Pé na praia: Aventura em Foz do Iguaçu

O colunista acompanha um agente da Receita Federal na caça a contrabandistas e pode conferir de perto os efeitos do protecionismo econômico bizantino praticado pelo governo brasileiro. Confira na coluna desta semana.Com Paulo Kawashita, sempre tem aventuras. Quando nos encontramos, há alguns dias, ele carregava um revólver brilhante no cinturão, pronto para disparar. Ofereceu ao fotógrafo e ao repórter da Alemanha coletes à prova de balas e provocou seus colegas: "Hoje, não queremos correr tanto risco! Vamos caçar juntos – mas sem troca de tiros e outras provocações!" Considerei isso um gesto amigável. A equipe de reportagem do jornal semanal alemão Die Zeit desejava continuar viva. Kawashita é um agente da Receita Federal e persegue contrabandistas em Foz do Iguaçu. Em carros policiais pesados, rodamos por bairros nobres, áreas de pobreza e lamaçais às margens do Rio Paraná. "Temos que correr para surpreender os contrabandistas", disse o motorista, "e, ao mesmo tempo, pensar de forma tática: onde eles não iriam nunca supor que estivéssemos?". Achamos um ponto de apoio na margem, acabado de ser abandonado pelos contrabandistas: um abrigo de madeira, com folhas e uma fogueira. "Os contrabandistas ficaram sentados aqui por toda a noite e cozinharam feijão", comentou Kawashita. Subimos, taciturnos, pelas escadarias das favelas, com as armas de gatilho puxado. Os moradores nos olhavam de forma hostil. Nenhum "bom dia" ou "tudo bem?", nem de favelado nem de policial, e Kawashita sussurrou: "Aqui, à noite, voa bala para todo lado!". Aparecemos em estacionamentos sinistros para ver se mercadorias estavam sendo contrabandeadas. Batemos em paredes de madeira para ter certeza de que não eram ocas, e iluminamos com a lanterna alguns buracos suspeitos. Prendemos um motorista de uma minivan. Primeiro, ele ficou em estado de choque e depois chorou: "Sou um pai de família". Haviam oferecido 200 reais para ele fazer o contrabando. Neste dia, pouco antes do Natal, o homem perdeu tudo, até a sua van, na qual um adesivo dizia: "Deus é fiel". O carro foi confiscado pela polícia. Nunca mais vai ser devolvido. Tudo isso não foi uma loucura? O repórter só ficou seguindo o Kawashita, cheio de adrenalina e equipado como a S.W.A.T. da série de televisão dos anos 80. Não se tratava nem de armas, drogas ou tráfico de pessoas – mas de cigarros, álcool, aparelhos de blueray, óculos escuros, bonecas Barbie, tênis, celulares e pneus de carros. Todo mundo por aqui sabe que, no triângulo entre o Brasil, Paraguai e Argentina, prolifera o contrabando de tais mercadorias – e que pessoas como Kawashita travam uma batalha heroica, mas totalmente sem perspectiva de sucesso. Kawashita nunca iria ao outro lado do Rio Paraná. "Eu corro risco de morrer", diz. Lá fica Ciudad del Este, um paraíso das compras. Pagando mini-impostos e bons preços, o comprador tem a opção de incluir o contrabando como uma taxa de serviço: entregamos amanhã em seu hotel a nova câmera ou o sound system – no Brasil, sem alfândega, com nossos cumprimentos e garantia completa! Todo dia uma enxurrada de mercadorias atravessa a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em carros, barcos e pequenos aviões. Dez agentes brasileiros não fazem a menor diferença lá. Muito mais do que as batidas policiais de Kawashita, no estilo filme de aventura, a mim interessou a loucura econômica disso tudo. O Paraguai, com um governo fortemente neoliberal, tem poucas regras e impostos. Os comerciantes de lá se aproveitam, naturalmente, do fato de dois dos países mais protecionistas do mundo serem seus vizinhos. O governo do Brasil desenvolveu nos últimos anos um sistema bizantino, no qual até mesmo a importação de pneus de carro é proibida, e onde os novos modelos de celulares custam o dobro do preço nos EUA. Economistas brasileiros me explicaram que, basicamente, uma indústria mal-acostumada só sobrevive graças a regulações e não teria a menor chance no mercado aberto. Também fiquei sabendo que Kawashita poderá empreender perseguições e caçadas malucas por muitos anos ainda – sem que praticamente nada mude. "Também no lado brasileiro há forças de grande influência, que impedem os contrabandistas de serem pegos", confidenciou um insider do lado paraguaio – um dos maiores comerciantes de lá, que controla uma grande parte do comércio de Ciudad del Este. "Já viu quem trabalha aqui como vendedor nas lojas? Muitos brasileiros! Comutam para o trabalho todos os dias até aqui. Do outro lado, em Foz do Iguaçu, quase não há trabalho para ninguém. Os políticos brasileiros estariam loucos se fechassem a fronteira e destruíssem toda a oferta de emprego em nossas lojas!" Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão die ZEIT na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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