Novas cartas no pôquer coreano

Fabian Kretschmer (de Seul)

Com a eleição de Donald Trump e a crise governamental em Seul, o frágil balanço de poderes na península pode sofrer mudanças, e Coreia do Norte tenta capitalizar. "Tudo pode mudar, para melhor ou pior", diz observador.No fim de semana, a agência de notícias norte-coreana KCNA difundiu imagens, no mínimo, ameaçadoras: elas mostram armas de artilharia pesada sendo disparadas de colinas, e dezenas de forças especiais saltando de paraquedas e invadindo um complexo de edifícios semelhante à residência presidencial em Seul. Em seguida, eles põem o prédio em chamas. Numa outra imagem vê-se o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, com binóculos e um sorriso irônico no rosto. O ditador supervisionou o exercício militar a partir de uma sentinela. Era uma simulação, segundo a própria KCNA, de um ataque militar contra a Coreia do Sul. A reação de Seul veio prontamente. Ainda na segunda-feira, o Ministério da Defesa de seus aliados em Washington um maior envio de sistemas de vigilância e reconhecimento à Coreia do Sul. Cerca de 40 mísseis anti-bunker teriam sido estacionados no país. O KEPD-350, da fabricante alemão Taurus, possui um alcance de cerca de 500 quilômetros e, segundo um especialista em armas do Fórum Coreano para Defesa e Segurança, "tem precisão o suficiente para atingir o escritório de Kim Jong-un". Sinais de Washington O equilíbrio político na península coreana está mudando. As sanções da ONU contra o regime de Pyongyang deixaram pouco espaço para aproximações entre Sul e Norte. Washington, Pequim e Seul também não querem alterar o status quo – apenas a Coreia do Norte parece querer continuar ampliando seu arsenal nuclear. No início de novembro, Donald Trump foi eleito presidente dos EUA. Durante a campanha, ele ameaçou, por exemplo, retirar os cerca de 30 mil soldados americanos estacionados na Coreia do Sul, caso os parceiros da aliança não assumissem uma fatia maior dos custos. Ao mesmo tempo, anunciou estar pronto para conversações diretas com o ditador Kim Jong-un, apenas para, pouco mais tarde e de forma pouco diplomática, difamá-lo como um "maluco". "Trump parece considerar toda a gama de opções – desde conversas sérias a um ataque militar", disse John Delury, especialista em Coreia, em entrevista recente à imprensa americana. Então eclodiu a crise política na Coreia do Sul. Na sexta-feira, o Parlamento sul-coreano decidiu pelo impeachment da presidente Park Geun-hye. Seu sucessor temporário, Hwang Kyo-ahn, é considerado um conservador linha-dura. Durante seu tempo como juiz constitucional, ele acusou regularmente sindicalistas e membros da oposição de serem "pró-norte-coreanos". Logo depois de assumir o poder, Hwang alertou seu gabinete sobre a ameaça representada por Pyongyang, que, segundo ele, iria explorar o temporário vácuo de poder em Seul. Em 2016, o regime norte-coreano já realizou dois testes nucleares e lançou um satélite ao espaço. Vácuo de poder em Seul De acordo com a análise da maioria dos especialistas de Coreia do Norte, porém, há pouca evidência de que Kim Jong-un seguirá com suas provocações nas próximas semanas. Por um lado, o regime norte-coreano está ciente de que o partido conservador (Partido Saenuri) em Seul poderia usar outro teste nuclear como forma de desviar a atenção do atual escândalo político. "Seria extremamente imprudente por parte de Pyongyang, justamente um mês antes da posse do governo Trump, gastar capital político", escreve Christopher Greene, pesquisador de Coreia do Norte na Universidade de Leiden, na Holanda. Na Coreia do Sul acredita-se que, em 2017, o novo presidente do país será do partido de centro-esquerda, atualmente na oposição. Diversos candidatos defendem uma mudança radical em relação à Coreia do Norte. Um deles é Park Won-soon, atualmente prefeito de Seul. Recentemente, ele apresentou sua visão da nova relação entre as Coreias. Ele pediu por aproximação econômica e cultural, descrevendo a Coreia do Norte como uma "ponte para a Eurásia". Igualmente, a oposição insta o cancelamento do Thaad, um planejado sistema antimíssil dos EUA, rejeitado, segundo pesquisas, por grande parte da população sul-coreana. A China também vê o sistema como um ataque à sua soberania. "A incerteza sobre o que esperar da Coreia do Norte nos próximos meses poderia abrir o caminho para um reinício muito necessário", diz James Pearson, correspondente para as Coreias da agência de notícias Reuters. Atualmente, porém, ainda é impossível estimar em qual direção as relações vão se mover: "A situação traz um potencial igualmente forte tanto para melhorar como para piorar."

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