Pé na praia: Viagem nas bolhas de realidade

Thomas Fischermann

O correspondente alemão Thomas Fischermann comenta o resultado da eleição americana e diz que o mesmo poderia acontecer no Brasil, com sua variedade tão grande de universos sociais, isolados em bolhas de Facebook.Recentemente, a tortura de negros foi assunto na minha sala de estar. O visitante era um funcionário público, um brasileiro abastado que vive em uma mansão nas montanhas do Rio de Janeiro. Eu não sei exatamente de onde vem seu dinheiro, mas imagino que parte seja herança, parte ele ganhe com seu impecável serviço ao cidadão. Ladrão deve ser tratado como ladrão, argumenta o meu visitante. Os bandidos da favela não entendem outra língua além da violência. O que são alguns casos de tortura e execução pela polícia, sobre os quais a Anistia Internacional e a mídia vivem falando? Não são os policiais da cidade, continuou ele, as verdadeiras vítimas? Quem se incomoda com o número crescente de policiais assassinados? Por que tantas lágrimas de crocodilo na mídia sobre o parente de uma minoria de pele escura – todos traficantes! – levar uma bala? A pele do meu visitante era tão branca quanto a temporada contínua de verão permite. Eu teria muito a contrariar em sua explosão, mas preferi ouvir em silêncio. O assunto sobre o qual eu queria falar com ele era completamente diferente, e não conseguiria mudar sua opinião. Além do mais, ouvir em silêncio é característica profissional de um jornalista. Quando se faz jornalismo da forma correta, é possível se tornar um viajante através das bolhas de percepção das outras pessoas. Pede-se informações que as pessoas têm e as deixa explicarem sua opinião. Quando não se concorda com elas, é importante pelo menos entendê-las. De outra forma, em algum momento se deixa de fazer jornalismo para apenas emitir opiniões sobre tudo. Naturalmente voltei a pensar nas bolhas de percepção na noite desta quarta-feira, quando Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos. Antes de vir para o Brasil eu fui correspondente por alguns anos nos EUA, e já naquela época eu notei como as pessoas viviam em realidades isoladas umas das outras. A minha própria bolha eram os escritores, artistas, músicos e frequentadores de cafés do meu bairro em Nova York. Eles cultivavam visões muito progressistas sobre o desenvolvimento da sociedade e muito desprezo pela província americana. Para lá eu também viajei, para o interior dos EUA. Eu vi como o mundo parecia diferente para as pessoas de lá. Experimentei o temor a Deus, teorias da conspiração, percepções absolutamente desconectadas dos fatos em relação a questões de política e ciência. Muitos medos infundados de imigrantes, minorias, transformações tecnológicas. A visão cosmopolita dos meus hipsters nova-iorquinos eram incompreensível para essas pessoas, que consideravam a percepção da realidade deles estúpida ou mesmo maliciosamente distorcida. Muitas dessas pessoas com certeza votaram em Trump. Para os observadores da eleição nos Estados Unidos, o fato de grandes grupos da população viverem em diferentes versões da realidade, com sua própria mídia, comunidades do Facebook e círculos sociais é a explicação mais importante para a ascenção de um Donald Trump. É curioso experimentar essas bolhas como correspondente de um jornal, sem se envolver. No Brasil, país onde trabalho atualmente, não é diferente dos Estados Unidos. Sim, queridos brasileiros: ao viajar por seu vasto país sou apresentado a noções surpreendentemente diferentes de verdadeiro e falso, bem e mal. Mas para mim são realidades de pessoas estranhas em um país estranho, elas não me afetam verdadeiramente. Em casa, na Alemanha, eu me irrito com muitos assuntos, por exemplo o debate sobre os refugiados. Aqui no Brasil o vai e vem da discussão sobre "quem é mais corrupto, o PT ou o PMDB?" geralmente não me afeta. No Brasil eu converso sem problemas primeiro com um pastor evangélico, depois com um militante do MST. Eu já estive com o movimento "Vem pra rua" e com a presidente Dilma. Entrevistei fazendeiros que mantêm escravos na zona rural e depois ouvi debates de estudantes de sociologia sobre as vítimas. E registro essa incrível variedade de universos com interesse. O torturador em espírito que outro dia esteve na minha sala me causou desagrado. Mas, acima de tudo, eu tinha interesse em descobrir de onde vêm as opiniões dele. É preciso entender os preconceiros dentro de suas próprias bolhas. E como muitos cariocas da classe média, meu visitante teve experiências ruins nos selvagens anos 90. Eu já tinha ouvido que naquela época o Rio era muito mais perigoso do que hoje: tiroteios, assaltos, arrombamentos, uma classe média armada e entrincheirada. Por causa disso, o homem nunca tinha colocado os pés numa favela. Também nunca esteve em um quilombo ou em um subúrbio do nordeste. De alguma forma, ficou impregnado na história, no status social, no comportamento brasileiro e no medo desse homem que ele só conheça pessoas de pele escura como empregados domésticos e nada mais. Quando conta bravatas sobre como se deve dar tiros nos "bandidos das favelas", ele não tem a menor ideia do que está falando. Então não seria ruim se no Brasil (e na Alemanha também) mais pessoas se tornassem viajantes nas diferentes bolhas de realidade, assim como nós, correspondentes estrangeiros. Eu tenho certeza absoluta: se algum dia o Brasil vier a eleger um Donald Trump como chefe de governo, o meu visitante e entusiasta da tortura, que sabe tão pouco sobre as outras pessoas, seguramente terá votado nele. Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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