Um homem de negócios à frente da política externa de Trump

Michael Knigge

Rex Tillerson, secretário de Estado apontado pelo presidente eleito, se assemelha ao futuro chefe em ao menos dois aspectos: é um veterano do mundo dos negócios, sem experiência pública, e tem fortes laços com o Kremlin.A expressão inglesa company man designa alguém cuja lealdade está inteiramente do lado da empresa para que trabalha. Rex Tillerson, nomeado nesta terça-feira (13/12) secretário de Estado americano por Donald Trump, ilustra perfeitamente esse tipo de pessoa. Formado em engenharia civil pela Universidade do Texas, ele passou toda a vida profissional a serviço da Exxon. Depois de entrar para a gigante da energia como engenheiro de produção em 1975, galgou continuamente a hierarquia empresarial, até se tornar presidente e diretor executivo da ExxonMobil em 2006. Agora que Tillerson está prestes a completar 65 anos, a idade de aposentadoria compulsória na Exxon, o presidente eleito dos Estados Unidos lhe acena com um emprego improvável, considerando-se o histórico profissional de Tillerson: chefe da diplomacia nacional. Assim como seu potencial chefe, Trump, o executivo não tem qualquer experiência prévia no governo ou no serviço público – condições inéditas para um secretário de Estado da época moderna. Laços pessoais com Putin Embora pouco se saiba publicamente sobre as eventuais aptidões de Tillerson para a política externa, sua extensa experiência de negócios na Rússia é conhecida, e ele até conhece Vladimir Putin pessoalmente. Em 2013, o presidente russo lhe honrou com a Ordem da Amizade, uma distinção concedida a apenas poucos americanos. Aparentemente foram justamente essas conexões que o tornaram um candidato atraente para o cargo de responsável pela política externa americana. Recentemente Trump revelou-se positivamente impressionado com o executivo, que fez "enormes acordos de negócios com a Rússia". Trump também tem repetidamente enfatizado não só seu interesse em melhorar as relações russo-americanas, como também sua admiração por Putin. Provavelmente o maior acordo fechado por Tillerson foi o plano da Exxon de explorar as reservas de petróleo no Ártico russo em conjunto com a estatal russa Rosneft. No fim das contas, porém, a companhia americana foi forçada a se retirar da empreitada, devido às sanções ocidentais contra Moscou, decorrentes da anexação da península ucraniana da Crimeia, no início de 2014. "Receio que Tillerson esteja comprometido, devido ao possível conflito entre interesses comerciais e diplomáticos", comenta Scott Lucas, especialista em política externa americana da Universidade de Birmingham. "Ele dirige uma companhia profundamente envolvida na Rússia, e que, portanto, está empenhada – por exemplo – na suspensão das sanções dos EUA." Opositores e adeptos entre os republicanos Se Trump estivesse empenhado numa revisão radical da relação russo-americana, incluindo questões essenciais, então talvez se criasse uma situação em que todas as partes envolvidas tivessem chances equivalentes, e essa poderia incluir Rex Tillerson. Contudo, como o futuro presidente já deixou claro que seu interesse é numa parceria cooperativa com a Rússia, sem qualquer consideração pelo impacto desta sobre aspectos-chave, "a indicação de Tillerson soa como a confirmação desse julgamento, em vez de ser parte de um processo ponderado de política externa e diplomacia". As conexões russas do executivo texano já foram duramente criticadas, não só por congressistas democratas, mas também por republicanos proeminentes, como Marco Rubio, que comentou publicamente a intenção de votar contra a nomeação de Tillerson. No entanto, o presidente da Exxon também conta com o respaldo de republicanos importantes. Segundo a mídia, os ex-secretários de Estado James Baker e Condoleezza Rice são a favor de sua indicação, assim como o ex-secretário da Defesa Robert Gates – todos esses igualmente com interesses de negócios na Rússia. Mudança climática A mudança climática é outra área de política externa em que Rex Tillerson se destacou ao longo dos anos à frente da Exxon. Ao contrário de seu antecessor, Lee Raymond, ele admite que essa ameaça ambiental é real. Entretanto, num discurso no Conselho de Relações Exteriores, quatro anos atrás, ele sustentou tratar-se de um "problema técnico". Em relação ao Acordo de Paris, Trump e Tillerson podem bater de frente. Enquanto o presidente eleito prometeu que retirará os Estados Unidos do principal pacto internacional para combate ao aquecimento global, a Exxon sob a direção de Tillerson elogiou o acordo como um "importante passo adiante". Segundo o especialista Scott Lucas, caso Tillerson seja confirmado no cargo, os Estados Unidos teriam como secretário de Estado um "hábil homem de negócios", mas com qualificações questionáveis e possíveis conflitos de interesses. Não muito diferente de seu futuro patrão.

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