Por que o fenômeno Trump é improvável na Alemanha

Jefferson Chase (nt)

Populismo está em ascensão no país, mas o sistema político alemão não dá margem para que um candidato independente, sem qualquer tradição ou trajetória políticas, venha a se eleger chanceler.Na Alemanha, muitos acordaram na quarta-feira (09/11) se perguntando como alguém tão controverso e polêmico como Donald Trump pode ter chegado ao poder. A maioria dos alemães considera a ideia de ter um presidente como o magnata republicano um pesadelo. Mas um político com discurso semelhante a Trump teria chances de vencer na Alemanha também? Uma enquete do jornal alemão Die Zeit publicada um dia antes da eleição mostrou que, na Alemanha, 70,9% teriam votado em Hillary Clinton para presidente. Porém, seguindo uma tendência observada em outros países da Europa, o populismo de direita está em ascensão na Alemanha. O aumento da popularidade do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) e do movimento xenófobo Pegida são provas desse fenômeno. Possíveis caminhos Um dos motivos que dificultariam a ascensão de uma figura como Trump ao poder é a forma como os partidos políticos alemães elegem seus candidatos. Na Alemanha, não existe nada equivalente às eleições primárias americanas, nas quais é permitido a qualquer um se registrar como republicano ou democrata e votar. Pela regra alemã, são os partidos políticos que selecionam quem vai representar a legenda nas eleições. Somente os candidatos que vão disputar cargos importantes é que recebem alta visibilidade. Não se pode simplesmente declarar-se membro do partido conservador União Democrata Cristã (CDU) ou de centro-esquerda Partido Social-Democrata (SPD) e esperar ganhar voz ou importância dentro e fora do partido. Com isso, os candidatos na Alemanha estão mais firmemente conectados à ideologia dos partidos. Quando Trump anunciou sua candidatura pelo Partido Republicano, descendo a escada rolante da Trump Tower, em junho de 2015, era alguém totalmente de fora da política e que pouco ou nada sabia sobre os assuntos relacionados à tradicional legenda. Não existem figuras políticas equivalentes a Trump no cenário político alemão. Na Alemanha, um tipo como o magnata republicano não poderia sequer se candidatar por um partido relevante, como Trump fez nos Estados Unidos. O sistema político alemão não dá margem para que um candidato independente, sem qualquer tradição ou trajetória políticas, venha a se eleger chanceler. Em teoria, se fosse na Alemanha, Trump poderia, sim, explorar sua fama para fundar um novo partido ou assumir um papel central com relativa rapidez em algum grupo recém-criado, como a AfD, que carece de uma trajetória histórica e de uma estrutura interna estabilizada. Foi o que aconteceu com Adolf Hitler, por exemplo: ele iniciou sua carreira política no então recém-criado Partido Nacional Socialista Alemão, que possibilitou que ele fosse eleito chanceler da República de Weimar, em 1933. Mas mesmo diante da possibilidade de se filiar a um partido populista sem tradição, seria bastante improvável que Trump chegasse à chancelaria nos dias de hoje. Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, o sistema político alemão não funciona pelo princípio do "the winner takes it all", em que o candidato mais votado em um estado leva todos os votos eleitorais. Porcentagem mínima de votos Para um partido entrar no Parlamento alemão, é preciso superar a cláusula dos 5% – ou seja, receber pelo menos esta quantidade de votos. Isso reduz a chance de que haja grande fragmentação no Legislativo, mas não impede que as legendas tenham que se unir para apontar um chefe de governo. Ao longo dos 67 anos de história da República Federal da Alemanha, só um partido, a CDU, conseguiu governar, entre 1957 e 1961, sem precisar de uma coalizão. Mas até para isso precisou da ajuda dos seus parceiros bávaros, a União Social Cristã (CSU). Todos os outros governos tiveram de formar coalizões para governar. A capacidade de cooperação não é algo normalmente atribuído a Trump. Além disso, se mantivesse seu discurso radical e suas condutas fossem excessivamente de confronto, ele provavelmente teria problemas parar atrair parceiros para formar uma coalizão – como dito, necessária para governar a Alemanha. O sistema de coalizão não é de modo algum infalível – a exemplo do que aconteceu com Hitler. Mas a estrutura da República Federal da Alemanha encoraja a divisão de poder, a fim de evitar extremismos políticos. Uma das principais armas de Trump foi a crença popular de que ele seria alguém de fora do sistema político, alguém mais próximo da população. Mas Trump dificilmente conseguiria manter essa pose e provavelmente logo passaria a ser visto como outro político qualquer. A menos, é claro, que conseguisse uma maioria absoluta no Parlamento. Ainda assim, há muitas diferenças entre Alemanha e Estados Unidos. Um dos aspectos do sistema americano que confunde muitos fora do país é o princípio "the winner takes it all", que possibilita que o candidato vitorioso não tenha conquistado, necessariamente, a maioria absoluta dos votos populares. Foi o que aconteceu nas últimas eleições. A apuração ainda não está 100% concluída, mas aponta que Hillary conquistou mais votos no cômputo geral, invalidando a tese de que o republicano mobilizou uma maioria silenciosa. Os eleitores de Trump não eram nem silenciosos, nem maioria. Trump venceu no Colégio Eleitoral, que é baseado nos resultados obtidos por estados. Para se tornar um chanceler da Alemanha, o candidato precisa ter maioria no Parlamento nacional, que é constituído proporcionalmente com base nos votos recebidos tanto pelos candidatos individualmente, como pelos partidos em geral. Na Alemanha, os eleitores têm direito a dois votos: um para um determinado candidato e outro para um partido. O sistema político americano dá mais força aos eleitores de estados pequenos e diminui a dos que vivem nos populosos, como Nova York e Califórnia. Já o sistema proporcional alemão reflete os anseios populares para a escolha do cargo de chanceler como um todo, sem distinções entre estados. Normalmente, o chanceler alemão faz parte do partido que obteve mais votos. Embora as possibilidades de coalizão possam complicar a situação, desde 1976 nenhum chanceler alemão chegou ao poder sem ganhar também no voto popular.

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