Opinião: O Brexit e a democracia britânica

Barbara Wesel

Suprema Corte em Londres decide que saída do Reino Unido da UE precisa de aprovação parlamentar. Para jornalista Barbara Wesel, briga em torno da decisão mostra que princípios democráticos também estão em risco no país.Na verdade, este processo não era necessário. Pois, como pode um governo querer realizar a saída da União Europeia (UE) sem a anuência dos representantes eleitos pelo povo? Isso é antidemocrático e um comportamento que se conhece somente de autocratas do porte do presidente russo, Vladimir Putin, ou do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Com a tentativa de contornar qualquer resistência política ao desligamento da UE, a premiê britânica, Theresa May, não prestou nenhum favor à sua popularidade. A briga em torno da Suprema Corte e de seu veredicto revelou lacunas vergonhosas na compreensão democrática britânica. Isso tem a ver, primeiramente, com o grupo dos favoráveis ao Brexit, para quem qualquer método é justificável quando se trata de aniquilar os opositores políticos. Seu desprezo aos princípios e costumes democráticos mostra que também os conservadores britânicos já se encontram, há muito, a caminho da "trumpinização". Tanto é assim que a ministra da Justiça não se colocou ao lado de seus mais altos juízes, quando a imprensa marrom de direita os xingou de "inimigos do povo". Atualmente, o Brexit assumiu o caráter de uma razão de Estado superior que justifica tudo e qualquer coisa. E está no melhor caminho com vista a prejudicar seriamente não apenas a ligação com a Europa, mas também a própria democracia britânica. Realmente imperdoável e repugnante é o tratamento dado à queixosa Gina Miller por muitos apoiadores do Brexit e seus seguidores. Ela fez um favor ao país ao impor o direito do Parlamento em questões tão importantes. E ela está pagando um preço alto por isso: desde então, Miller e sua família vem sofrendo ameaças e sendo agredidos com uma enxurrada de estrume verbal. Gina Miller não sofre somente ataques políticos por sua iniciativa, mas também sexistas e racistas. Mas onde foi parar um esclarecimento de Theresa May e seus ministros pró-Brexit de que as discussões políticas no Reino Unido devem acontecer de forma cívica e não por meio de ameaças de morte? Nada! No caso de Boris Johnson, David Davis e Liam Fox, os três líderes do referendo sobre a saída do Reino Unido da UE, fica visível que qualquer instrumento é válido para silenciar a oposição. Mas ainda não se sabe como essa saída deverá funcionar. E o benefício para o Reino Unido e para a sua economia ainda é contestado por muitos especialistas. Mas os defensores do Brexit o perseguem com irracionalidade e um fervor quase religioso. Para a UE, o veredicto em Londres não muda nada nos fatos: Bruxelas espera que Theresa May consiga a anuência do parlamentares, para dar início ao processo de desligamento do bloco segundo o Artigo 50 do Tratado de Lisboa. Para o Parlamento em Westminster, chega agora a hora da verdade: os representantes do povo devem salvaguardar os interesses dos cidadãos britânicos no Brexit. Trata-se de direitos trabalhistas, de consumidores e muito mais. Ao mesmo tempo, os parlamentares devem proteger as tradições democráticas do país, que estão em risco desde a votação do Brexit e através de seus propagandistas.

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