Turquia bane Natal em escola alemã e irrita Berlim

Colégio em Istambul financiado por dinheiro público alemão é proibido de realizar atividades natalinas com alunos. Governo Merkel chama de decisão de lamentável, e políticos falam em ataque à liberdade religiosa.Causou irritação no governo em Berlim a decisão das autoridades turcas, tornada pública neste domingo (18/12), de proibir celebrações de Natal numa tradicional escola alemã em Istambul. O caso, afirma a imprensa alemã, tem potencial para azedar ainda mais as relações bilaterais. A "Istanbul Lisesi", escola pública de ensino médio, existe há mais de um século. Nela, lecionam 35 professores alemães, pagos, segundo a revista Der Spiegel, com dinheiro do contribuinte alemão. O colégio é considerado um dos melhores do país, e recebe milhões de euros por ano da Alemanha. "Nós não entendemos a surpreendente decisão da diretoria da Istanbul Lisesi", afirmou neste domingo o Ministério das Relações Exteriores alemão. "É lamentável que a boa tradição pré-Natal de troca intercultural em uma escola de longa tradição turco-alemã tenha sido abandonada neste ano." O deputado Franz Josef Jung, encarregado para assuntos de religião da União Democrata Cristã (CDU) no Parlamento alemão, descreveu a decisão como "totalmente inaceitável". Ele cobrou uma reação das autoridades alemãs. "Se a República Federal Alemanha financia os professores nessa escola, ela também tem o direito de determinar o conteúdo das aulas", afirmou o correligionário da chanceler federal Angela Merkel. "O governo alemão precisa insistir nisso em Ancara." "Destruindo pontes com a Europa" Andreas Scheuer, secretário-geral da União Social Cristã (CSU), partido bávaro membro da coalizão de governo, tratou o caso como um atentado à liberdade religiosa. "É mais uma prova de que a Turquia de Erdogan quer destruir todas as pontes para a Europa", disse à imprensa alemã. Embora reconhecida por Berlim como uma escola alemã, a Istanbul Lisesi é tradicionalmente frequentada apenas por alunos turcos. Ela é gratuita e aberta também a estudantes de famílias pobres. O critério de seleção dos alunos é desempenho escolar. Ao fim do curso, os alunos têm a oportunidade de fazer o vestibular alemão e estudar na Alemanha. Metade dos professores vem da Alemanha, e a maioria das matérias é ensinada em língua alemã. "De acordo com uma decisão da diretoria da escola, não se poderá mais lecionar, informar ou cantar sobre os costumes de Natal e a festa cristã durante as aulas", diz um e-mail enviado na terça-feira pela chefia do departamento alemão da escola ao corpo docente. Oposição cobra governo Porta-voz do Partido Verde no Parlamento para assuntos de Educação, Özcan Mutlu, afirmou estar "simplesmente chocado" com o caso. "Tem que haver consequências", disse o deputado alemão, que nasceu na Turquia. Segundo ele, se as autoridades turcas não voltarem atrás, o financiamento alemão à escola deveria ser revisto. O deputada do Partido A Esquerda Sevim Dagdelen, que tem ascendência truca, argumentou em tom ainda mais alto: para ela, o governo alemão não pode financiar uma escola se "na ditadura islâmica" de Erdogan "até a menção ao Natal é proibida". A Turquia de Erdogan é um aliado crucial para o governo lidar com a crise migratória na Europa, já que aceitou receber de volta imigrantes que partem de seu território rumo à Grécia. O acordo fez a quantidade de refugiados em território europeu despencar em 2016 frente ao ano anterior. Desde a tentativa frustrada de golpe contra Erdogan, em 15 de julho, as relações entre Alemanha e Turquia vêm se deteriorando. Em diversas ocasiões, Berlim manifestou preocupação com a repressão pós-golpe, que resultou na prisão de cerca de 37 mil pessoas e na demissão ou suspensão de mais de 100 mil funcionários do governo. RPR/dpa/ots

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