O Plano Marshall alemão para a África

Philipp Sandner (av)

Ministério do Desenvolvimento da Alemanha quer combater a pobreza africana com um gigantesco programa de ajuda. Diante das falhas do passado, proposta esbarra em ceticismo.A crer num estudo atual do think tank Clube de Roma e da rede de economia Senat der Wirtschaft, a Alemanha deveria se empenhar bem mais pela África do que tem feito até agora. O documento propõe a criação de um fundo para o futuro com uma contribuição alemã de 120 bilhões de euros até o ano 2030. O ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Müller, também pretende apresentar nas próximas semanas seu próprio projeto, que denomina "plano Marshall para a África" – numa alusão ao Programa de Recuperação Europeia desenvolvido pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, para a reconstrução dos Aliados. Os poucos dados concretos divulgados pelo ministério deixam claro que Müller toma as ondas de refugiados do continente como pretexto para chamar a atenção aos problemas africanos; e defende que seja dada aos migrantes uma perspectiva de vida em seus países de origem. O estudo entregue pelo Clube de Roma e o Senat der Wirtschaft ao ministro na semana passada calcula as implicações financeiras de tal medida: manter um refugiado menor de idade desacompanhado na Alemanha custa 60 mil euros por ano – bem mais, portanto, do que os dois euros que cada cidadão da África recebe do país europeu até o momento. Não só louvores Em entrevista à DW, o ministro do Trabalho e Assuntos Sociais do Níger, Yahouza Sadissou, louvou a iniciativa alemã. Para ele, um "Plano Marshall" seria uma solução para a crise migratória e a pobreza que se alastraram pela África como uma pandemia. O secretário-geral da Fundação Alemã para a África (DAS, na sigla original), Ingo Bardoreck, no entanto, discorda. "A África do nosso tempo não pode realmente ser comparada à Alemanha ao fim da Segunda Guerra. Além disso, o continente precisaria ser hoje visto mais como um protagonista e mais integrado nas soluções, do que o nome 'Plano Marshall' sugere." Na página da DW no Facebook, diversos usuários também se manifestaram contra a intenção: "Tomem cuidado com um plano desses da Europa", escreveu Mathause Sitoe. "Perguntem a cada país do que ele precisa e onde quer investir em infraestrutura." Nimubona Christian, do Burundi, expressa indignação: "Por que os outros têm sempre que pensar pelos africanos? É preciso ideias grandes assim para fomentar o desenvolvimento da África? Caso a resposta seja sim, não acredito que isso falte ao continente." O nigeriano Umar Biriji ressalta a responsabilidade dos governos nacionais, que não podem "sempre esperar pela ajuda de fora". Cooperação em vez de assistência Onde se planeja o futuro africano, a África também deve estar presente, afirma o analista político nigeriano Japheth Omojuwa. As nações ocidentais devem primeiro escutar. "Pessoalmente, não acredito que o problema da África seja falta de ajuda para o desenvolvimento. Isso não funcionou em todas essas décadas e também não vai funcionar no futuro." Tal crítica não é inédita. Já em 2009 a zambiana Dambisa Moyo, ex-economista do Banco Mundial, afirmava em seu livro Dead aid (literalmente: "Ajuda morta") que a ajuda para o desenvolvimento concedida aos governos africanos não apenas sufoca todo crescimento, como também cria novas formas de dependência. Tomando essa deixa, especialistas como o sul-africano Greg Mills tentaram projetar modelos de como a África poderia se libertar da pobreza por força própria. Um princípio que desponta repetidamente é a necessidade, não de ajuda ao desenvolvimento, mas sim de cooperação econômica de igual para igual. Uma sondagem recente da rede de pesquisa Afrobarometer mostra que a parceria de diversos países africanos com a China é bem recebida por muitos cidadãos do continente. Pelo menos no papel, trata-se de parcerias de igual para igual, confirma Japheth Omojuwa: "Afinal, a China tem o bom senso de não jogar com a África, como os países ocidentais fizeram no passado." Ao que tudo indica, um pouco dessa crítica já chegou até a Alemanha. Desse modo, os autores do atual estudo intencionalmente se referem a um Plano Marshall "com" – e não "para" – a África. Da mesma forma, em visita ao Níger e Ruanda em agosto, Müller salientou que seu plano só poderá ser implementado em diálogo com os africanos. Claro está que, com seu programa, o Ministério alemão do Desenvolvimento pretende incentivar grande parte da economia local nos países africanos diretamente, sem passar pelos governos. Isso deve agradar aos fãs africanos da DW no Facebook, que sempre alertam sobre a corrupção em seus países. "Nada de dinheiro para a Tanzânia. É melhor morrermos todos, do que isso ir parar nas mãos dos corruptos", escreveu o usuário Omar Salim.

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