"Der Spiegel" faz 70 anos em meio a desafios

Semanário alemão enfrenta a concorrência da internet e vê tiragem cair 20% em dez anos, mas histórico de defesa da democracia e credibilidade inabalada mantêm a publicação como uma das mais respeitadas da Europa.Ao completar 70 anos nesta quarta-feira (04/12), o semanário alemão de maior prestígio encara os novos tempos da internet e das redes sociais. Com tiragem de quase 800 mil exemplares, a Spiegel continua entre as maiores revistas não só da Alemanha, como também da Europa. Mas, recentemente, o periódico vem enfrentado uma significativa queda nas vendas. Nos últimos dez anos, o número de exemplares vendidos caiu cerca de 20%, e a receita da editora Spiegel Verlag encolheu de 322 milhões para 284 milhões de euros. A primeira edição da revista foi vendida em 1947 em Hannover. A publicação logo se tornou a principal instância crítica da Alemanha do pós-Guerra e uma referência do jornalismo europeu. Na época do lançamento, seu editor-chefe, Rudolf Augstein, tinha apenas 23 anos. Augstein foi redator-chefe da revista durante décadas e editor até a morte. Desde o início, impôs à publicação um rumo claro ("somos um órgão liberal de esquerda"), tendo sido um crítico feroz da política do chanceler Konrad Adenauer, que ele caracterizava de "política das chances perdidas". "Na era Adenauer, nós éramos o canhão de assalto da democracia", disse ele, certa vez. Nas décadas seguintes, apoiou a política do chanceler federal Willy Brandt, de aproximação com o Leste Europeu, e foi um defensor da reunificação da Alemanha. Sua única incursão pela política – Augstein elegeu-se deputado federal em 1972 pelo Partido Liberal – durou apenas três meses. Morreu em 7 de novembro de 2002 como o jornalista mais influente da história da República Federal da Alemanha. Caso Spiegel O reconhecimento não veio à toa. Além de inúmeras polêmicas, Augstein foi o protagonista de um dos momentos mais marcantes da história da imprensa alemã, conhecido como o Caso Spiegel. O episódio, ocorrido em outubro de 1962, marcou para sempre a relação entre políticos, Justiça e jornalistas na Alemanha. Em 10 de outubro de 1962, a Spiegel publicou uma matéria de capa questionando o conceito de defesa da Bundeswehr. Analisando os resultados de uma manobra conjunta de membros da Otan, o jornalista Conrad Ahlers concluiu que as Forças Armadas da Alemanha tinham condições limitadas de defesa e, em caso de ataque, necessitariam obrigatoriamente de mísseis atômicos dos parceiros para se defender. Políticos influentes consideraram o artigo uma traição à pátria – principalmente o então chanceler federal, Konrad Adenauer, e o ministro da Defesa, Franz Josef Strauss. Uma ordem de prisão contra o autor da matéria e Augstein foi emitida. Na noite de 26 de outubro, a polícia ocupou a redação da revista em Hamburgo, que permaneceu fechada durante semanas. Na mesma noite, Cohlers foi preso na Espanha pelo regime do ditador Francisco Franco, a pedido de Strauss. Dois dias depois, Augstein se apresentou à polícia. Ele passaria mais de cem dias em prisão preventiva. A população não ficou indiferente ao que estava acontecendo e protestos em favor da liberdade de imprensa e contra a maneira de agir do Estado começaram a surgir. Até mesmo políticos da coalizão de governo demonstraram contrariedade. Ao final do caso, Strauss foi obrigado a renunciar porque ficou claro que ele teve um papel fundamental na represália à revista. O caso acabou com as pretensões do jovem político da Baviera à chancelaria federal. Além disso, a Corte Federal de Justiça decidiu que não havia provas para a acusação de que a revista teria revelado segredos de Estado. Augstein foi libertado da prisão após 103 dias e depois de um intenso debate sobre liberdade de imprensa na sociedade alemã. O Caso Spiegel representou a primeira prova de fogo para um Estado que acabara de se constituir, apenas 13 anos antes. Também nas décadas seguintes, a Spiegel prosseguiu com seu jornalismo investigativo, revelando escândalos na política e na sociedade. Futuro difícil Mas, mesmo com toda a glória do passado, o futuro não promete ser fácil para a revista. O diretor-executivo da Spiegel, Thomas Hass, aprovou, juntamente com os funcionários do periódico – detentores de 50,5% de participação acionária –, um plano prevendo redução de custos de 15 milhões de euros a partir de 2018 e eliminação de cerca de 150 dos mais de 1.100 postos de trabalho. As contenções ocorrem apesar de o veículo ter reconhecido a tempo as mudanças no panorama midiático. O portal de notícias Spiegel Online, criado em 1994, tem, segundo a editora, mensalmente 18,7 milhões de leitores e está entre os sites de notícias mais lidos da Alemanha. Entretanto, a oferta online continua sendo, em grande parte, gratuita, e a editora da Spiegel cogita novas soluções para conteúdos pagos. A crise provocada pela era da internet tem sido acirrada nos últimos anos por frequentes disputas internas entre chefes e funcionários. No começo de dezembro, o editor-chefe do Spiegel Online foi demitido, apesar de uma carta de protesto de funcionários. Problemas para ocupar os cargos de chefia se tornaram constantes. O atual editor-chefe da Spiegel, Klaus Brinkbäumer, está no cargo há apenas dois anos, depois de substituir Wolfgang Büchner, que, por sua vez, esteve à frente da revista por apenas 15 conturbados meses. MD/dpa/dw/epd

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