Lutando para salvar moradores de rua no inverno alemão

Sabrina Pabst (av)

Com sopa, guarida e calor humano, prefeituras e voluntários se empenham para preservar as vidas dos sem-teto a temperaturas abaixo de zero. Perigo do desabrigo vai se estendendo à classe média, apontam especialistas.À medida que chega o inverno, em diversas regiões da Alemanha as temperaturas estão cronicamente abaixo de zero, mesmo durante o dia, e a neve esparsa se transformou em gelo permanente. Mas, apesar do frio, muitos sem-teto ainda dormem pelas ruas, buscando abrigo nas entradas de prédios ou debaixo das pontes. Como todos os anos, há quem faça o possível para evitar tal situação. Em cidades como Frankfurt ou Colônia, voluntários abastecem os moradores de rua com bebida e sopa quente, colchonetes térmicos e sacos de dormir. Mais do que comida e cobertor Arzu Mischkoff atravessa Colônia ao volante do "ônibus de inverno". Duas vezes por semana, ela e seus ajudantes distribuem comida – e amor ao próximo – para os desabrigados. "Queremos criar momentos de contato. Comunicação é uma necessidade básica, assim como comida e bebida. E as pessoas conversam entre si quando comem." Sua associação, Amigos das Ruas de Colônia e seus Residentes, que começou em 2014 distribuindo gêneros em carroças de mão, hoje se transformou numa organização humanitária quase profissional. "Engajamento voluntário mostra que calor e amor ao próximo existem, e que os sem-teto não foram esquecidos", comenta Rainer Best, responsável da associação católica de serviços sociais SKM para prover acomodações aos desabrigados. Além de refúgio, os assistidos pelo grupo alemão também têm acesso a conversas e aconselhamento. "Há gente que sequer é capaz de aceitar assistência. Outros recusam", conta Best, com base em suas experiências diárias. Nesses casos, nem mesmo o trabalho voluntário pode ajudar. Causas sociais Dirk Schumacher, diretor do Departamento para Assuntos Sociais e Idosos de Colônia, confirma: problemas sociais específicos são, muitas vezes, o motivo por que alguns acabam por morar na rua. A falta de moradia também costuma estar associada a doenças mentais ou à dependência do álcool e outras drogas. Segundo ele, muitos dos afetados "não são capazes de se integrar à sociedade ou fogem dela". Somente uns poucos recorrem regularmente aos locais de atendimento, nos dias e noites mais gelados. Para alguns, é difícil demais se abster do álcool nos abrigos. Calcula-se em torno de 200 o número de desabrigados que vivem permanentemente nas ruas de Colônia. Por isso, no inverno a prefeitura organiza as chamadas "viagens do frio", em que assistentes sociais procuram os moradores de rua em seus locais usuais, para falar com eles e informá-los sobre os abrigos de emergência. A cada inverno, a municipalidade providencia acomodações adicionais, explica Schumacher. "Não basta as pessoas ganharem uma sopa ou um casaco mais pesado. Queremos oferecer assistência de longo prazo e aconselhamento." Além dos locais de acolhimento e dos transportes para escapar ao frio, Colônia mantém um serviço "disque 24 horas", para que passantes possam informar sobre gente dormindo na rua a temperaturas abaixo de zero. Só a ponta do iceberg Segundo Thomas Specht, diretor da comunidade federal alemã para os sem-teto BAG W, a demanda de abrigos de emergência cresceu este ano, como já vem acontecendo constantemente desde 2009. Por outro lado, a BAG W registra um decréscimo do número dos moradores de rua na capital, Berlim, em relação ao inverno anterior. O governo federal alemão não dispõe de estatísticas sobre o número de desabrigados do país. No entanto, Specht estima haver no país "40 mil cidadãos morando nas ruas, que não têm casa". "E esse é só um pequeno grupo, visível, entre os que não têm como pagar por um apartamento." Por definição, sem-teto é quem não tem um local para morar ou endereço fixo. Além disso, há os que vivem em abrigos ou lares temporários, não dispondo de moradia própria. Segundo estimativas, em 2014 havia na Alemanha cerca de 335 mil cidadãos sem-teto, a maioria, homens solteiros. A BAG W calcula que essa cifra subiu para 500 mil em 2015. Em foco: Leste Europeu e classe média Em Frankfurt, a assistência aos desabrigados é diversificada e ativa em numerosas áreas, apesar do medo de que os refugiados desviem a atenção das necessidades desse grupo. "As organizações independentes e a cidade estão sendo tão profissionais e sérias em suas atividades de inverno como têm sido nos anos anteriores", assegura a conselheira municipal Daniela Birkenfeld. Da mesma forma que em outras metrópoles europeias, cresceu o número de europeus orientais em Frankfurt, sobretudo romenos e búlgaros. Muitos não encontraram emprego após fazer uso do direito de livre circulação dentro da União Europeia, acabando por ficar também sem moradia. Ainda assim, grande parte não quer retornar a seus países de origem, conta Manuela Skotnik, conselheira para assuntos de refugiados de Frankfurt. A história se repete em outras grandes cidades alemãs – como Colônia, onde, segundo Rainer Best, cidadãos do Leste Europeu ocupam dois terços da capacidade municipal de fornecimento de abrigo de emergência. Trata-se de gente vinda de regiões extremamente pobres, que "imaginou uma vida diferente na Alemanha", explica o funcionário da SKM. Sua maior preocupação é poder seguir provendo acomodações durante todo o ano e ampliá-las no inverno. Outro motivo de apreensão para Best é o empobrecimento da classe média no país, onde muitos já estão à beira da pobreza. Thomas Specht, da BAG W, vem observando um fenômeno semelhante. "A sociedade está dividida entre ricos e pobres. Temos um declínio estrutural da capacidade de pagar aluguel, nos grupos de renda mais baixa." A oferta de moradia também está em baixa, sobretudo nas cidades maiores, onde os aluguéis sobem rapidamente e "cada vez mais gente perde espaço de moradia".

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