Da prosperidade à fome: o comércio na fronteira com a Venezuela

Marina Estarque (enviada especial a Roraima)

Devido à inflação galopante e à crise de desabastecimento em seu país, venezuelanos buscam alimentos, remédios e itens de higiene no Brasil. Alta demanda tem forte impacto no comércio local.Foi-se o tempo em que os venezuelanos vinham a Pacaraima para comprar chocolates, espumantes, queijos e souvenires do Brasil. Com a crise no país vizinho, hoje os que conseguem voltar com sacos de produtos básicos, como farinha ou café, já se consideram privilegiados. "Agora o luxo é levar açúcar ou arroz", conta o comerciante peruano Edgardo Ruiz, de 65 anos – 15 deles passados em Pacaraima, Roraima (RR), na fronteira com a Venezuela. "Antes eles nem perguntavam o preço, já saíam comprando", afirma Ruiz, cuja loja agora oferece principalmente alimentos e produtos básicos de higiene pessoal, em falta no país vizinho. O movimento de compradores começa bem cedo, antes de a fronteira abrir. Às 5h, ainda escuro, os primeiros chegam a pé, passando ao lado das cancelas do posto de controle (para pedestres, o trânsito é livre na fronteira, delimitada apenas por marcos brancos). Os clientes compram café e pão de ambulantes, também venezuelanos, na rua principal da cidade, onde aguardam as lojas abrirem. Enquanto a maior parte da cidade dorme, índios venezuelanos já seguem seus afazeres. Nas portas de casas e lojas, onde dezenas de famílias indígenas passaram a noite abrigadas pelas marquises, mulheres e crianças arrumam seus poucos objetos e papelões antes de o sol sair. Os cães de Pacaraima, que são muitos, ainda descansam nas calçadas, com o mesmo aspecto de abandono e desolação da cidade. Aos poucos, as lojas abrem, o movimento aumenta, e os clientes se inteiram do novo valor do bolívar, moeda venezuelana. Um burburinho toma conta dos compradores, que terminam seu café em pé na calçada. "Os preços aumentaram uma barbaridade, cerca de 50%. Um real na semana passada estava 500 bolívares, agora está 720. A viagem até o Brasil já não está mais compensando tanto como antes", comenta o soldador Yordis Gutierrez, de 32 anos. Crise e inflação Venezuelano de San Félix, Gutierrez viajou dez horas de ônibus para chegar a Pacaraima e comprar dois fardos de arroz, macarrão, açúcar e café. Às 10h da manhã, ele já se preparava para ir embora. "Tenho uma esposa e 4 filhos, tenho que fazer milagre para conseguir comida para todos", diz ele, que ganha cerca de 130 reais por mês. A Venezuela atravessa uma grave crise política e econômica, com desabastecimento e inflação prevista de 720% neste ano. Faltam alimentos, remédios e itens básicos de higiene. A rápida desvalorização do bolívar é o principal motivo apontado pelos comerciantes para a piora nas vendas. O peruano Ruiz afirma que, nos últimos dois meses, tem perdido dinheiro com a flutuação cambial, uma reclamação recorrente em Pacaraima. "Todo o comércio aqui depende da Venezuela, então essa queda do movimento me preocupa muito", afirma. Até a procura por remédios diminuiu. Em uma farmácia na rua principal, um funcionário afirma que as vendas despencaram 70% no último mês. Em uma loja próxima, o movimento caiu 50% nos últimos dois meses. O cearense Antônio Aguiar, de 46 anos, substituiu a venda de pneus por fardos de alimentos. "100% dos nossos clientes são venezuelanos, os brasileiros compram tudo em Boa Vista. E pneu é caro, os venezuelanos não conseguiam mais comprar", conta. Segundo Aguiar, muitas lojas abriram no início do ano, no auge do fluxo de venezuelanos, e já fecharam. O aluguel inflacionou com a chegada dos comerciantes "aventureiros" – um ponto passou de 1 mil reais para 4 mil reais por mês. Na loja de Ivanilton Santana, de 40 anos, há poucos meses havia filas enormes na porta. Agora o movimento é intenso, mas não há clientes à espera. "O câmbio firmou por dois meses, entre 350 e 500 bolívares, e foi muito bom. Mas em outubro e novembro eu perdi 15 mil reais. Dá até raiva desses bolívares", diz ele, desgostoso, jogando as pilhas de notas em sacos e prateleiras. Comércio intenso Do outro lado do balcão, o dinheiro parece valer bem mais. Os clientes tiram bolos de bolívares, amarrados com elásticos, de bolsas e mochilas. As mãos de pele escura, marcadas pelo trabalho, contam as notas uma a uma, em um ritual de enorme concentração. Depois enfileiram as pilhas no balcão, lado a lado. Os olhos acompanham, com ansiedade, a contagem do dinheiro em máquinas. A cena é repetida o dia inteiro, em várias lojas da cidade. Entre 8h e 10h da manhã, o comércio é intenso. Dezenas de venezuelanos passam com fardos nas cabeças, outros depositam os alimentos em uma espécie de táxi-carreta, que leva a carga até a rodoviária. Fardos de alimentos e caixas com fraldas, sabonetes e desodorantes são empilhados nas calçadas já estreitas. A rua principal, com lojas de ambos os lados, tem o asfalto gasto e esburacado, com lixo acumulado no meio fio. O sol das 10h, que parece de meio-dia, força os transeuntes a se recolherem, e o movimento começa a rarear. Os poucos que saem no horário do almoço andam com sombrinhas. O calor acentua o cheiro forte e azedo da cidade, uma mistura de fumaça de caminhão, lixo e esgoto – a água escura, não encanada, corre ao lado do meio fio em vários pontos da cidade. Perto da hora do almoço, mesmo na rua principal de Pacaraima, os odores fétidos inibem o apetite. Apesar da poluição, a cidade é um destino procurado pela elite de Boa Vista pela sua "temperatura amena", comparada a outros locais do estado. Encravada em uma reserva indígena, Pacaraima é o refúgio de roraimenses abastados para "tomar um vinho e comer fondue". Além de moradores da capital, comerciantes e clientes, Pacaraima também atrai venezuelanos interessados em trabalhar com carga e descarga de mercadorias. É o caso de R.L., de 45 anos, que mora na cidade há três meses e divide um quarto com outros 11 venezuelanos. R.L., que não se identificou por medo de ser deportado, diz ganhar em média 5 reais por dia, já que nem sempre consegue trabalho. Pretende voltar para casa no Natal, assim que juntar alimentos para levar para a esposa e os dois filhos. "A minha família lá está racionando a comida o máximo que pode. Tinha conseguido comprar alguns fardos aqui, mas me roubaram", contava ele, quando foi interrompido pelo chefe. O brasileiro Hassan, de 50 anos, movia os trabalhadores de um lado para o outro, selecionando os homens que fariam a descarga do caminhão parado ao lado da sua loja. Filho de palestinos, Hassan chegou a Pacaraima na mesma época que R.L, para ser comerciante. Na cidade, segundo ele, há 25 parentes seus. "Árabe é assim", afirma, enquanto separa os trabalhadores: "Você sim, você não". "Fidel, ô Fidel", aponta Hassan para R.L, que atende ao chamado. "Quem é o melhor chefe aqui?", pergunta o comerciante. "Você, senhor", responde prontamente R.L. Fidel foi o apelido dado a R.L. pelo chefe, um fã dos líderes de esquerda latino-americanos, explica o trabalhador. "Ele é revolucionário", afirma R.L., dando ao termo uma conotação negativa. O venezuelano não compartilha das visões ideológicas de Hassan e culpa os chavistas pela atual crise, que o forçou a deixar a Venezuela para trabalhar no Brasil. Assim, o apelido de Fidel não lhe cai bem. "Mas ele é meu chefe, o que eu posso fazer?", diz. Sábado à noite, R.L. caminha por Pacaraima. Parece que vai a alguma festa. Dobrando a esquina se vê vários venezuelanos aglomerados na rua principal. Parece uma confraternização. Mas não era. Um caminhão de mercadorias se aproxima. Era mais trabalho.

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