Acordo com Boeing pode marcar nova era no comércio entre Irã e EUA

Shabnam von Hein (md)

Iranianos querem renovar frota com 80 novas aeronaves da empresa americana, num negócio de mais de 16 bilhões de dólares - o maior com empresas ocidentais desde a Revolução Islâmica.O acordo assinado pela americana Boeing com o Irã, para a venda de 80 aviões de passageiros, tem potencial para ser um marco na recém-iniciada reaproximação entre Washington e Teerã. Selado no último domingo (11/12), o negócio é avaliado em 16,6 bilhões de dólares – o maior com empresas ocidentais desde a Revolução Islâmica, de 1979. "Esta é uma boa notícia para os iranianos. Mas também para os europeus", avalia o economista Fereydon Khavand, da Universidade de Paris. "Agora também a Airbus pode fechar seu contrato com o Irã sem ter de se preocupar com a pressão dos Estados Unidos." Três dias após negócio do Irã com a Boeing, a mídia iraniana informa que nas próximas duas semanas o contrato que vinha sendo negociado há tempos entre a europeia Airbus e a Iran Air estará pronto. A Airbus aceitou o financiamento para 17 aviões. O pedido do Irã inclui um total de 106 aeronaves da Airbus. Segundo o chefe da autoridade de aviação civil do Irã, o país precisa de 400 novos aviões na próxima década, para modernizar sua defasada frota de aeronaves. Desde 1979, o Irã não podia comprar novos aviões. Por mais de três décadas, o Irã ficou sob sanções comerciais dos Estados Unidos. Nem mesmo o fornecimento de peças sobressalentes era permitido. A venda de novas aeronaves da Airbus também era proibida, pois os aviões da companhia europeia têm tecnologia americana. Alguns poucos aviões que ainda eram utilizáveis eram usados ??em voos de longa distância para fora do país. Mas voos de curta distância se tornaram o pesadelo de muitos iranianos. Nos últimos 37 anos, ocorreram mais de 1.500 acidentes aéreos – muitas vezes com consequências graves. Um dos últimos deles, em agosto de 2014, na capital Teerã, matou pelo menos 38 pessoas. A aeronave caiu logo após decolar, perto do aeroporto, a apenas 500 metros de uma movimentada feira popular. O avião acidentado era um turbo-hélice Antonov An-140, construído no Irã com tecnologia ucraniana – sob licença de Kiev. Até agora, sete aeronaves deste tipo foram produzidas, quatro delas caíram. Declarações contraditórias de Trump presidente Hassan Rohani prometeu durante a campanha eleitoral encontrar uma solução para o problema. Durante as negociações sobre o programa nuclear iraniano, o governo dos EUA permitiu ao Irã a compra de novos aviões. Após o fechamento do acordo com o Grupo 5+1, o Irã começou a negociar simultaneamente com a Boeing e a Airbus. Já no início de 2016, um acordo foi fechado com a Airbus. Mas ele precisava do aval do Tesouro dos EUA, porque pelo menos 10% da tecnologia das aeronaves são americanos. A mensagem no site da Boeing de que o negócio com o Irã vai criar 100 mil novos empregos nos EUA na próxima década irritou os linha-dura em Teerã. "Nossos jovens precisam de empregos, o governo deve combater o desemprego no Irã. Nós temos maiores problemas do que comprar novas aeronaves", se queixa Hossein Shariatmadari, editor-chefe do jornal conservador Keyhan e consultor do líder religioso aiatolá Ali Khamenei. que irrita especialmente os linha-dura é que o negócio da Boeing tenha sido fechado depois que o Senado dos EUA estendeu a lei de sanções contra o Irã por mais 10 anos, alegando falhas de Teerã no campo dos direitos humanos e no apoio ao terrorismo. A interferência do Irã no Iraque, assim como o apoio ao regime de Assad na Síria devem ser punidos. Ao mesmo tempo, Israel acusa o Irã de usar aviões de passageiros para envio de armas à milícia xiita Hisbolá, no Líbano. "O Senado queria estar um passo à frente do próximo presidente. A extensão das sanções contra o Irã leva insegurança aos parceiros europeus e complicam o comércio com o Irã", explica Mehrdad Emadi, economista iraniano que trabalha em Londres para a empresa de consultoria Beta Matrix, além de assessorar a Comissão Europeia. Isso deu mais munição aos adversários do acordo nuclear no Irã. "Os americanos nos enganaram. Abandonamos à toa o programa nuclear", escreveu nesta terça-feira (13/12) o editor-chefe do Keyhan, Hossein Shariatmadari, em editorial. O texto chama o governo Rohani de "fracassado", acusando-o de ter enganado conscientemente a população. Os linha-dura questionam o porquê de um negócio com a Boeing do qual, argumenta, apenas os americanos se beneficiam. "Ninguém sabe como o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, vê os negócios com o Irã", ressalta Fereydon Khavand, da Universidade de Paris. "O contrato com a Boeing foi assinado sob o governo Barack Obama. Então, os novos postos de trabalho serão contabilizados para ele." As declarações de Trump na campanha eleitoral foram contraditórias. Por um lado, ele anunciou cancelar imediatamente o acordo nuclear com o Irã. Por outro, se queixou de que, após a suspensão das sanções, apenas os europeus vendem aviões ao Irã. Mas mesmo isso mudou neste meio-tempo.

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