Portas fechadas por Trump podem se abrir para Europa

Jefferson Chase (md)

Países como China e Índia representam alvos atraentes para as exportações europeias, em contraste com o mercado nos EUA, relativamente saturado. "É um gol contra geopolítico do novo governo americano", diz economista.O presidente americano, Donald Trump, pode não querer a Parceria Transpacífico (TPP), mas a Europa estaria bem servida se intensificasse seus acordos econômicos na Ásia. Essa foi a mensagem transmitida pelo vice-chanceler e ministro da Economia da Alemanha, Sigmar Gabriel, em uma entrevista à imprensa alemã, um dia depois que Trump retirou os EUA do acordo. "Se Trump começar uma guerra comercial com a Ásia ou a América do Sul, isso nos abrirá oportunidades", disse Gabriel ao jornal de economia Handelsblatt. "A economia americana muitas vezes não é competitiva, enquanto a economia alemã é." Os outros 11 países da TPP dizem que vão avançar com o acordo, apesar da ausência dos EUA. Gabriel classificou a nova política de Washington como um erro. "O protecionismo de Trump sairá muito caro para os americanos. A economia não funciona sob pressão e ordens de políticos", opinou Gabriel. "Para a Europa, vejo oportunidades se Trump se afastar não apenas da China, mas de toda a Ásia. A Europa deve rapidamente criar uma nova estratégia para a Ásia. Precisamos explorar os espaços que os EUA estão abrindo agora." Gabriel não é nenhum fã de Trump. Mas suas opiniões sobre a potencial utilidade do protecionismo americano refletem um sentimento crescente em todo o espectro político em Berlim. Lacunas abertas Muito do que Gabriel disse sobre o comércio ecoa opiniões defendidas pelos membros da União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal alemã, Angela Merkel, e de sua ramificação bávara, a União Social Cristã (CSU). O líder da bancada parlamentar da CDU-CSU, Michael Fuchs, por exemplo, também vê uma oportunidade para a Europa ocupar as lacunas abertas pelo isolacionismo dos EUA. Isso potencialmente inclui o acordo TPP. "Por que não?", disse Fuchs à DW. "Se os americanos desistiram do TPP, podemos ver como podemos entrar nessa." Ex-presidente da Federação Alemã de Atacado e Comércio Exterior, com décadas de experiência em relações comerciais entre Europa e Ásia, Fuchs diz que o continente oferece à Europa outra opção, caso as relações econômicas com os Estados Unidos esfriem. "Quando você ouve (o presidente chinês) Xi Jinping dizer em Davos que pode imaginar uma cooperação maior com os europeus, esta é uma chance que devemos aproveitar", avalia Fuchs. "Estou relativamente otimista de que negócios podem ser feitos aqui, e devemos fazê-los, porque não sabemos como as coisas vão se desenvolver com Trump." Fuchs ressalta que, com suas populações em expansão, tanto a China como a Índia representam alvos atraentes para as exportações alemãs, em contraste com o mercado americano, relativamente saturado. Um problema, no entanto, é a reciprocidade. Empresas chinesas e europeias não operam em igualdade de condições relativamente à propriedade estrangeira de empresas ou às taxas impostas às importações. E, apesar da incerteza em torno da Casa Branca de Trump, Fuchs não espera um realinhamento sísmico do comércio mundial. As obrigações de acordos comerciais, por exemplo, terão de ser cumpridas. "Os americanos logo notarão que precisam de comércio com a Europa e vice-versa", prevê Fuchs. "Eu não acho que os americanos podem simplesmente abrir mão dos europeus como fornecedores, pelo menos não dos alemães, porque fornecemos uma série de produtos dos quais eles precisam." "Gol contra geopolítico" Ninguém está seguro sobre até que ponto Trump está preparado para arriscar uma guerra comercial em defesa do protecionismo. Mas economistas alemães concordam com os políticos que o primeiro passo do novo presidente nesta área foi um passo em falso. De acordo com o Instituto da Economia Alemã (IW), sediado em Colônia, uma consequência imediata pode ser uma tentativa da China para fechar um acordo com os países do TPP. "Acho que a América está marcando um gol contra geopolítico", diz o analista do IW Jürgen Matthes. "O acordo TPP foi concebido para excluir a China, e os EUA desistiram dele. Coloquemos desta forma: você pode se dar por satisfeito se você não é um economista com uma boa dose de bom senso nos Estados Unidos neste exato momento." Os economistas concordam que a Alemanha e a UE devem procurar intensificar os laços comerciais com a Ásia como uma prevenção à possibilidade de as exportações para os EUA serem restritas. Mas também há riscos envolvidos nessa estratégia. Ninguém quer isolar um importante e tradicional aliado comercial – para não dizer falar em precipitar uma guerra comercial global. "Se você se afasta de um parceiro comercial com quem teve décadas de estreita cooperação e estabelece novos relacionamentos, isso sempre contém um elemento de risco", opina o economista Thore Schlaak, do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW), em Berlim. "A Índia também é um exemplo: é um país enorme com um bilhão de pessoas, mas para as empresas alemãs, é um território em grande parte inexplorado". Assimetrias Então, quão provável é uma grande reorientação da Europa para se distanciar de seu principal parceiro comercial e se aproximar da Ásia e América do Sul? Tanto Schlaak como Matthes acreditam que a tradição, a dependência mútua e os acordos, regras e instituições existentes, como a Organização Mundial do Comércio, impedirão o equivalente a uma fusão nuclear nas relações comerciais entre EUA e Europa. As nações mais pequenas podem enfrentar um caminho mais áspero. "Vamos ver Trump renegociar acordos com países menores, como o Canadá e o México, aos quais ele dita condições muito mais duras", acredita Gabriel Felbermayr, diretor no instituto de pesquisas econômicas Ifo, de Munique. "E eles aceitarão as condições. As assimetrias são gigantescas, os EUA representam um quarto do mercado mundial." Muito dependerá de até que ponto Trump ousa levar adiante a agenda America First contra parceiros comerciais maiores. Os três economistas dizem que têm dificuldade em imaginar que ele efetivamente abrirá mão de uma área econômica como a Ásia em virtude do protecionismo rígido. Mas é possível ouvir um traço de incerteza nas observações deles – com razão. Afinal, se há algo previsível no novo presidente dos EUA é que ele está sempre disposto a fazer o inesperado.

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