Zeitgeist: A divisão do Chipre

Alexandre Schossler

Em 1974, a invasão e ocupação do norte do Chipre pela Turquia dividiu a ilha em duas partes, uma grega, no sul, e uma turca, no norte. Entenda os antecedentes de um dos conflitos mais duradouros da atualidade.Em 20 de julho de 1974, tropas turcas desembarcaram no Chipre e ocuparam o norte do território. Desde então, a terceira maior ilha do Mar Mediterrâneo é dividida em duas partes: uma grega, no sul, e uma turca, no norte, com a linha divisória atravessando a capital, Nicósia. As origens de um dos conflitos mais duradouros da atualidade estão no final do século 19, mais precisamente em 1878, quando o Império Otomano, que ocupava o Chipre desde 1571, cedeu a ilha, para ocupação e administração, ao Reino Unido, em troca de apoio na Guerra Russo-Turca. O Império Otomano reteve, porém, a soberania sobre a ilha, ainda que essa fosse uma situação de jure, já que, na prática, ela estava integrada ao Império Britânico. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido anexou em definitivo a ilha, uma situação que foi reconhecida pela Turquia, a principal herdeira do Império Otomano, em 1923, no Tratado de Lausanne. Em 1925, o Chipre se tornou uma colônia da coroa e era importante sobretudo pela sua posição militar estratégica. Na ilha, contudo, o domínio britânico logo encontrou oposição, principalmente entre os cipriotas de etnia grega. Entre eles, era grande o apoio à anexação do Chipre pela Grécia, um desejo sintetizado na palavra grega enosis, usada para se referir à unificação dos territórios de maioria populacional grega com o Estado grego. Em 1931, as aspirações dos cipriotas deram origem a um levante, reprimido pelos britânicos. Em 1950, um plebiscito não oficial, organizado pela Igreja Ortodoxa do Chipre e no qual a maioria dos eleitores se manifestou a favor da enosis, foi ignorado pelo Reino Unido. Diante disso, o arcebispo Makarios 3º ameaçou levar a questão cipriota às Nações Unidas. A ameaça fez com a Turquia, que não queria a unificação do Chipre com a Grécia, exigisse o retorno da ilha se a situação se alterasse. O resultado foi uma crescente polarização e o surgimento, na ilha, de organizações clandestinas armadas dos dois lados, que protagonizaram atos de violência e atentados. O lado grego – a partir de 1954 com o apoio da Grécia – era a favor da enosis, enquanto o lado turco, apoiado pela Turquia e pelo Reino Unido, lutava inicialmente pela manutenção da situação existente e, à medida em que o conflito evoluía, pela divisão da ilha em duas partes, uma grega e uma turca. No fim dos anos 1950, o Chipre havia perdido muito de sua importância geoestratégica para os britânicos, que então concordaram com a independência. Em 1960, a República do Chipre foi fundada. Porém, tanto o Reino Unido como a Grécia e a Turquia resguardaram para si direitos de intervenção e mantiveram militares na ilha. O Reino Unido tem até hoje bases militares em Acrotíri e Deceleia. O surgimento do novo país, porém, não resolveu o conflito interno, que se acirrou em 1963, quando o primeiro presidente eleito do Chipre, o arcebispo Makarios 3º, tentou reduzir os direitos da etnia turca. O resultado foi praticamente uma guerra civil, que em 1964 obrigou as Nações Unidas a enviarem uma missão de paz, até hoje estacionada na ilha. Já naquele ano, a Turquia queria invadir o Chipre, mas desistiu por pressão dos Estados Unidos. Em 1967 a Grécia se tornou uma ditadura, o que contribuiu para diminuir o desejo por unificação com o Estado grego entre os cipriotas de etnia grega. Ao contrário, foi a ditadura grega que, em 15 de julho de 1974, tentou anexar a ilha, por meio de um golpe de Estado contra o presidente Makarios 3º. Foi aí que a Turquia interveio, invadindo o norte do Chipre em 20 de julho de 1974. Fracassado, o golpe contra Makarios 3º significou o fim da ditadura militar na Grécia. Já a Turquia expandiu sua ocupação do norte do Chipre, o que levou ao deslocamento de 170 mil cipriotas de etnia grega para o sul. Do mesmo modo, cerca de 50 mil cipriotas de origem turca trocaram o sul pelo norte. Em 15 de novembro de 1983 foi proclamada a República Turca do Chipre do Norte, mas, até hoje, ela foi reconhecida como país apenas pela Turquia. Desde então, diversas tentativas para a reunificação fracassaram. O esforço mais importante ocorreu em 2002, no âmbito do ingresso do Chipre na União Europeia, e foi conduzido pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Porém o plano fracassou ao ser levado a plebiscito, com o sul, de maioria grega, votando contra, e o norte, de maioria turca, votando a favor de uma federação de dois Estados. Mesmo com o fracasso do Plano Annan, o Chipre foi admitido na União Europeia em 2004, por pressão da Grécia. A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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