Batalha em Aleppo se aproxima do fim, mas guerra continua

Birgit Svensson (av)

Vitória na cidade põe regime em vantagem, mas conflito está longe do fim. Um dos focos deve ser Hama: dominada pelo governo Assad, mas cercada por redutos rebeldes e do EI. Na linha de frente, estão novamente os civis.Enquanto a sangrenta batalha de Aleppo vai chegando ao fim, em muitas outras frentes a luta continua, na Síria. Em especial na província de Hama, onde quase diariamente há mortos e feridos. Por último, a organização humanitária Union of Medical Care and Relief Organizations (UOSSM) registrou um ataque com gases tóxicos em diversos locais dessa província no centro do país. Na terça-feira (13/12), aviões de combate haveriam lançado bombas sobre várias aldeias ocupadas pelos jihadistas, matando mais de 90 civis e ferindo outros 300. Médicos locais informaram à UOSSM sobre as vítimas e seus sintomas. Segundo porta-voz da organização, teria sido empregada "uma substância química inodora e incolor", que atacou as vias respiratórias dos atingidos. "Quem não quer matar, tem que ir embora" É difícil delinear os fronts em Hama. Em algumas localidades em torno da capital provincial homônima, dominada pelas tropas do ditador Bashar al-Assad, a milícia terrorista do "Estado Islâmico" (EI) se estabeleceu. Ao mesmo tempo, há também grupos rebeldes ativos na área. Em contrapartida, as metas do presidente sírio são bem claras. "O que Assad quer, em primeiro lugar, é vencer os rebeldes", afirma um cristão escapado de Hama, que diz se chamar Dahoud. Graças a seus bons conhecimentos de inglês, o sírio de 27 anos encontrou trabalho numa empresa internacional na cidade de Suleimânia, no Curdistão Iraquiano. O jovem alto, de terno elegante e gravata, frisa que não é refugiado, mas antes um empregado estrangeiro, "pois muitos sírios que não queriam servir o Exército deixaram sua terra natal". Quem não quer matar outros seres humanos, que vá embora: isso é algo que muçulmanos e cristãos têm em comum, observa. "Quem tem emprego fora da Síria e visto de permanência, pode ficar liberado do serviço militar por quatro anos", explica Dahoud. Depois, ou os homens têm que voltar para servir no país ou comprar sua dispensa por 8 mil dólares. Ele já está há mais de três anos no Curdistão, e ainda não sabe o que fará no próximo ano, quando o prazo houver se esgotado. Mas uma coisa está certa: "Não quero atirar nos meus compatriotas, de jeito nenhum." Normalidade relativa Dahoud conta sobre a aldeia de Maharda, 23 quilômetros a noroeste de Hama, onde só vivem cristãos, e que é atacada quase diariamente, às vezes por grupos fundamentalistas islâmicos, outras por tropas governamentais. O jogo de força oscila de um lado para o outro, e os cristãos estão no meio. Hama, por sua vez, está firme nas mãos do governo. A cidade não é apenas estrategicamente importante, como também possui alto valor simbólico para a Síria. Situada na autoestrada entre Aleppo e Damasco, ela é uma das mais antigas metrópoles sírias inteiramente povoadas. Antes do levante contra Assad, quase seis anos atrás, Hama contava 900 mil habitantes, hoje são cerca de 1,5 milhão. Com o início da guerra civil, muitos fugiram de outras regiões para a capital provincial, por ser mais segura, relata Dahoud. Lá a vida ainda transcorre relativamente normal: sua irmã e irmão frequentam a universidade, os pais trabalham. Só à noite é aconselhável permanecer em casa, pois ocorrem sequestros visando resgate, diz Dahoud. O status de trabalhador estrangeiro lhe permite visitar a família na Síria, a última vez foi em meados do ano. O sírio empregado no Curdistão Iraquiano se empolga ao falar de sua cidade natal. Desde a época romana, ela possui moinhos de água, 126 rodas ao todo. Dahoud mostra um breve vídeo no smartphone, em que crianças brincam numa dessas rodas de água: imagens de tempos pacíficos, que hoje parecem quase irreais. Quando Hama se transformou em núcleo do protesto contra o regime de Damasco, o Exército sírio avançou com violência sobre a cidade, matando muitos. O cantor Ibrahim Qashoush, autor da canção revolucionária Yallah, Irhal ya Bashar (Vamos lá Bashar, está na hora de ir) era natural de Hama. Consta que ele foi encontrado com a garganta cortada apenas poucos dias após a entrada das Forças Armadas. Agora diz-se ter aparecido na internet uma foto sua, em algum lugar da Europa. Dahoud encara a notícia com ceticismo. Pró e contra Assad Não é a primeira vez que o Exército sírio promove um banho de sangue em Hama. Em fevereiro de 1982, tropas do governo investiram contra membros da sunita Irmandade Muçulmana que haviam instalado um centro de resistência na metrópole. Calcula-se que 30 mil pessoas foram mortas e ocorreram grandes devastações, sobretudo na zona histórica. Esse massacre valeu ao então presidente Hafez al-Assad, pai de Bashar, o cognome "Carniceiro de Hama". Como lembra Dahoud, na época os cristãos se sentiam ameaçados pelos fundamentalistas islâmicos e viam em Hafez um protetor. Em relação ao filho Bashar, contudo, as opiniões se dividem: os que ainda estão na Síria estão a favor do presidente, "os outros fugiram para fora do país". Quem vive em Hama, Damasco – e em breve certamente também em Aleppo – é a favor de Assad, conclui o jovem cristão. Ele próprio prefere não tomar partido. "Só quero viver em paz", diz, acabrunhado, pois sabe que nos próximos tempos esse seu desejo não se cumprirá.

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