ter um homem negro na Casa Branca", afirma Blair. "É quando ele se afasta de suas políticas mais ou menos liberais e dá uma dura guinada à direita."

Uma figura divertida, mas perigosa

Em muitas situações, a falta de crenças políticas estabelecidas em Trump pode ser uma vantagem, mas seus biógrafos dizem que isso também é um indicativo de uma ausência básica de caráter. "Ele não é condicionado por ideologia ou qualquer tipo de moralidade, então é provável que, em algumas circunstâncias, encontre uma maneira de realizar coisas que parecem impossíveis", afirmou Blair à DW. "Mas há uma notável falta de juízo ético e moral em tudo isso."

Se a corrida presidencial fosse exclusivamente sobre a insatisfação dos eleitores americanos com o status quo, Trump provavelmente venceria a eleição. Mas, embora a maioria dos eleitores possa ver desfavoravelmente sua rival Hillary Clinton, Trump é muitas vezes visto como um desequilibrado. Com suas explosões noturnas no Twitter e o fato de depreciar e apalpar mulheres, ele certamente parece – para citar Hillary – desvairado.

"Uma medida óbvia de sua insegurança são as coisas sobre as quais ele conta vantagem", explica O'Brien. "Se ele estivesse seguro sobre ser uma pessoa rica, não precisaria se gabar tantas vezes sobre quanto dinheiro tem e drasticamente inflá-lo... Se ele realmente estivesse seguro de seu apelo quanto às mulheres, não precisaria constantemente sair pelo mundo se vangloriando sobre com quantas mulheres dormiu ou tentou dormir."

E, embora a extravagância de Trump o torne uma figura pública divertida, até mesmo fascinante, seus biógrafos dizem que sua falta de conhecimento e interesse sobre o mundo, combinado com o resto de suas deficiências pessoais, deveriam desqualificá-lo para a Casa Branca.

"Trump é uma pessoa perigosa", alerta O'Brien. "É perigoso porque é intencionalmente ignorante e profundamente intolerante. Porque é inseguro sobre quem ele é, e exagera em suas reações. Alguém que tem acesso ao 'botão nuclear', mas não tem nenhum senso sobre parâmetros dos assuntos globais é, por natureza, uma pessoa perigosa."

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