Opinião: Trump é Trump e sempre será Trump

Quem esperava um tom conciliatório pode jogar fora suas ilusões: primeiro discurso deixa claro que magnata não recuou um milímetro de suas posições nacionalistas e isolacionistas, afirma a correspondente Ines Pohl.Donald Trump é Donald Trump é Donald Trump é Donald Trump. E quem esperava que o empresário nova-iorquino fosse mudar seu tom agressivo depois de prestar juramento foi brutalmente decepcionado. O primeiro discurso do 45º presidente dos Estados Unidos não deixa margem a especulações: Trump, na condição de ocupante do cargo político mais importante do mundo, não pensa nem de longe em reduzir seu arsenal verbal. Ao contrário: ele repetiu as frases feitas já usadas durante a campanha eleitoral e prometeu, por meio de uma política econômica e de defesa isolacionista, ajudar os Estados Unidos a recuperar a antiga grandeza. Prometeu – ele, o multimilionário, com o seu governo de multimilionários – transformar o país num lugar mais justo. Ele quer garantir uma melhor educação e principalmente mais empregos acabando com a influência de forças estrangeiras. E, durante o seu mandato, os Estados Unidos deverão se ocupar apenas do bem-estar imediato do próprio país. Que, com isso, ele abra mão do papel dos Estados Unidos como poder garantidor da ordem mundial é algo claramente calculado, e de maneira alguma um problema para um homem que coloca as vantagens para o próprio país acima de tudo. Assim, não se ouviu nada de novo do presidente durante sua cerimônia de posse. E, mesmo assim, a situação tem uma outra dimensão. Mesmo que até o poder do presidente americano seja limitado, no fim das contas é ele que influencia o clima político no país. E isso pôde ser visto no júbilo dos cerca de 500 mil apoiadores de Trump que vieram para Washington de todos os cantos. Trump não recua de suas promessas de campanha. E, com essa mesma convicção, seus adversários marcham para protestar contra essa nova linha política. As longas primárias dos Estados Unidos fazem com que um novo presidente encontre um país ferido e dividido. É sempre assim, mesmo que essa batalha eleitoral tenha alcançado um nível baixo até então desconhecido com a retórica divisória de Trump. Por causa dessa divisão, os primeiros gestos de um novo presidente na Casa Branca, há décadas, sempre foram de reconciliação. Até nesse ponto Trump abriu uma exceção. Ele não acredita no poder da reconciliação, mas no poder do homem durão. Cada palavra e gesto desse primeiro dia no cargo sinaliza que ele quer atacar. Nisso, ele continuará seguindo as regras dos demagogos, que definem o "estrangeiro" como uma ameaça e aproveitam os medos criados para obter mais apoio. Assim, Trump cria muitas ciladas para os americanos liberais e tolerantes, que desejam um país completamente diferente e se veem como parte de um mundo livre, pelo qual é necessário lutar e se empenhar. Mesmo que 54% dos americanos tenham escolhido um outro presidente e que um sistema eleitoral ultrapassado tenha dado a vitória ao candidato que teve 3 milhões de votos a menos: as preocupações e necessidade de muitos dos apoiadores de Trump são reais. E é fatal e arrogante ignorar essa realidade. É uma vergonha que muitas pessoas num dos países mais ricos do mundo vivam irremediavelmente na pobreza, que muitas crianças, desde o nascimento, não tenham nenhuma chance real na vida por terem nascido na família e no sistema educativo errados, que privilegia sobretudo os privilegiados, que muitas pessoas se sintam ignoradas e esquecidas. Há muitos motivos compreensíveis para que os apoiadores de Trump não acreditem mais nas elites políticas. Só nos Estados Unidos algo como Donald Trump pode acontecer. Mas não só nos Estados Unidos a arrogância e a ignorância abrem as portas do poder para os nacionalistas perigosos.

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