Enfraquecida, Merkel parte em busca de quarto mandato

Volker Wagener (ca)

A imagem de Angela Merkel, a "rainha da Alemanha", está abalada. Apesar de um curso político altamente controverso, ela pretende concorrer a um quarto mandato. Porém os anos mais difíceis ainda estão por vir.Durante anos, não foi difícil definir a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como ser humano e como política. Uma verdadeira história de sucesso. Surpreendiam-nos somente a sua forma rígida de ser, a natureza austera de suas aparições públicas, a sua retórica modesta, a voz um pouco aguda. Por muito tempo, ficou sem resposta a pergunta de por que alguém como ela podia ser tão bem-sucedida, podia irradiar tanta autoridade. Agora, sabemos mais: a sua confiabilidade é garantida nas pesquisas de opinião pública. Diante dela, ninguém poderia pensar que ela teria outros interesses a não ser o cargo de chanceler federal. Também o seu estilo político distanciado tinha algo reconfortante e a sua vida privada sem glamour – viver modestamente, fazer a própria comida e praticar caminhadas nas férias – atendia à autoimagem de muitos alemães de tentar levar uma vida normal. Em 2013, durante a campanha eleitoral contra seu rival do Partido Social-Democrata (SPD), Peer Steinbrück, ela respondeu à exigência do apresentador, num duelo na TV, de enviar uma última mensagem aos eleitores: "Vocês me conhecem." Isso teve um efeito positivo, soou como algo previsível. Hoje, muitos não estão mais seguros sobre o que podem esperar de Merkel. Sozinha entre inimigos Isso funcionou enquanto o mundo ainda estava em ordem. Na era pré-crise de refugiados, pré-Brexit, pré-Trump. Agora, ela tem que provar suas habilidades em tempos turbulentos. Pois somente a referência ao baixo nível de desemprego, ao constante crescimento e a um orçamento sólido não consegue mais acalmar todos. A Alemanha, a Europa, o mundo se tornou polarizado. Vivemos tempos difíceis. E existem cada vez mais parceiros difíceis. Merkel desafiou várias vezes a Rússia de Putin, mas naquela época a reputação da chanceler federal ainda estava intacta na Alemanha e, dentro da União Europeia (UE), ela era poderosa. Mas essa nova fraqueza, de não ser mais intocável, também foi utilizada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o novo homem forte no Bósforo. Mesmo pequenos Estados do sudeste da Europa, que há mais de 20 anos viam a Alemanha como madrinha no intuito de serem aceitos na UE, se voltam agora politicamente contra a "chanceler da Europa", porque eles estão novamente absolutamente convencidos do Estado-nacional. Nesse contexto, Angela Merkel tem que agora exercer o papel da última "defensora do Ocidente liberal", como escreveu o jornal New York Times. Largada eleitoral tumultuada Para poder desempenhar essa função a longo prazo, ela precisa encontrar uma maioria que, em setembro do próximo ano, a confirme como chefe alemã de governo. O que é muito provável. No entanto, ela já tropeçou no caminho até lá. O próximo presidente alemão não virá do partido de Merkel, a União Democrata Cristã (CDU), nem da União Social Cristã (CSU), mas do SPD. Um atestado de pobreza para a CDU, o maior partido na coalizão de governo em Berlim, como também para a sua legenda-irmã bávara, a CSU. Merkel hesitou tanto, até ser atropelada pelo presidente dos sociais-democratas e vice-chanceler federal alemão, Sigmar Gabriel. Nos livros de histórias, isso vai ficar como uma dura derrota para a chefe alemã de governo, levando ainda mais em conta que ela nunca teve sorte com a indicação de um nome para a presidência do país. O impacto das mudanças políticas Por mais de dez anos, tudo que aconteceu antes de 2015 – ano do grande afluxo de refugiados para a Alemanha – foi o material com que foi escrita a narrativa de Merkel: a sua infância, adolescência e seus estudos universitários na ex-Alemanha Oriental; a constelação familiar protestante, pouco política, mas com sinais de obstinada diligência. Tudo isso – aliado à oportunidade de 1989 – proporcionou a Merkel, como uma mulher jovem de aparência conservadora, uma ascensão rápida e pouco habitual no sistema político dominado por homens na era Helmut Kohl. Quando este perdeu a sua auréola de santo devido ao escândalo das doações partidárias até hoje não esclarecido, ela se engajou corajosamente, sendo eleita presidente da CDU no ano 2000. Foi o nascimento do mito Merkel, cuja tendência ascendente perdurou até meados de 2015. Desde então, a realidade ultrapassou a política. Parecia que Merkel tinha encontrado o seu tema na política de refugiados. Mais ainda, ela tinha uma visão política. No lugar de sua antiga marca – o longo silêncio, as decisões tardias –, ela empregou a assertividade, ao menos verbalmente. Foi um ato humanitário, sem cálculo tático, um "momento de beleza política", escreveu a revista Spiegel em retrospecto. Há muito que ela se arrependeu, em parte, do que não pôde ver, não pôde conter no segundo semestre de 2015: o afluxo descontrolado de centenas de milhares de refugiados. Já na ocasião, podia-se escutar o clamor: Será que ela sabe o que faz? Perda máxima de controle Ela não conseguiu desviar o momento histórico para uma política racional. Ela fez com que a CSU se voltasse contra ela, sobrecarregou os estados, viu como o medo real e imaginário crescia em partes da sociedade e como o partido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) incitava cidadãos irados. Também dentro do próprio partido, ela desgastou a capacidade de sofrimento dos conservadores. Na legenda-irmã bávara, CSU, nem todos querem mais fazer campanha eleitoral ou colar cartazes para ela. Na União Europeia, a reputação de Merkel não é diferente. Primeiramente, ela deixa entrar centenas de milhares de refugiados e abre as fronteiras alemãs, para, em seguida, redistribuir a carga com todos, sem consulta prévia. Um jogo que os vizinhos europeus não jogaram e não jogam. O mandato mais difícil pela frente Merkel deverá – se ainda é possível prever algo nos dias de hoje – ser eleita para um quarto mandato como chanceler federal da Alemanha. Porque poderá formar novamente uma grande coalizão de governo entre a sua União CDU/CSU, mesmo que essas legendas conservadoras tenham perdido votos do eleitorado alemão, com o ainda mais desgastado entre os eleitores SPD. Mas essa seria a vontade dos alemães, seria a resposta certa para o voto de protesto? O problema de Merkel é: como pessoa e apoiada pela CDU/CSU, ela é a número 1 para as eleições parlamentares na Alemanha, mas como chanceler federal, ela deverá enfrentar um cenário partidário bastante polarizado. Para a chefe alemã de governo, os anos mais difíceis ainda estão por vir. Isso também levanta a questão se a própria Merkel poderá determinar o fim de seu tempo como chanceler federal da Alemanha.

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