A Europa sem Obama

Bernd Riegert (ca)

A relação entre a UE e o presidente americano foi marcada por altos e baixos, mas ele nunca deixou dúvidas sobre sua lealdade. Com sua saída, os europeus terão de resolver sozinhos seus problemas externos.Tudo começou em meados de 2008, quando uma grande festa na Coluna da Vitória em Berlim. Alemães e europeus aplaudiam o homem que conquistou os corações com o slogan Yes, we can. Não se sabia exatamente o que o então candidato à presidência Barack Obama poderia render, mas ele espalhava um otimismo generalizado e representava, principalmente, um contraste em relação a George W. Bush, cuja política intervencionista no Iraque dividiu a Europa. Naquela ocasião, esperava-se alguém que fosse um fator de união. Em Praga, no início de 2009, Obama prometeu, pouco depois de assumir o poder, se esforçar por um mundo sem armas nucleares. Com raras exceções, os europeus ficaram entusiasmados. Em outro discurso no Cairo, ele prometeu construir um novo relacionamento com o mundo árabe. No mesmo ano, o homem que impulsionou a retirada das tropas americanas do Afeganistão recebeu o Nobel da Paz. Recentemente num programa de talk show, numa das muitas entrevistas de despedida, Obama brincou: "Eu realmente não sei por que eu recebi o prêmio." Foram louros antecipados, uma decisão que aos olhos de muitos europeus se mostrou prematura. A Europa se recuperou muito mais lentamente da crise financeira global do que os Estados Unidos. A crise do euro e do endividamento abalou profundamente a União Europeia, seguida do conflito na Ucrânia e da crise migratória dos anos passados. Na opinião de Obama, a UE se tornou cada vez mais incapaz e relutante de agir. Numa entrevista à revista The Atlantic, em abril de 2016, o presidente americano criticou de forma suave os parceiras na Europa, que, segundo ele, gostavam de usufruir a liderança e o desempenho americanos, mas não estavam dispostos a mostrar solidariedade ou aumentar seus gastos militares. No mesmo mês, Obama exortava os europeus na Feira de Hannover a não deixar a coragem minguar e a lutar contra as próprias crises. "A Europa é um dos maiores avanços políticos dos tempos modernos", afirmou. Podia-se perceber mais uma vez o Obama de 2008, que empregava o seu Yes, we can contra o "medo europeu". Prioridade para Ásia Nesse meio-tempo, no entanto, os europeus também tiveram sérias dúvidas sobre a seriedade de Obama quanto à cooperação com a Europa. Ele queria tornar a Ásia o pivô de sua política externa, o que funcionou apenas parcialmente. Na intervenção na Líbia, confiou demais que França e Reino Unido assumiriam a responsabilidade, algo que ele próprio atualmente admite. Obama também demonstrou a sua decepção com os aliados do Oriente Médio, como os sauditas. Elmar Brok, político experiente na área de relações exteriores no Parlamento Europeu, fez um balanço sóbrio depois de quatro anos de política externa contida por parte de Obama: "No nível de trabalho, há uma boa relação. Mas, até agora, a UE e os EUA não puderam definir nenhum ponto forte estratégico que fizesse com que europeus e americanos cooperassem mais estreitamente", declarou Brok à DW em 2012. Ao menos do ponto de vista dos alemães, o ponto baixo das relações foi o escândalo de espionagem envolvendo a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA. Não somente todos os europeus foram espionados em grande escala, como nem mesmo o celular particular de Angela Merkel foi poupado pelos americanos. Algo embaraçoso, levando em conta que, dizia-se na Casa branca, Obama estimava a chanceler federal alemã como a única líder europeia de verdade. Fator russo Provocada pela Rússia, foi a crise na Ucrânia que primeiro conseguiu reunir mais fortemente a comunidade transatlântica. Obama e a UE não agiram em sintonia em relação a Moscou, mas no final se mostraram relativamente coesos. O presidente americano não fez nenhum segredo de sua frustração sobre os morosos processos de decisão dos europeus, como também sobre as constantes disputas entre os países-membros do bloco. Esse ponto de vista culminou na declaração da vice-secretária de Estado, Victoria Nuland, no auge da crise da Ucrânia: "Fuck the EU". Esqueça os europeus, eles não vão concordar nunca uns com os outros. Obama nunca deixou dúvidas sobre a sua lealdade à aliança transatlântica. Em várias cúpulas da Otan, ele assegurou o seu apoio aos países-membros do Leste no caso de uma agressão russa. Novos contingentes, mesmo que pequenos, foram estacionados nos Países Bálticos, Polônia, Romênia e Bulgária. Sob o governo do primeiro presidente negro dos EUA, o país aumentou seus gastos militares para a Europa. E, finalmente, após dez anos de difíceis negociações, a UE e os EUA conseguiram convencer o Irã a desistir de seu programa de armas nucleares. No entanto, a tentativa de negociar um acordo de livre-comércio, o chamado TTIP, fracassou. Para o presidente da comissão de comércio no Parlamento Europeu, Werner Lange, os EUA fizeram, simplesmente, poucos esforços. Mas também com a Ásia um acordo comercial não conseguiu ser validado. Até hoje, o Senado americano não o ratificou. O líder da bancada liberal no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt, diz que os cidadãos do Velho Continente ainda vão sentir muita falta de Obama. Segundo ele, com a eleição de Trump, os EUA passarão a se preocupar somente consigo, e o TTIP: "Quando os EUA intervieram internacionalmente, como no Iraque, a Europa respondeu com palestras moralistas sobre a expansão imperial. Quando os EUA não intervieram ou o fizeram muito tarde ou não suficientemente, como na Líbia e na Síria, os europeus exigiram mais liderança dos EUA." Segundo Verhofstadt, essa dinâmica agradável das relações transatlânticas chegou agora ao fim. Com Trump, não somente a era Obama acabou, diz o eurodeputado: agora os europeus terão de resolver sozinhos os seus problemas e não podem mais contar com os EUA.

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