Opinião: Violência não tem pátria nem religião

Alexander Andreev

Contrariando as afirmativas na internet, os covardes agressores do metrô de Berlim não são refugiados nem muçulmanos. Mais um alerta contra as notícias falsas, opina Alexander Andreev, chefe da redação búlgara da DW.São imagens repugnantes: sem o menor motivo, um homem chuta nas costas uma jovem numa estação de metrô de Berlim, ela despenca escada abaixo. O agressor segue caminho na maior calma, assim como um de seus acompanhantes, que só se abaixa para apanhar uma garrafa de cerveja caída nos degraus. Nenhum deles se ocupa da moça que, totalmente fora de si, tenta se levantar, no fim da escada. Na segunda semana de dezembro, esse vídeo foi colocado na internet pela polícia, e desde então, visto milhões de vezes nas redes sociais, desencadeando reações. Por parte da maioria, repulsa e indignação, mas também outra coisa: em blogs de língua inglesa, fóruns de debate alemães, na imprensa-marrom croata ou búlgara, presume-se e afirma-se que o agressor é, com toda certeza, um refugiado, um migrante, um muçulmano. E a conclusão final é: "É nisso que dá a cultura de boas-vindas de Angela Merkel!" Nesse ínterim, o agressor e seus três acompanhantes foram identificados pela polícia: são búlgaros, aparentados entre si. Os quatro desapareceram, e supõe-se que estejam agora foragidos em seu país de origem. Uma vez que se trata de cidadãos da União Europeia, que gozam de livre-circulação, caem no vazio todas as reivindicações de deportação e expulsão. E, de qualquer modo, esse tipo de consideração não deveria ter a menor relevância. Pois, independente de o agressor ser alemão, búlgaro, islandês ou até refugiado, sua injustificada e abominável brutalidade continua sendo um crime a ser punido com todo o rigor da lei. Porém o caso também convida a duas reflexões. Primeiro, sobre a avalanche de notícias falsas e meias-verdades com que somos confrontados na internet, cada vez mais. Notícias falsas e meias-verdades que, no mais das vezes, estão envenenadas com mensagens de propaganda e, reproduzidas aos milhões, servem para exacerbar os medos e preconceitos dos cidadãos. "Violência na Alemanha? Foi um refugiado, está na cara!", é uma das mensagens tóxicas mais populares dos últimos tempos. Segundo, antes de apontar o dedo acusador para um grupo concreto como potencial agressor e vilão, é melhor refletirmos sobre esse nosso "nós", tão cômodo e fonte de orgulho. Pois em toda nação, como em qualquer grande grupo, há sempre agressores e criminosos brutais, cujos atos nos fazem enrubescer de vergonha. O atual caso em Berlim deveria, antes de tudo, fazer os búlgaros pensarem e se moderarem, em vez de continuar explorando-o, em sua histeria de massa contra refugiados e muçulmanos. No momento estão sendo procurados os autores de ocorrências semelhantes do fim de semana, em Munique e Stuttgart. E sabe-se lá quem será identificado como agressor! Continua valendo: violência não tem nem pátria, nem religião. A "pátria" de atos brutais assim é, simplesmente, o ser humano, independente de origem. E sua "religião" é o ódio – contra seja lá o que for.

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