Alexander van der Bellen e a vitória da moderação

Kersten Knipp

Apesar de ter concorrido sem partido, presidente eleito da Áustria é um político verde de longa data, ainda que atípico, e poderá surpreender alguns eleitores. Vitória é atribuída a estilo popular adotado na campanha.No dia seguinte à eleição presidencial na Áustria não se ouvirá uma palavra de Alexander van der Bellen, anunciou sua equipe de campanha. O presidente nomeado vai se manifestar a partir desta terça-feira (06/12), de forma alguma antes da divulgação do resultado final pelo Ministério do Interior. Essa reação, moderada e cautelosa, parece bem típica do professor de economia de 72 anos, que ocupará o topo do Estado austríaco após uma segunda corrida eleitoral bastante árdua. O jeito tranquilo, que também o caracterizou durante a campanha, possivelmente lhe assegurou a vitória junto ao eleitorado, com quase 52% dos votos, segundo a apuração parcial. Mais próximo do povo no segundo turno O êxito também se deve ao seu novo estilo de apresentação. Se na primeira eleição Van der Bellen parecia reservado, quase distante, desta vez ele se mostrou de forma bem mais popular. O jornal austríaco Der Standard afirma ter sido essa uma estratégia acertada. "Ele foi a inaugurações de igrejas e a festas de cerveja, portou trajes típicos. Isso o ajudou a conquistar mais votos entre os conservadores." No primeiro turno, Van der Bellen no máximo participara da encenação virtual de uma apresentação de caráter mais folclórico. Em seu website, o político aparecia no Tirol, como caminhante, acompanhado de seus cães: uma imagem ambivalente, referindo-se tanto ao seu passado no Partido Verde – ele concorreu à presidência como candidato sem legenda – quanto a sua condição de cidadão ligado à terra natal. Em tempos de migração em larga escala, assim como na Alemanha, o termo Heimat (terra natal ou pátria) ganhou, para os austríacos, um valor reforçado, sobretudo entre os eleitores conservadores. "Eu acredito na nossa Áustria", declarou Van der Bellen, respondendo a essa expectativa. Vitória da moderação Ao mesmo tempo, porém, o circunspecto político angariou a simpatia dos círculos para os quais as aparições públicas do candidato do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), Norbert Hofer, eram um tanto estridentes e agressivas demais. "Possivelmente", especula a revista Profil, "as ofensivas mais recentes de Hofer contra Van der Bellen, de que ele seria comunista e espião e teria um pai nazista, acabaram sendo contraproducentes para Norbert Gerwald Hofer. Pelo menos o político do FPÖ mostrou sua verdadeira cara no último duelo televisivo, ao tentar difamar como establishment a ala dos apoiadores de Van der Bellen." Ao que tudo indica, o vencedor pôde contar tanto com esse establishment como com sua clientela fixa, que já havia se mostrado fiel no primeiro turno. "Em tudo o que está à esquerda do centro, Van der Bellen teve resultados excelentes", constata o jornal Die Presse. Político de caráter próprio Alexander van der Bellen entrou para a política relativamente tarde. Durante muito tempo o professor de economia das universidades de Innsbruck e Viena simpatizara com os social-democratas, mas o anúncio da construção de uma usina hidrelétrica no Rio Danúbio, em 1984, foi a deixa para que ele se filiasse aos verdes, que tentavam impedir o projeto Dez anos mais tarde entrava para o Parlamento representando a legenda. Com sua tendência à equanimidade, contribuiu essencialmente para reunir o Partido Verde, então dividido. Entretanto, nunca foi um verde típico, e esse distanciamento em relação aos costumes políticos e estilísticos da agremiação poderão influenciar sua maneira de conduzir o cargo de presidente da Áustria. "É possível que muitos adeptos ainda vão se surpreender com Alexander van der Bellen no Hofburg", a sede presidencial em Viena – especula a revista Profil. "Pois as posições que ele defende em sua biografia Die Kunst der Freiheit (A arte da liberdade) não correspondem sempre ao gosto do eleitor verde mediano." No geral, a revista descreve um político de caráter francamente próprio. "O politicamente correto ele considera, em parte, algo tolo; acha bom o livre-comércio, também não tem nada contra [os acordos transatlânticos] TTIP e Ceta. Em compensação, condena, no livro, a 'cobertura midiática unificada voluntária', por exemplo, no tocante à Rússia." Após uma campanha eleitoral em parte muito estridente e agressiva, sua meta deverá ser unir novamente o país. Pois ele pode ter vencido por uma margem maior do que se esperava, mas, no fim das contas, o adversário Hofer conseguiu mais de 48% dos votos. Agora cabe a Alexander van der Bellen convencer seus eleitores de si e de seu estilo conservador. Só assim a Áustria conseguirá reencontrar o próprio centro político.

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