Opinião: Um presidente contra a desordem

Sabine Kinkartz

Mesmo que a escolha do ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, signifique perda de prestígio para Angela Merkel e os partidos conservadores, ele é o candidato certo na opinião da jornalista Sabine Kinkartz.Que confusão em torno do mais alto cargo público da Alemanha. Quase cinco meses se passaram desde que Joachim Gauck anunciou que não se candidataria a um segundo mandato como presidente da Alemanha, colocando a chanceler federal e presidente da União Democrata Cristã (CDU) num grande dilema. Sugerir nomes não é o forte de Angela Merkel. Com Horst Köhler e Christian Wulff ela se deu mal em 2004 e 2010, respectivamente. Em 2012, a escolha do atual chefe de Estado alemão foi forçada pelo Partido Liberal Democrático (FDP). Só com relutância e lentamente, a chanceler federal se envolveu novamente com o tema – e logo se deparou com seus maiores temores. Apesar de a União, dos partidos conservadores União Democrata Cristã/União Social Cristã (CDU/CSU) representar o maior grupo na Assembleia Federal – o colégio eleitoral que escolhe o presidente alemão – e ter, assim, boas chances de levar o seu candidato para o Palácio Bellevue, sede da presidência em Berlim, a ala conservadora não conseguiu encontrar nenhum nome atraente para o cargo. Semanas, até meses se passaram, enquanto as recusas se acumulavam, deixando Merkel, finalmente, de mãos vazias. O presidente do Partido Social Democrata (SPD), Sigmar Gabriel, conseguiu um furo político. Sem aviso prévio, o vice de Merkel sugeriu o nome de seu correligionário Frank-Walter Steinmeier. Uma oportunidade única, um golpe de mestre. Se houvesse um edital para o cargo de presidente da Alemanha, o atual ministro do Exterior preencheria todos os requisitos: equilibrado, cosmopolita, diplomático, voltado para o povo. Ele não é um orador nato, sua retórica se limita, geralmente, à linguagem vaga da diplomacia. Mas o fato de em agosto ele chamado Donald Trump de "pregador do ódio" e ter se recusado a parabenizar o magnata republicano após a eleição aponta para um acirramento de tom. Angela Merkel também estima Frank-Walter Steinmeier. Tanto como pessoa quanto no pensamento político – pois aqui os dois pragmáticos são muito parecidos. O dilema de Merkel: para ela, ele pertence ao partido errado. Com vista às eleições gerais em setembro de 2017, optar por um candidato do SPD era impossível para a chanceler federal. Com todos os meios possíveis, ela recusou até o último momento o nome do atual ministro do Exterior com candidato de consenso da grande coalizão de governo, formada pelo SPD e pela União (CDU/CSU), em Berlim. Merkel chegou até mesmo a flertar abertamente com o governador do estado de Baden-Württemberg, o influente político verde Winfried Kretschmann. Mas a CSU, legenda-irmã do partido de Merkel na Baviera, não quis aceitar, preferindo então Steinmeier. De qualquer forma, essa candidatura tem apelo popular: Steinmeier desfruta de simpatia entre os alemães. Com a CSU contra e sob pressão, Angela Merkel não teve escolha a não ser entregar as armas. Agora, ela o chama de o candidato da razão – uma formulação que pode ser interpretada de muitas formas. Pois a decisão não é apenas sensata para a presidente da CDU, mas é o único caminho viável a seguir, observando a situação de forma racional. Afinal de contas, Merkel simplesmente não encontrou nenhum outro candidato. Para ela, a escolha de Steinmeier significa uma perda de prestígio. Para a CDU e CSU, no entanto, trata-se de um atestado de incapacidade. Como é possível não se encontrar em suas fileiras ninguém capacitado e que aceitasse o cargo de presidente? Independente disso, é bom que a grande coalizão de governo em Berlim, que nos últimos meses parecia estar à beira do divórcio, volte a mostrar unidade no último momento, dispensando uma votação crucial sobre o mais alto cargo público. A razão ainda pode sair vencedora. Em tempos incertos e politicamente turbulentos, isso traz um pouco de alívio. Como nenhum outro, Frank-Walter Steinmeier vai representar a estabilidade, continuidade e o equilíbrio. Um presidente contra a desordem, contra o sentimento de fim da política no mundo ocidental. Há, no entanto, um aspecto negativo: Steinmeier vai fazer falta como ministro do Exterior. Pois, nesse cargo, as suas habilidades diplomáticas são mais necessárias do que nunca. A lacuna que surgirá no gabinete ministerial com a mudança de Steinmeier para o Palácio Bellevue deve ser preenchida o mais rápido possível. Mas, por favor, com racionalidade e bom senso. Já estamos fartos de infantilidades políticas.

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