"China tem janela de oportunidade na América Latina"

Fernando Caulyt

Para analista Oliver Stuenkel, desinteresse de Trump pela região vai fazer com que cresça a influência de Pequim. Ele alerta, porém, que aproximação será discreta e que Brasil precisa estar preparado.Donald Trump tomará posse como presidente dos EUA na próxima sexta-feira (20/01) e, como prometido durante a campanha eleitoral, não deverá dar muita atenção – com exceção do México – aos países da América Latina. Nessa dinâmica, Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que é pouco provável que haja uma política específica de Trump para os países latino-americanos e, como consequência, haverá um novo aumento da influência chinesa na região. "A China se depara, agora, com uma janela de oportunidade, porque há um consenso, pela primeira vez há bastante tempo dos países latino-americanos, sobretudo Brasil e Argentina, de que é preciso se abrir mais economicamente", diz Stuenkel. Deutsche Welle: Com Trump, como deverá ficar as relações entre Washington e os países latino-americanos? Oliver Stuenkel: O impacto para a região será mais indireto do que direto, porque, no âmbito externo, as grandes questões hoje para os EUA têm a ver com Rússia, China e México. Há um tempo os EUA não têm um projeto claro em relação à América Latina no que vai além do combate do tráfico de drogas e a questão da migração. Neste sentido, é pouco provável que haja uma política específica de Trump, agora, em relação à região. O impacto indireto será grande, porque estamos diante de muita incerteza global. E uma onda de protecionismo e aumento da insegurança geopolítica dificultam uma maior inserção da América Latina na economia mundial, que é um dos pilares da estratégia de recuperação econômica. Essa falta de projeto claro dos EUA para a região fará com que a China se aproxime ainda mais dos países latino-americanos? Sim, sem dúvida. A China se depara, agora, com uma janela de oportunidade, porque há um consenso, pela primeira vez há bastante tempo dos países latino-americanos, sobretudo Brasil e Argentina, de que é preciso se abrir mais economicamente. E exatamente neste momento em que os EUA querem se fechar mais. E justamente o país que vai atender essa demanda da América Latina será a China. Acredito que vamos ver uma situação um pouco parecida com a do governo George W. Bush [2001-2009], que não deu nenhuma atenção à América Latina e a presença chinesa na região disparou. É bastante provável que vamos ver isso novamente: um novo aumento da influência chinesa na região. Como deverá se dar esse aumento da influência da China? Como a América Latina é vista um pouco como backyard [quintal] dos EUA, existe uma relutância por parte da China de que sua influência se manifeste de maneira muito clara. Porque, do ponto de vista de Pequim, isso poderia ser uma provocação contra os EUA. E os chineses, neste momento, não têm por que provocar os americanos. No fundo, as próprias elites latino-americanas ainda não perceberam que a China, em várias áreas, é muito mais influente do que os EUA. Tanto que a esquerda é obcecada pela possível influência dos EUA e não se importa muito com a chinesa, que é um tema também cada vez mais importante. Essa influência se dará também na parte política? Teremos, cada vez mais, a influência da China na parte política, mas os chineses não vão querer influenciar uma eleição de maneira direta. Mas um peso maior da China na região torna uma atuação cada vez mais difícil desses países em relação a Taiwan ou ao dalai lama, porque a reação chinesa teria um custo enorme. É uma estratégia sutil que, aos olhos dos cidadãos, é menos visível, porque ela não vem junto com a influência cultural, como foi o caso dos EUA. É mais difícil detectar essa influência, mas ela está crescendo. E, em muito breve, a China será o país mais influente na região. A influência chinesa na América Latina não será tão visível como na África, onde a China tem uma imagem de potência pós-colonial? A China cometeu muitos erros e aprendeu bastante na África. Os chineses pensaram muito no ponto de vista econômico, mas não no político. O país – não só atualmente na África, mas também na América Latina – tem uma maior preocupação de assegurar que haja vantagens para as sociedades locais com esses investimentos. A China fará de tudo para evitar a percepção de que a América Latina passará a ser independente dos EUA e, agora, dependente de Pequim. Acredito que o modelo chinês seja talvez o mais atraente, porque Pequim não faz a menor questão de influenciar abertamente a política doméstica dos países latino-americanos. Como deverá ser essa reorientação dos países latino-americanos em relação a Pequim? Certamente é preciso uma reorientação estratégica, porque o padrão tem sido se orientar nos EUA e de enxergar o mundo e os debates internacionais pautados por Washington. É mais fácil olhar para o norte do que para China, que é uma sociedade menos transparente e muito mais diferente. E isso requer não só uma adaptação da política externa, mas uma orientação da sociedade como um todo. E com essas adaptações surgem muitas oportunidades. O Chile foi um país que fez isso muito bem, já o Brasil, entre os grandes países, é o menos preparado para lidar com a China, porque carece de um grupo de especialistas para trabalhar com esse tema. É um momento fundamental para também aproveitar essa nova dinâmica atual que é uma competição crescente entre os dois países. É possível que o Brasil, por exemplo, possa ganhar dos dois lados? É isso que precisa acontecer. O Brasil é um ator importante para Washington e Pequim, sendo que a China enxerga o país como um parceiro de longo prazo, principalmente por ser um importante fornecedor de alimentos e matérias-primas. Existe uma estratégia de décadas sobre como lidar com o Brasil enquanto a Europa, acima de tudo, é vista como mercado consumidor de produtos chineses. E, para os EUA, o Brasil é importante por ser uma das principais democracias do mundo e um grande parceiro na América Latina. Com isso, o Brasil tem uma chance histórica e está, sem dúvida, muito bem posicionado para ganhar os dois lados neste cenário de competição entre Washington e Pequim.

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