Pé na praia: Os índios pirahãs e os confrontos na mata

Colunista escreve sobre seu encontro com "o povo mais feliz do mundo" e o crime bárbaro do qual os indígenas estão sendo acusados no sul do Amazonas, uma região que se tornou violenta com o avanço da colonização.O jornal local A crítica de Humaitá, da região sul do Amazonas, vem publicando notícias a respeito de um crime. "Índios pirarrãs podem ter assassinado mulher de um comerciante no Rio Marmelos", diz a manchete da publicação na internet. As fotos ao lado do texto mostram oficiais de polícia fortemente armados na floresta, mas elas foram tiradas em outros anos, em outras ocasiões. A Crítica tem um arquivo amplo de fotos de batidas policiais, cadáveres recém-descobertos, armas de crime cobertas de sangue e sobreviventes chorando. Algumas de suas notícias trazem o aviso: "Cuidado, imagens perturbadoras!". O sul do Amazonas é uma região violenta, o que tem a ver com o avanço da colonização, que causa confrontos com os indígenas e sobretudo entre os próprios colonos. A história atual é mais ou menos assim: moradores das margens do Rio Marmelos prestaram depoimentos para Chaguinha, o editor de A Crítica, contando que membros do povo pirahã provavelmente teriam sequestrado ou até mesmo assassinado uma mulher. Os pirarrãs, ou pirahãs, como prefiro denominá-los, teriam assaltado a mercearia flutuante de Dona Alda, de 41 anos, na quinta-feira passada. Eles talvez quisessem comprar açúcar ou cereais, supuseram esses moradores, ou agiram assim, mas não tinham dinheiro. Após isso, a dona da mercearia desapareceu. Há supostos vestígios de luta na margem do rio. "Garimpeiros e mergulhadores da região" procuraram o corpo, mas nada foi encontrado. A negociante desaparecida deixa um cônjuge em idade avançada, que há décadas abriu a mercearia flutuante, e filhos pequenos. Aparentemente, o confronto aconteceu dentro ou na margem da reserva indígena – onde vendedores ambulantes volta e meia são expulsos pelo governo, mas acabam por retornar. O artigo foi escrito com muitos "podem ter". Tem "mulher supostamente agredida". A Crítica segue a regra do jornalismo de que não se pode afirmar o que não se tem certeza. Com a manchete sensacionalista, e no clima tenso na região, esse esforço só obteve um sucesso parcial. Quando contatei Chaguinha, o editor, ele reclamou sobre muitas dificuldades com essa reportagem: só teve os depoimentos do que as pessoas ouviram falar. Impossível pesquisar no local. Só na terça-feira desta semana, uma equipe de policiais e soldados e de funcionários da Funai foi para a reserva, ainda sem resultado. Daí se conclui: é necessário muito cuidado com esse tipo de notícia. Encontrei os pirahãs há duas semanas. Eu viajava pela rodovia Transamazônica, e parte dos 450 membros remanescentes de seu povo estava acampado na sombras das árvores no Rio Maici. Pareciam subnutridos; conta-se, na região, que o fornecimento de alimentos feito pelas autoridades havia sido suspenso há seis meses. Por outro lado, nunca entendi bem por que os pirahãs têm que ser assistidos com alimentos. São um povo antigo, que até hoje se manteve muito bem da pesca e caça. Fiquei sabendo da existência dos pirahãs antes de encontrá-los pela primeira vez através de um best-seller: o autor norte-americano Daniel Everett escreveu, em 2008, sobre "o povo mais feliz do mundo", e esse livro fez sucesso também na Alemanha. Everett viveu por três décadas como missionário entre os pirahãs e ficou fascinado com sua pureza na mata: com sua percepção do mundo pouco convencional, na qual não existem números nem indicativos de passado, quase nenhum conceito abstrato e um diálogo constante com seres espirituais. Everett pesquisou a linguagem dos pirahãs, que pode ser cantada ou falada, e construiu uma teoria completa a esse respeito, que foi discutida em universidades. Somente seus esforços de missionário foram fracassados. Quando Everett deixou os pirahãs, há alguns anos, estava convencido que eles também poderiam ser felizes sem o cristianismo. Como correspondente para o jornal semanal Die Zeit, vi os pirahãs, nesse meio tempo, três vezes – todas elas brevemente, por acaso, e não fiz nenhuma pesquisa aprofundada. Não tenho muita certeza de que, hoje em dia, eles ainda sejam o povo mais feliz do mundo. Quando eu os encontrei, eles me pareceram abandonados. Pessoas das redondezas me contaram que pescadores clandestinos invadem a área deles e roubam seus peixes com redes. Caçadores atiram em seus animais para vendê-los para os acampamentos de madeireiros. Madeireiros invadem suas terras, garimpeiros usam os chamados barcos "draga" para revolver a lama dos rios, filtrar partículas de ouro e devolver a água contaminada por mercúrio. A cultura dos pirahãs não somente é diferente da dos garimpeiros, madeireiros, fazendeiros e negociantes que invadem sua reserva como também se diferencia da cultura de outros povos indígenas. O cacique de um povo vizinho estava rindo recentemente: "Os pirahãs não conseguem nem falar português, como é que alguém consegue entender o que dizem? Que loucos! À noite muitas vezes eles não dormem nem dentro de casa nem em redes. Eles dormem agarradinhos uns nos outros, nas praias do rio, ou protegidos por grandes raízes sob as árvores." Os pirahãs, disse, teriam um gosto terrível. Eles comeriam até mesmo carne de sucuri! Desde a publicação em A Crítica, fala-se muito sobre os pirahãs nas redes sociais da região. "Eles se dizem gente, mas são um bando de animais", escreveu uma mulher que se identificou como Lia. "Esses índios acham que podem fazer o que quiserem por aqui!", escreveu um outro comentarista. Todos estavam de acordo num ponto: finalmente deveria haver "justiça" na mata. Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão die ZEIT na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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