"Cinema sobre o Holocausto trilha sempre velhos caminhos"

Jochen Kürten (av)

Chris Kraus fez o que poucos cineastas alemães ousaram: tratar do extermínio dos judeus com elementos de comédia. Em entrevista à DW, ele fala da presença do humor em seu filme e da relação da Alemanha com o passado.Die Blumen von Gestern (As flores de ontem) entra para o vasto rol dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial e o extermínio dos judeus na Europa, porém numa categoria relativamente rara: a das tragicomédias. E assim, praticamente quebra um tabu tácito. O pesquisador do Holocausto Totila Blumen (Lars Eidinger) e a jovem estagiária francesa Zazie (Adèle Haenel) têm que preparar juntos um congresso sobre Auschwitz. Além das condições externas difíceis, de início reina antipatia mútua entre os dois. No entanto, pouco a pouco o passado comum os aproxima. Após ser aclamado pelo público no festival de Hof, Alemanha, e duplamente premiado no de Tóquio, Die Blumen von Gestern chega às salas de exibição alemãs. A DW entrevistou o diretor e roteirista Chris Kraus, de 53 anos, sobre esse "filme sobre a dor que não recorre ao páthos". DW: Embora a Alemanha e o Japão tenham pontos em comum em sua história, os japoneses não lidam de forma tão aberta com o próprio passado. Como foram as reações a Die Blumen von Gestern em Tóquio? Chris Kraus: Ficamos felizes pelo simples fato de o filme ser apresentado lá, claro. Tóquio está entre os festivais classe A. Mas, de fato, a pessoa pensa: o que um filme sobre o Holocausto tem a ver com o Japão? Muito, naturalmente, mas o quanto, eu só compreendi estando lá. Os jornalistas e espectadores me perguntaram por que eu fiz o filme, e por que desse modo. A história da Alemanha e do Japão têm muito a ver uma com a outra, justamente nessa época do fascismo. Afinal, nós formamos um eixo. Quase toda conversa com os japoneses começava com a frase: "Vocês, alemães, estão fazendo um grande trabalho no processamento da própria história." Foi um grande hype no Japão, nós ganhamos o prêmio do público, o primeiro prêmio do festival, e logo conseguimos uma distribuidora. Isso tem, sim, a ver com o desejo deles de agora também fazer alguma forma de análise do que aconteceu. Eles já estão sentindo como a bolha de pus da cultura cresce, e em algum lugar deve estar a agulha que vai fazê-la estourar. Você fez um filme sobre a forma de lidar com o Holocausto que também traz aspectos humorísticos. Isso é pouco usual. O que o levou a essa decisão? Na Alemanha se revisita muito o Holocausto. Que elemento falta aí? Um modelo para esse projeto sempre foi o livro do historiador e sociólogo Harald Welzer Opa war kein Nazi (Vovô não era nazista). Eu acho que ele é realmente uma cabeça muito inteligente e original. Welzer propõe a tese – e também fundamenta – de que na Alemanha há um abismo em relação ao assunto: de um lado, a cultura ideológica oficial, que transcorre de forma muito esquemática e com a qual, na verdade, qualquer um pode se identificar, através da exoneração pessoal de culpa. E do outro lado está o envolvimento pessoal de cada indivíduo com os atos dos ancestrais, dos ascendentes. Isso me deu um insight. Como assim? Ao mesmo tempo em que lia o livro, eu me confrontei com a minha história familiar. Pesquisando sobre meu avô e os irmãos dele – a família Kraus conta cerca de 100 pessoas – descobri os confrontos, brigas, altercações, mas também discussões frutíferas que houve. Foi tremendo. Dentro da família já era consenso, uma forma de confrontação que depois virou opinião e posicionamento pré-estabelecidos. Com o filme eu quis, é claro, ampliar um pouco dessa comunicação que havia na minha família. Então escolhi o uma forma quase humorística como meio, pois também me deparei com ele ao estudar a minha família. Durante anos, pesquisei nos arquivos na Alemanha, Letônia e Polônia. Entre os ancestrais, independente de tendências políticas, reinava um tom muito relaxado. Os alemães eram, de certa forma, engessados, eu também. Os judeus, nem um pouco. Achei isso interessante e fascinante. Aí ouvi uma história de amor real de um judeu e uma alemã, e esse foi o ponto de partida para a história. Na história do cinema, há outras obras que abordam os temas nacional-socialismo, Segunda Guerra Mundial e Holocausto com meios humorísticos. Por exemplo: O grande ditador, de Charles Chaplin, Ser ou não ser, de Ernst Lubitsch, mais recentemente A vida é bela, de Roberto Benigni. Eles foram referência para você? A gente tem um monte de abordagens e correntes que confluem, aí as sinapses estouram e então se faz alguma coisa. De fato, eu admirei muito Roberto Benigni e nunca considerei esse filme uma simples comédia: tinha dor demais nele, embora sendo narrado humoristicamente, do início ao fim. O que o tornou tão interessante é ele nunca ter perdido a dor, através da criança, do amor da mulher pelo personagem. Eu sempre me perguntei: por que um italiano está contando isso? Claro, eles também contribuíram para o fascismo. Mas por que não somos nós que estamos contando, por que isso não é possível? Por que não se pode simplesmente dizer: agora eu vou tentar uma coisa nova? São rodados muitos filmes sobre o Holocausto, mas na verdade eles sempre percorrem caminhos já trilhados, O que quer dizer com isso? Uma coisa, por exemplo: eu queria mostrar a personagem tão ambivalente da sobrevivente do Holocausto (representada por Sigrid Marquardt) de uma forma que não fosse muito simpática. Isso sempre me irritou: por que não será possível, numa narrativa cinematográfica, mostrar como vítimas gente que não é simpática? Afinal, não é característica de um crime só as pessoas simpáticas serem assassinadas. A questão não é essa, de jeito nenhum, isso desvirtua totalmente a questão. Por que na Alemanha sempre se aborda o tema Holocausto de uma maneira semelhante? É devido à proximidade excessiva, a um sentimento de culpa? Não tenho resposta para isso. Este filme foi criado já alguns anos atrás como livro, na época ainda não havia, por exemplo, esse amplo movimento popular de direita que existe hoje em dia. Mas já estava esboçado que algo assim podia acontecer. Por um lado, por a temática ser explorada até a morte, mas, por outro lado, por ela não ser compreendida, em absoluto, muito menos superada. Acho que isso é bem visível, senão esses amplos movimentos populistas de direita não teriam como funcionar, se as pessoas refletissem em que solo eles brotaram. O perigo que uma coisa assim se repita certamente continua. Como é o seu caso pessoal? Minha socialização é diferente. Quando eu era jovem, estava totalmente descartado que uma coisa assim voltasse a acontecer. Agora, fico abalado diante da possibilidade. Mas também noto, enfim, que tem a ver com o fato de que não se penetrou até o fim naquilo que aconteceu. Isso só é possível quando a pessoa se autoexamina muito profundamente, em vez de sempre dizer: "Os nazistas eram gente ruim, completamente diferentes de nós. Eles vieram do universo, não têm nada a ver conosco!" Isso está errado: eles têm a ver conosco, e algo assim também pode nos acontecer. É sempre um choque quando você vive isso na própria família. É claro que eu me pergunto o tempo todo como teria agido na situação. Porque, afinal, eu tenho precondições semelhantes, até geneticamente, através do meu avô. Então a pessoa se confronta com o fato de modo totalmente diferente, e se pergunta: como eu teria agido? E aí, automaticamente vem uma grande humildade, quando você se ocupa do tema. Não tenho a menor ideia do que teria acontecido.

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