Pé na Praia: Os turistas no morro

Thomas Fischermann

A situação se tornou diferente nas últimas semanas: as Olimpíadas já terminaram, e em muitos pontos da cidade a guerra volta às favelas do Rio. Uma pousada no morro é um termômetro dessa mudança.Estava sentado num terraço acima de Copacabana, entre espreguiçadeiras na piscina, e as pessoas já haviam bebido algumas cervejas. Dois mochileiros tomavam sol em trajes de banho e discutiam alto sobre suas aventuras lá embaixo na praia: "Drugs and bitches!" grunhiu um russo sem parecer muito convincente. Um senhor gordo, o dono da casa, dava de vez em quando sua opinião. Eu tinha conseguido entrar numa roda de conversa tranquila, exceto pelo anfitrião que me dirigiu palavras provocantes: "A imprensa está totalmente apaixonada por notícias superficiais sobre violência!", disse. "Por isso tem muita gente com medo de ficar hospedado na minha pousada." Tudo bem: a pousada que eu visitava naquele dia a serviço do jornal Die Zeit fica numa favela. Abriu em 2013, antes do boom que todo mundo estava esperando para a Copa e as Olimpíadas. Nessa época, as forças de pacificação ainda não tinham ocupado um morro após o outro, principalmente nas proximidades das áreas turísticas? Não queriam expulsar o tráfico para sempre das favelas, e abrir as ruelas sinuosas para o comércio e o turismo? De fato, a pequena pousada ficou o tempo todo lotada durante os megaeventos, 90% de seus hóspedes eram gringos, mas devido à alta dos preços, também alguns viajantes brasileiros. "Entre 2013 e 2016 não vi um bandido sequer com uma arma na mão por aqui", diz orgulhosamente o anfitrião da pousada. Mas isso se tornou diferente nas últimas semanas. As Olimpíadas já terminaram, e em muitos pontos da cidade a guerra volta aos morros: traficante contra traficante, polícia contra traficante, milícias contra policiais e traficantes e assim por diante. O dono da pousada e seus hóspedes voltaram a ver homens armados. Houve ameaças de o morro passar a ser controlado por uma facção inimiga, e aí veio o Bope e "eliminou a ameaça", como explica o meu interlocutor. Tiroteio durante a noite e mortos na rua de manhã: agora é assim de vez em quando. O dono da pousada balança a cabeça. "Será que é tão difícil assim entender isso? Os bandidos andam armados para se proteger. Não estão interessados em ameaçar meus clientes. Tenho que ficar explicando isso milhares de vezes." Mesmo assim alguns hóspedes da pousada não querem mais ficar. Não faz nem duas semanas que um hóspede se mudou e pediu o seu dinheiro de volta. Um escocês. E em uma ruela perto uma pousada teve até que fechar. O dono da pousada está feliz porque o mundo não é feito só de escoceses. Americanos e russos, gente jovem, como esses sentados agora na piscina: não são fáceis de se assustar, já viram armas antes. "Aqui vai continuar a ter turismo", diz meu interlocutor, soando com um quê de teimosia. Por que ele está tão confiante? Devido aos preços módicos e à proximidade da praia. Pela experiência emocional de ter vivido numa área pobre. "E você sabe qual é o motivo principal? As pessoas sobem aqui e de repente não estão mais lá em baixo, nessa cidade barulhenta. As pessoas vêm aqui principalmente pelo sossego!" Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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