Opinião: UE, ao menos por enquanto, só se for com Merkel

Bernd Riegert (md)

Frente à ameaça do nacionalismo populista, a União Europeia necessita de uma âncora de estabilidade no centro, e a Alemanha de Merkel representa isso, opina o correspondente Bernd Riegert.Ela tem uma grande vantagem: sempre esteve lá. Pelo menos é a impressão que se tem. Nenhum outro chefe de governo europeu ocupou o cargo por tanto tempo quanto Angela Merkel. Os Mays, Renzis, Rajoys, Tsipras e Hollandes vêm e vão. Já a política mais influente da Europa continua lá, como uma rocha em meio à ressaca do populismo e do nacionalismo cada vez mais crescentes nos países vizinhos. Ainda. Ela quer continuar sendo esse bastião por mais quatro anos e forjar soluções europeias, uma habilidade de importância inestimável nestes tempos de crise. Mas por quanto tempo isso ainda vai funcionar? Por quanto tempo essa despretensiosa e até desapaixonada maneira de reger a UE vai funcionar? Na Espanha, na Itália, na Holanda, na Dinamarca e até mesmo na Grécia, os governantes concordam que, sem Merkel, a Europa não funciona. Na Polônia, na Áustria, na Hungria, no Reino Unido e talvez em breve na França, a opinião é outra. Lá, madame Merkel é o obstáculo para finalmente se resolver a crise dos refugiados com o fechamento definitivo da fortaleza Europa. A chanceler eterna não conseguirá afastar sozinha o crescente populismo, especialmente de direita, como na França e na Holanda, mas também de esquerda, como na Itália. Porque ela tem um problema em seu próprio país. Para os seguidores do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Merkel não é a única alternativa. Ao contrário, ela é o alvo número um do ódio dos provocadores de direita. Portanto, se ela quiser evitar que o "efeito Trump" também apareça na Alemanha e que os nacionalistas antieuropeus se tornem poderosos demais, terá que pensar em algo. E para isso ela precisa dos demais europeus. A UE deve oferecer vantagens reconhecíveis para as pessoas, do contrário ela se tornará um fardo para Merkel durante a campanha eleitoral do ano que vem. O cambaleante Brexit, o imprevisível Donald Trump e especialmente o aparentemente imprevisível Vladimir Putin podem limitar muito a capacidade de ação da UE e pôr a solidariedade dos europeus à prova. A chanceler alemã tem que lutar simultaneamente em muitas frentes políticas. Como é que a UE vai se comportar sob a liderança de Merkel caso Trump e Putin decidam recorrer a uma cooperação "pragmática"? Isso seria extremamente difícil. E há ainda o autocrata Recep Tayyip Erdogan, de cuja cooperação Merkel necessita. A retenção dos refugiados na fronteira sudeste da Europa só funciona com a Turquia. Há muito que a chanceler mudou sua posição de "deixar passar" para "retenção". Ela quer implementar isso, com a ajuda da Itália e dos países do norte da África, também no Mediterrâneo central. Só assim ela conseguirá tirar fôlego do partido anti-imigração AfD e manter nas suas rédeas o partido-irmão bávaro CSU. Um mero business as usual não será suficiente para Merkel nos próximos cinco anos, se ela vencer a eleição. Porque dessa forma ela não conseguiu, até aqui, impedir a ascensão dos populistas. Ela deve desenvolver novas ideias para enfrentar o descontentamento, a xenofobia, a ignorância e o clube dos machos, que vai de Washington a Moscou, passando por Ancara. Talvez consiga. Mas é algo que não é certo. Também não se trata de Merkel como pessoa. Muito mais importante é que haja uma âncora europeia firme no centro: uma Alemanha estável, economicamente forte e com uma sociedade receptiva. E Merkel simboliza tudo isso. Mas caso a França caia, vítima dos populistas de direita da Frente Nacional nas eleições presidenciais em maio 2017, então acabou. Contra uma França de espírito nacionalista, mesmo uma mulher forte como Angela Merkel não poderá fazer nada na Europa. Le Pen e Merkel? Rien ne va plus.

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