Opinião: Também é importante lembrar as vítimas do terrorismo

Christoph Strack

Todos sabem o nome do terrorista e o que ele fez antes de lançar um caminhão contra uma feira natalina em Berlim. Das vítimas, ninguém fala. É hora de homenageá-las de forma adequada, opina o jornalista Christoph Strack.O ato assassino de um terrorista islâmico contra uma feira de Natal de Berlim matou 12 pessoas. Em questão de segundos, pessoas que se divertiam com os festejos pré-natalinos foram enviadas para a morte. Nos dias após o ataque, o luto em Berlim foi grande: milhares de velas foram acesas no local do crime. Milhares de pessoas pararam para lembrar os mortos. A cidade parecia diferente, e todos sabiam que aquilo poderia ter acontecido a qualquer um. As vítimas estavam na hora errada no lugar errado. Desde o início do ano, debate-se se os políticos e a sociedade deveriam se solidarizar de forma adequada com o sofrimento das vítimas do terrorismo. Trata-se de um debate importante e necessário. Cada criança na Alemanha conhece o nome do assassino e sabe o que ele fez nos seus últimos dias e semanas. Do destino das vítimas, ninguém fala. Em discurso durante a cerimônia em memória das vítimas nesta quinta-feira (19/01), o presidente do Bundestag (Parlamento alemão), Norbert Lammert, afirmou que faz parte "dos mecanismos de percepção – quase inevitáveis, apesar de difíceis de tolerarr – de tais acontecimentos pela mídia e pela opinião pública que o autor do crime frequentemente receba muito mais atenção do que aqueles que ele arrastou para a morte". Isso é verdade. É assim que nós funcionamos: nós, a mídia, e nós, os usuários dos meios de comunicação. Mas, depois de dizer isso, o próprio Lammert adotou um rumo peculiar: ele dedicou somente uma pequena parte de suas "palavras introdutórias", incomuns pela longa duração, às vítimas e à alegria destas no momento da morte. "De um momento para o outro, planos de vida, desejos e esperanças foram destruídos", afirmou. Em seguida, abordou o terrorismo em Nice, Bagdá, Istambul e Jerusalém, falou sobre a necessidade de uma cooperação política efetiva para a segurança na Europa, sobre um desejo crescente por segurança e refletiu sobre a "estrutura de segurança" na Alemanha. Ele falou ainda sobre os suspeitos de planejar ataques, sobre erros de organização, deficiências estruturais e as "consequências" que devem se tomadas etc etc. Tudo isso não tinha muito que ver com as vítimas e apenas serviu para diluir a homenagem a elas. Os países da Europa Ocidental estão reaprendendo a lidar com a ameaça terrorista. Há rituais e gestos: velas e flores como sinais de compaixão ou, em Berlim, recentemente, a iluminação do Portão de Brandemburgo. Entre as principais opções estão as celebrações públicas e as cerimônias oficiais. Os prós e contras desse tipo de ato governamental foram debatidos: trata-se da maneira como os alemães lidam com o sofrimento, sobre a falta de uma cultura do luto, sobre o respeito à privacidade dos familiares. Sábias opiniões. Nem mesmo 22 horas depois do crime – algumas vítimas nem haviam sido identificadas – quase todo o governo federal, os chefes dos órgãos constitucionais, parlamentares, outros representantes oficiais e centenas de enlutados anônimos reuniram-se na Igreja Memorial do Imperador Guilherme (ou Gedächtniskirche), na Berlim pré-natalina. Foi um momento intenso que propiciou tranquilidade em meio à perplexidade. E manifestou-se o quanto o Estado laico fora atingido. Aquela celebração foi bem-sucedida. Mas ela logo desapareceu entre as imagens da cena do crime, do criminoso e das investigações. Com celebração oficial, aquele serviço memorial aconteceu muito cedo. Já o minuto de silêncio do Parlamento, nesta quinta-feira, chegou tarde. A Alemanha tem que repensar sua maneira de lidar com o sofrimento que é causado pelo terrorismo e precisa cultivar formas e sinais de união. Estas não precisam ser necessariamente uma cerimônia oficial. Elas podem também ser uma cerimônia no Parlamento, mesmo no período de recesso. Podem e até mesmo devem ser um memorial na praça Breitscheidplatz. A sociedade que se entende por livre não pode esquecer daqueles que foram vitimados pelo ódio à vida livre.

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