Opinião: Turbulências internas na CDU

Volker Wagener

Só com Merkel há chances de ganhar a eleição, mas nem todos querem continuar a viagem dela rumo ao centro político: é com esse espírito que a CDU se lança numa campanha eleitoral dura, opina o jornalista Volker Wagener.Primeiro a boa notícia: a União Democrata Cristã (CDU) ainda sabe brigar – pelo menos num congresso partidário. Na verdade, essa deveria ser a regra, mas entre os democrata-cristãos trata-se, antes, de uma exceção. Pois a legenda governista alemã é uma família política organizada na vertical: em caso de dúvida, as moções da cúpula são simplesmente corroboradas pelos delegados. Brigar em palco aberto? Isso é coisa para os verdes e os social-democratas, mas não para os bem comportados netos de Konrad Adenauer e Helmut Kohl. Só que, desta vez, na cidade de Essen, foi diferente: de repente irrompeu uma surpreendente luta de opiniões em torno da moção C28. Tratava-se de decidir se filhos de imigrantes não europeus continuariam tendo direito à dupla nacionalidade: a dos pais e a alemã. A questão se transformou numa batalha terminal entre a liderança partidária e partes da base. E a cúpula perdeu. Um caso claro de surpreendente desobediência à líder e chanceler federal Angela Merkel, ao secretário-geral Peter Tauber e ao ministro do Interior, Thomas de Maizière. Por trás disso está o desejo das bases democrata-cristãs de se tornarem de novo mais conservadoras. Mas, e Merkel, essa personificação do centrismo político, onde ela fica nessa história? No momento, só com ela na liderança o partido ainda tem chance de ganhar uma eleição, mas nem todos querem continuar nessa viagem rumo à modernidade urbana. Uma maioria, ainda que apertada, se opôs a Merkel e ao consenso sobre a dupla cidadania, penosamente negociado, há apenas dois anos, com o parceiro de coalizão governamental Partido Social-Democrata (SPD). E a declaração de guerra ao passaporte duplo não é um tema político isolado, com o qual algumas parcelas da legenda se lançaram em busca do perfil conservador perdido. No congresso de Essen, os delegados se ocuparam de mais de uma dúzia de moções que tinham, todas, um único fim: endurecer as leis de imigração e de segurança. Na maioria dos casos, a requerente foi a ala jovem da legenda, que no momento se posiciona inegavelmente à direita da matriz partidária. Não há dúvida: a CDU redescobriu o tema segurança interna e o lança para a campanha eleitoral de 2017, com um potencial polarizador como há muito não se via na Alemanha. Não é de hoje que a dupla cidadania é um assunto explosivo na CDU. Com ele, a bancada estadual de Hessen até mesmo venceu o pleito parlamentar de 1999, elegendo Roland Koch como governador. Na época, ser conservador era ser contra a dupla cidadania. A redescoberta desse tema tão emocional em tempos da populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) tem um alto valor simbólico – porém, não mais do que isso. Afinal, não é possível transformar em lei a vontade dos delegados em Essen. Com que aliados? O SPD pode se mostrar indignado pelo "atentado ao duplo passaporte", mas, no fundo, está feliz por finalmente poder se diferenciar da CDU em termos de conteúdo. Claro está: a campanha eleitoral de 2017 não será de troca de afagos. Pelo contrário: tudo indica que o clima estará carregado, algo que Merkel já enfrenta em sua própria casa e que ela mesma está acirrando. Logo depois do fim do congresso, diante de câmeras de TV, a presidente da CDU atacou os rebeldes contrários à dupla cidadania: ela considera a decisão errada, disse, e não rescindirá o acordo com o SPD. Em seu discurso final de oito minutos, entretanto, Merkel não dissera uma única palavra a respeito, simplesmente desejando aos delegados boa viagem de volta. Esse é um procedimento que só se tem quando o adversário já está dentro das próprias alas. Não há dúvida: como provou o congresso em Essen, as turbulências programáticas internas são intensas na CDU. O curso de modernização de Merkel, em direção ao centro político, não está mais isento de oposição: é uma primeira amostra do que espera a União Democrata Cristã depois de Merkel.

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