Europa na defensiva à espera de Trump

Teri Schultz (fc)

Líderes da União Europeia, Otan e organizações não governamentais aguardam apreensivos pelo novo presidente americano. Eurodeputados pedem queixa formal sobre a visão fatalista de Trump a respeito da Europa.A Europa passou o período entre o choque da eleição de Donald Trump e sua ascensão à Casa Branca roendo as unhas. Mas, desde o menosprezo do novo presidente quanto ao futuro da União Europeia, afirmando que o bloco irá se desintegrar, os líderes parecem menos preocupados e mais assertivos. Em uma sessão plenária do Parlamento Europeu, o líder da Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (ALDE), Guy Verhofstadt, criticou as declarações de Trump e exigiu uma posição oficial da União Europeia. "Isso é insano!", diz Verhofstadt, acrescentando que "nós devemos estar muito conscientes de que 20 de janeiro será o ponto de inflexão". Ele apelou também à convocação do embaixador dos EUA para "explicar" as declarações de Trump. O problema é que já não há mais um embaixador dos EUA em Bruxelas. Anthony Gardner teve que deixar o cargo juntamente com seus dois colegas diplomatas na Otan e na UE. Sem rodeios, Trump informou diretamente aos três sobre a retirada deles de seus postos. Pode levar muitos meses até Trump nomear os novos diplomatas que vão assumir os cargos em Bruxelas. Normalmente, um gabinete paralelo teria sido montado durante as eleições, para assegurar uma transição suave no dia da posse. Porém, a campanha de Trump não levou tais questões em consideração, explica um diplomata americano. Gardner é um ávido defensor da União Europeia. Durante seus três anos no cargo, o americano promoveu o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês). Ele afirma que prefere correr todos os riscos do que se inserir na nova linha de abordagem dos EUA. Não se deixar intimidar "Num sistema democrático, é correto e importante ser leal à nova equipe", explicou Gardner em seu último encontro com jornalistas. "Mas é também essencial que as pessoas digam a verdade aos poderosos e não se sintam intimidados em falar sobre o que acreditam." O embaixador nunca foi contatado pelos novos funcionários do governo. Houve apenas uma ligação – se ele precisava de ajuda logística para a mudança. No entanto, ele ouviu de contatos da União Europeia que os funcionários do gabinete de Trump teriam feito algumas ligações a líderes europeus para saber quais países têm maior probabilidade de deixar o bloco. "A União Europeia não está prestes a desmoronar", sublinhou Gardner, apesar de ele próprio ter que deixar o bloco europeu. A partir de 20 de janeiro, ele terá um novo escritório no distrito do governo em Washington. Otan "obsoleta" As autoridades estão igualmente preocupadas na Otan, principalmente depois que Trump, em entrevista, profetizou o fim da União Europeia e tachou a Otan de "obsoleta" e "supérflua". A liderança da Otan descarta o questionamento sobre a importância da aliança. O vice-presidente eleito, Mike Pence, também fez a sua parte para atenuar a retórica de Trump. O presidente do Comitê Militar da Otan, Petr Pavel, salientou em uma reunião dos chefes do Estado-maior nesta semana que "a relevância da Otan não está em questão", e as pessoas são livres para debater como a aliança se adaptará às mudanças nas necessidades de segurança. Com vista à uma reaproximação de Trump com a Rússia, ele disse que se deve esperar para ver se Washington realmente iniciará uma mudança de rumo em relação a Moscou. O general francês na Otan, Denis Mercier, responsável pelo desenvolvimento da aliança, concorda que a organização pode e deve ser renovada em alguns pontos. Mas os anúncios de Trump lhe causam preocupação: se os EUA decidirem não estacionar mais suas tropas na Europa, isso causaria um "choque estratégico" no continente. Europa – referência de valores Ativistas de direitos humanos não estão muito entusiasmados com o futuro. Um grupo de organizações não governamentais – formado por Anistia Internacional, Avaaz, Greenpeace, Confederação Sindical Internacional (ITUC, em inglês), Oxfam e Transparência Internacional – lançou uma declaração conjunta no Fórum Econômico Mundial, em Davos, contra o que chamaram de "novo clima de permissividade para crimes de ódio e discriminação" em todos os países. Julia Hall, da Anistia Internacional, estava em Bruxelas nesta semana para apresentar novas estatísticas sobre como o intenso foco dos governos europeus no contraterrorismo está atropelando os direitos fundamentais. Hall disse que espera que a Europa volte a ser referência em valores democráticos, especialmente face a uma eventual reintrodução da técnica de interrogatório chamada afogamento simulado, como Trump indicou. Ela disse que "claro que não queremos voltar a este tempo".

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