Impulso do lado mais fraco

Mariana Franco Ramos

Líder no ranking do Ideb entre as capitais, Curitiba já tinha colégios de excelência em 2013, mas muitas ainda mantinham avaliação ruim: segredo foi reconhecer fragilidades e desenvolver trabalho específico.Quando o Ministério da Educação (MEC) divulgou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013, muita gente em Curitiba comemorou. Atrás somente de Florianópolis nos anos iniciais do ensino fundamental (1.º ao 5.º ano) entre as capitais, a cidade tinha também cinco das 15 melhores escolas municipais do país. O bom resultado, contudo, camuflava um quadro de desigualdade latente, característico das grandes cidades. Enquanto havia centros de excelência, sobretudo nos bairros mais ricos, outros colégios sofriam com problemas como evasão, baixo rendimento, desinteresse e, consequentemente, reprovação. Foi então que a Secretaria Municipal da Educação decidiu fazer um profundo diagnóstico, identificando possíveis vulnerabilidades, que acabavam interferindo na aprendizagem dos alunos. Dos 185 estabelecimentos de ensino geridos pela prefeitura, 47 foram selecionados para um trabalho específico, de reparação. Surgiu assim, já no final de 2014, o projeto Equidade. "A gente utilizou alguns elementos, como o Ideb, as taxas de aprovação, o rendimento em Português e Matemática, a renda do entorno, o percentual de incidência de beneficiários do [programa] Bolsa Família e a baixa frequência, para fazer um cluster [espécie de média]", conta a diretora do Departamento de Ensino Fundamental da secretaria, Letícia Mara de Meira. A iniciativa abrange em torno de 26 mil crianças, das 100 mil matriculadas na rede. "Essas 48 escolas [uma veio a se juntar depois] não foram definidas aleatoriamente. E também não foi um ranqueamento de baixo para cima, focado no resultado do Ideb", completa a diretora. Segundo ela, a diferenciação não significa dizer que uma instituição seja pior que a outra, e sim que precisa de outros subsídios para alcançar resultados igualmente satisfatórios. "O que está na base é o princípio da equidade como direcionador das políticas públicas. É primeiro reconhecer a desigualdade social e entender que contextos diferentes necessitam de políticas diferentes. É uma visão contrária à meritocracia, porque a gente não premia os melhores resultados; a gente impulsiona quem tem mais necessidade", resume. As medidas propostas incluem aulas de reforço, atividades extracurriculares nas áreas de cultura e esportes, acompanhamento pedagógico e estímulo à participação das famílias no cotidiano escolar. Entretanto, cada unidade propõe uma estratégia própria, com planos e metas a curto, médio e longo prazo, a partir também da experiência dos profissionais que lá atuam. "Houve um esforço coletivo muito grande para potencializar o trabalho dessas escolas. E o que a gente viu, na nova avaliação [do MEC]: uma significativa redução da dispersão. Ou seja, a rede municipal melhorou como um todo. Temos escolas com Idebs excelentes, mas essas, que tinham Ideb menor, pela situação da vulnerabilidade, tiveram um crescimento ainda maior", afirma Letícia. É o caso da Escola Municipal Professora Nansyr Cecato Cavichiolo, localizada no bairro Parolin, cujo índice subiu de 4.5, em 2013, para 5.5, em 2015. O crescimento, de 22%, foi maior do que o registrado na rede de forma geral, que passou de 5.9 para 6.3 (avanço de 6,7%). O Ideb de Curitiba nesta etapa da educação é hoje o maior entre as capitais. "Nosso objetivo aqui era provar que as crianças da periferia também aprendem", diz a diretora do colégio, Márcia Alexandra Ribeiro Quadri. A instituição atende pouco mais de 480 alunos, distribuídos em 17 turmas, sendo que dez delas funcionam em período integral. O entorno da unidade é uma das regiões de menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM): 0,623, quando a média curitibana é 0,823. A renda per capita dos moradores, a maioria catadores de materiais recicláveis, é de 439,73 reais. Para se ter uma ideia, a esperança de vida ao nascer, que no bairro nobre de Água Verde era de 81,48 anos em 2010, no Parolin era de 69,47. Olhando apenas para a educação, as disparidades persistem. Enquanto na primeira localidade 93,36% dos jovens de 18 anos ou mais tinham ensino fundamental completo e 94% das crianças de cinco a seis anos estavam na escola, na segunda os percentuais eram 40% e 76%, respectivamente. "Como você pode olhar, aqui a gente não tem uma banca de jornal próxima. O jornal para eles [alunos] é um objeto de trabalho, porque eles recolhem lixo. Então, não veem o jornal, a revista ou o livro como um objeto de apropriação de cultura", relata Márcia. Para que os estudantes ficassem mais tempo na escola, principalmente aqueles com dificuldade ou defasagem maior, os profissionais passaram a oferecer apoio pedagógico, com horário estendido. Além disso, há aulas de futsal, taekwondo, teatro e dança. A escola também conta com quadra coberta, biblioteca, laboratório de informática e uma horta comunitária. Para a pedagoga Antonia de Meira Schena, a subida do Ideb foi apenas uma consequência do trabalho desenvolvido. "Nas gestões anteriores, a questão da aprendizagem era da escola, e as questões externas cabiam a cada secretaria. O Equidade trouxe essa ideia de que a escola sozinha não poderia dar conta de toda a situação que está no entorno", destaca. Uma das maiores dificuldades, lembra, foi conseguir envolver os familiares no cotidiano dos estudantes: "O que nós fazemos: nós vamos atrás das crianças. Quando elas começam a apresentar faltas, antes de tomar qualquer providência, vamos até as casas, porque aqui a questão de telefone é muito complicada, e trazemos os pais para conversar", comenta. "A gente não desiste da criança. Mesmo quando a família negligencia, é essa que insistimos mais", completa Márcia. Segundo o diretor do Departamento de Planejamento e Informações da secretaria, Leandro Jioneke, o dado do Ideb que chama mais a atenção em Curitiba é o crescimento em bloco da rede. "Em 2013, tínhamos 45% das escolas com índices entre 5 e 6. Agora, em 2015, passamos para 26%, porque muitas pularam para 6 e 7". Sobre o Equidade, ele conta que, em média, os 48 colégios atingiram taxas de 5.8, ante 6.5 daqueles que não participam da iniciativa. Embora os sem Equidade tenham índices maiores, na comparação com 2013 o crescimento foi de 11,58% e 4,84%, respectivamente. "Isso mostra a efetividade do projeto", opina. Se, por um lado, Curitiba cumpriu o estipulado pelo Ideb 2015 para os anos iniciais do ensino fundamental (chegou a 6.3, sendo que o mínimo necessário era 6.0), por outro ainda ficou abaixo da meta estabelecida para os anos finais (6º ao 9º ano), que era de 4.9. As escolas desta etapa, que são geridas pelo governo estadual, atingiram 4.5. Ainda assim, houve um avanço de 9,76% em relação a 2013.

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