Estados Unidos, um país dividido

Peter Geoghegan (ca)

Apesar do tom mais brando adotado por ambos os lados após as eleições, muitos americanos questionam a capacidade de Donald Trump de unir um país profundamente fragmentado.Entre os frequentadores da tarde de um bar irlandês-americano, um local pouco glamoroso localizado a poucos quarteirões de Wall Street, no coração de Manhattan, a conversa gira em torno de um só tema: Donald Trump. Como também no resto dos Estados Unidos, os clientes estão divididos sobre o inesperado novo presidente do país. "Tenho um filho de 14 anos. Estou muito preocupada sobre o que aconteceu", afirma ShaCarol Holland, de 36 anos. Negra, ela diz estar receosa diante de um presidente que fez regularmente comentários racistas durante sua controversa campanha. Mas Randy Smith garante não ter nenhum medo. Aos 56 anos, ele pertence ao pequeno número de afro-americanos que votaram no candidato republicano na eleição do dia 8 de novembro. Hillary Clinton era a "candidata politicamente correta", afirma Smith, que diz ter sido atraído pelo status de Trump como azarão e por suas referências anti-establishment. "Agora temos alguém que antes não estava envolvido na política e que foi eleito presidente. É isso que os EUA precisavam", argumenta, enquanto as notícias da eleição não paravam de passar nas TVs com o som desligado, ao redor do bar. Entre cidade e campo O sucesso inesperado de Trump tem chamado mais uma vez a atenção para as divisões na sociedade americana. Como é norma na política do país, os democratas se saíram bem nas cidades ao longo de ambas as costas, mas perderam no Sul e, particularmente, no chamado Rustbelt (Cinturão de Ferrugem), uma região predominantemente branca e que já foi marcadamente proletária. Durante seu discurso de vitória, na quarta-feira, Trump falou que era "hora de os EUA suturarem as feridas da divisão." Tanto Hillary quanto o atual presidente Barack Obama também exortaram os americanos a se unirem em torno de seu novo comandante em chefe. Mas devido aos controversos comentários de Trump durante a campanha – incluindo propostas de construir um muro ao longo da fronteira com o México e proibir a imigração de muçulmanos – muitos estão questionando a capacidade do novo presidente de unir um país profundamente fragmentado. Entusiasmado Ao longo da campanha, Trump atraiu muitos eleitores brancos, mas também outros descontentes com o sistema político americano. No começo do dia, após a noite eleitoral, mais de uma dezena de partidários do republicano se reuniram em frente à Trump Tower em Manhattan. Alguns levavam consigo cópias da Constituição americana e bandeiras ligadas aos antigos estados confederados, no Sul do país, e gritavam "drenem o pântano", uma referência a Washington e à cultura política da capital. Na atmosfera febril, policiais uniformizados se posicionaram, muitas vezes, entre os apoiadores e os opositores de Trump. Em geral, o clima era de um fervoroso triunfo, e ninguém falando mal do novo presidente foi tratado com vaias ou desdém. O apoio ao autoproclamado bilionário foi heterogêneo na rua em frente à Trump Tower. Judeus ortodoxos agitavam bandeiras de Israel e jovens brancos cantarolavam o nome do candidato republicano. Os vitoriosos se mostravam esfuziantes. "Retomamos o controle", afirmou Joey, um porto-riquenho residente no Brooklyn, que exibia um emblema com os dizeres "Trump e o Brexit – poder ao povo." Vozes preocupadas Yoel Katz é um dos eleitores judeus ortodoxos que saíram para acompanhar os últimos momentos da eleição americana. O jovem de 22 anos, também residente no Brooklyn, afirma não ter nenhum problema em votar em Trump para presidente dos EUA. "Esta é a América. Há policiais em volta. Eu me sinto protegido. E ele tem uma filha judia", acrescenta Karz, referindo-se a Ivanka Trump. Enquanto Trump identificou pessoas proeminentes de fé judaica, como, por exemplo, George Soros, como parte de uma ordem econômica global, muitos judeus ortodoxos afirmam ver o presidente eleito como um líder forte que vai se levantar contra o Irã. "Donald Trump não é racista, ele simplesmente não gosta de pessoas ruins", opina Katz. "Ele não é contra os árabes, ele é contra os maus árabes." Entre a multidão também estava certo número de jovens eleitores liberais. Isabel, de 18 anos, natural de Nova York, diz que teve medo diante da cena que se desenrolou nos minutos anteriores ao discurso da vitória de Trump. "Sou judia, meus amigos são todos de diferentes etnias. Estou preocupada com o que pode acontecer agora", afirma. Stephanie Freema, estudante de Finanças de 21 anos, diz ter votado em Hillary e que está inquieta com a política econômica de Trump. "Estou preocupada que ele venha a arruinar a nossa economia", afirma. "Vai haver um emprego para mim quando eu terminar a faculdade?" A sua amiga Isabel Dayo mostra-se zangada pelo fato de muitos jovens não terem participado da eleição. "Havia tanta gente reclamando de Trump e eles não se preocuparam em votar", reclama a bailarina de 21 anos. "As pessoas parecem não ver como isso vai afetá-las diretamente."

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