O que esperar da reunião entre May e Trump?

Michael Knigge (md)

Receber a premiê britânica encarregada de comandar o Brexit dá pistas sobre a importância que o novo presidente americano atribui ao Reino Unido - e como ele encara a União Europeia.Que um novo presidente americano dê as boas-vindas a uma primeira-ministra britânica como seu primeiro convidado estrangeiro na Casa Branca não é nada fora do comum, dado que ambos os países compartilham uma história comum e tradicionalmente tendem a ver os assuntos mundiais de uma perspectiva semelhante. É por isso que os laços entre EUA e Reino Unido têm sido muitas vezes descritos como uma relação especial – uma classificação que geralmente recebe mais importância em Londres do que em Washington, sobretudo nos últimos anos. No entanto, quando o presidente que está no papel de anfitrião é Donald Trump e a primeira-ministra é Theresa May, o que normalmente seria um evento comum se torna uma história mais interessante. A visita está marcada para esta sexta-feira (26/01). Trump não apenas apoiou publicamente a saída do Reino Unido da UE, o chamado Brexit, mas também referenciou sua própria vitória surpreendente na corrida presidencial dos EUA como uma versão americana do Brexit. May, enquanto isso, ganhou o difícil trabalho de realmente tirar o Reino Unido da UE. O presidente dos EUA e a primeira-ministra britânica estão, assim, de certa forma, ligados pelo que aconteceu no referendo do Reino Unido, em 23 de junho de 2016, e nas eleições presidenciais dos EUA, no dia 8 de novembro. "Acho que ambos têm tanto incentivo para que esta reunião vá bem, mesmo se não houver nada substantivo, que eu espero que a ótica seja boa e pareça uma boa reunião e um relacionamento especial, que é o que eu acho que ambos vão conseguir obter disso", diz o cientista político James Goldgeier, acadêmico especializado em política externa americana da American University. E com Trump ainda em sua primeira semana no cargo, decisões concretas são improváveis. O que se espera, no entanto, é que ambos os líderes declarem sua intenção de negociar um acordo de livre-comércio entre EUA e Reino Unido – o que novamente é do interesse comum deles. Trump tinha prometido que o Reino Unido não teria que esperar no final da fila por um acordo comercial com os EUA, enquanto seu antecessor, Barack Obama, havia alertado contra uma saída da UE. Embora a visita se destine principalmente ao consumo doméstico no Reino Unido e nos EUA, há algo mais nela. "É simbólico, mas também é um pouco mais do que apenas simbólico", frisa Theodore Bromund, especialista em relações anglo-americanas da Heritage Foundation, um think tank conservador sediado em Washington. "Acho que os EUA provavelmente vão romper com a doutrina dos EUA pós-Segunda Guerra Mundial, assumindo uma atitude de 'não se preocupar com Bruxelas'", acrescenta. Receber a primeira-ministra britânica encarregada de tirar o Reino Unido da UE envia um forte sinal da importância que o governo Trump atribui ao Reino Unido – e como encara o bloco europeu, que se opôs fortemente a um Brexit. Uma atitude de laissez-faire em relação a Bruxelas já seria uma mudança significativa, uma vez que o apoio americano a uma Europa forte e unida e a uma integração europeia mais profunda tem sido um pilar tradicional da política externa dos EUA, independentemente de quem ocupa a Casa Branca. "Mas a visita de May não só contém uma mensagem para a UE, mas sinaliza algo ainda mais amplo do que isso", pondera Reiter. "A melhoria dos laços dos Estados Unidos com o Reino Unido está acontecendo no contexto da remodelação de todo um conjunto de países ao redor do mundo", observa. A visita, segundo Reiter, indica que Trump se opõe ao tipo de globalismo que a UE representa para ele e que ele simpatiza com líderes que compartilham sua visão ideológica de mundo. "A verdadeira questão é saber se ele vai além de simplesmente pensar que a UE não é algo que vale a pena apoiar, que é uma coisa, mas se ele vai além disso e começa a apoiar aqueles em outros países que procuram tirar o seu país da União Europeia ou tentam criar mais nacionalismo na Europa", ressalta Goldgeier. "Se ele fizer isso, será muito infeliz para os Estados Unidos e para a Europa." Para Bromund, o ceticismo de Trump em relação à UE "reflete a perda mais ampla da crença americana de que esta velha política americana está funcionando bastante bem". Mesmo o antecessor de Trump, Obama, que se opunha ao Brexit, foi muitas vezes considerado como centrado na Ásia, em vez de orientado para a Europa. O especialista reconhece, entretanto, haver uma diferença radical entre tom e substância nas posições de Obama e Trump em relação à UE. "Considerando a visão de Trump sobre a Europa, será importante para a chanceler alemã [Angela] Merkel, quando ela se encontrar com Donald Trump, ajudá-lo a entender o que é a Europa, quais são seus objetivos e por que a Europa é importante para os Estados Unidos", , observa Goldgeier. .

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