"Brasil precisa de novas forças políticas"

Ines Eisele

Para pesquisadora da fundação alemã SWP, Temer e o PMDB fazem parte do sistema de corrupção e não servem para combatê-lo. Novos políticos comprometidos a governar de forma transparente deveriam entrar em cena, afirma.Formada em Política, Sociologia e Psicologia, Claudia Zilla nasceu na Argentina e vive na Alemanha há 23 anos. Seu foco é a América Latina. Já lecionou em Berlim e em Harvard e atualmente é diretora do grupo de pesquisa "Americas" na Fundação Ciência e Política (SWP), na capital alemã. Em entrevista à DW Brasil, ela comenta a reprovação ao presidente Michel Temer e as perspectivas de um governo sem corrupção no país. Para ela, seria necessário que novas forças políticas emergissem. "Entre o governo Dilma e o governo Temer há mais continuidade do que se pensa", afirma. DW Brasil: Segundo pesquisa do Datafolha divulgada nesta semana, 51% dos brasileiros consideram a gestão do presidente Michel Temer ruim ou péssima, ante 31% em julho. O mandato de Temer ainda está seguro? Claudia Zilla: Os resultados da pesquisa não me surpreendem, pois desde o começo as expectativas em relação ao governo Temer não foram realistas. O que na época do impeachment [da ex-presidente Dilma Rousseff] mais preocupava as pessoas era a corrupção, mas Temer e o PMDB fazem parte desse problema, e não da solução. Mesmo assim, acho um novo impeachment pouco provável, porque é muito complexo iniciar esse processo. E o impeachment de Dilma, pelo menos formalmente, não esteve ligado a acusações de corrupção, mas a outras que no caso do Temer não existem. Alguma coisa melhorou desde que Temer assumiu o poder? As promessas de uma mudança definitiva na estratégia econômica –feitas por Temer na época do impeachment de Dilma – até agora não foram cumpridas. A inflação, o desemprego e o crescimento negativo da economia estão na mesma. E em termos de crise política, também não melhorou nada, pelo contrário: as investigações continuam, e as dimensões da corrupção parecem se agravar cada vez mais. Basta lembrar que seis ministros nomeados por Temer já tiveram que recuar, quatro deles porque estavam envolvidos em escândalos de corrupção. Dos deputados, 60% têm pendências na Justiça. Seria de alguma maneira possível montar um governo que funcione sem corrupção? Em países da América Latina, corrupção é um problema endêmico. Ninguém se surpreende com o fato de haver corrupção no Brasil, mas é a dimensão que choca as pessoas. Levando em conta que quase todos os partidos e políticos estão envolvidos, seria difícil instalar um governo sem corrupção, porém não impossível. Não funcionaria de um dia para o outro, mas com reformas, poderia ser feita uma política diferente. Mas precisaria ser um governo novamente eleito, e não um em que a maioria dos políticos já fazia parte da gestão anterior. Entre o governo Dilma e o governo Temer há mais continuidade do que se pensa: apesar do PT, a coalizão é formada quase pelos mesmos partidos e políticos de antes. Então, novos políticos teriam que entrar em cena? Sim. Os partidos estabelecidos, principalmente o PMDB, que fez parte de todos os governos desde a redemocratização do Brasil, não são qualificados para um recomeço: quem é parte do sistema de corrupção não serve para combatê-lo. São necessárias novas forças políticas que se comprometam a fazer política de uma maneira diferente, mais transparente – quando se trata do financiamento do partido, por exemplo. Agora, o grande problema é que ainda não vejo políticos novos que poderiam assumir essa tarefa. Que possibilidades a sociedade civil tem de agir? Comparada à de outros países da América Latina, a sociedade brasileira tem uma margem de ação muito grande. O Brasil não é Cuba nem Nicarágua ou Venezuela. Os cidadãos podem expressar suas opiniões livremente. Eles têm poder por meio do voto e podem criar novos partidos se não gostarem de nenhum. Podem exercer um controle social por meio de ONGs e, como em parte já está acontecendo, mostrar seu descontentamento por meio de protestos. Além disso, acho importante a sociedade estabelecer fontes alternativas de informação: o Brasil é uma democracia, mas na mídia há oligopólios.

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