UE amplia força-tarefa contra notícias falsas

Ben Knight (ca)

  • Marios Lolos/Xinhua

    Força-tarefa tenta criar o que chama de uma "narrativa positiva da UE" no Leste Europeu

    Força-tarefa tenta criar o que chama de uma "narrativa positiva da UE" no Leste Europeu

A União Europeia (UE) intensifica as tentativas de combater as notícias falsas espalhadas pelo Kremlin. De acordo com a porta-voz de Relações Exteriores e Política de Segurança da UE, a equipe da força-tarefa East Stratcom vai ser ampliada em 2017, quando duas importantes eleições transcorrem na França e na Alemanha.

Até agora, a East Stratcom tem se concentrado no Leste Europeu, tentando criar o que chama de uma "narrativa positiva da UE" na região, enquanto explica sua política, analisa tendências de desinformação e "desmonta mitos". Recentemente, contudo, a força-tarefa tem também corrigido cada vez mais notícias relacionadas à Alemanha. Como aquela do site populista de direita Breitbart, bastante compartilhada, segundo a qual, na véspera do Ano Novo uma multidão de muçulmanos teria incendiado a igreja mais antiga da Alemanha, em Dortmund.

O grupo de trabalho também desmascarou a história publicada pela agência de notícias estatal russa RIA Novosti, alegando que 700 mil alemães estariam deixando o país anualmente devido à política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel.

Isso também era uma inverdade: estatísticas oficiais apontam que por volta de 150 mil pessoas emigram da Alemanha anualmente, e não há registros dos motivos. Não é de admirar que se tratasse de uma notícia falsa, já que a fonte citada pela RIA Novosti não era uma autoridade oficial, mas sim Lutz Bachmann, o líder do movimento anti-imigração Pegida.

Trabalho de Sísifo

Uma rede de pessoas e organizações – como a Stopfake.org, que se concentra especificamente na desinformação sobre a Ucrânia – encaminha histórias falsas para a East Stratcom, cuja equipe investiga e escreve notas de "contestação", as quais são convertidas num banco de dados online multilíngue e pesquisável.

Parte do Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE), a força-tarefa foi criada em março de 2015 especificamente para "abordar campanhas de desinformação por parte da Rússia". Trata-se de uma operação relativamente modesta: uma equipe de dez membros reúne as notícias falsas e em seguida publica seus desmascaramentos num boletim eletrônico semanal.

"A escala do desafio nunca foi proporcional aos nossos recursos", comentou à DW uma autoridade da UE que preferiu ficar no anonimato. "É preciso ter uma ideia dos recursos que estão sendo investidos nisso pelo lado russo."

Há muitos relatos sobre "fábricas de trolls" russas, com apoio estatal, estarem sendo usadas para espalhar desinformação. No entanto é difícil relacionar o governo russo a notícias falsas específicas, e desde que a East Stratcom não quantifica seus dados, confiando numa rede diferente para encontrar as histórias, ela quase nunca tem provas de que o Kremlin esteja por trás de uma mentira em particular.

Christian Stöcker, professor de Comunicação Digital na Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo e ex-repórter da revista alemã Spiegel, tem suas dúvidas sobre a eficácia da força-tarefa, também porque muitos tendem a vê-la como um instrumento de propaganda da União Europeia.

"A questão se aqueles que acatam notícias falsas estão abertos a diferentes interpretações e correções está sem resposta", explicou Stöcker. "Provavelmente, há uma porcentagem que não pode ser mais alcançada, de modo algum."

"Mas com o volume de desinformação que estamos vendo agora, qualquer ajuda é bem-vinda. Não é fácil para novas organizações ou ONGs disponibilizar os recursos necessários para desmascarar toda essa porcaria. Assim, se a UE está disposta a gastar algum dinheiro nisso, fornecendo apenas fatos e não opiniões ou interpretações, essa é uma contribuição bem-vinda para uma causa nobre."

Ligação russa com extrema direita?

Notícias falsas não são novidade na Alemanha. Segundo Stöcker, desde meados de 2015 tais histórias, muitas vezes sobre crimes supostamente praticados por refugiados, têm se espalhado pelo país. Em janeiro de 2016, reportagens sobre uma garota de origem russa de 13 anos, que teria sido estuprada e sequestrada por um imigrante em Berlim foram amplamente divulgadas, mesmo após ela admitir ter inventado a história.

Isso também acarretou críticas à polícia berlinense por parte do ministro russo do Exterior, Serguei Lavrov: "A notícia de que ela desaparecera foi mantida em segredo durante muito tempo", afirmou em coletiva de imprensa.

Em geral é muito difícil rastrear as origens das notícias falsas. Alguns grupos alemães de extrema direita foram identificados como fonte, mas é difícil dizer se a Rússia está por trás deles.

"Existe uma variedade de publicações de direita cheias com teorias de conspiração – como o portal Epoch Times no cenário midiático alemão, por exemplo – e não se sabe exatamente de onde vem o financiamento deles", explicou Stöcker. "Mas há certamente uma nova tendência na Alemanha de algumas pessoas com atitudes de extrema direita nutrirem uma grande admiração pelo governo russo."

Em vez da tarefa de Sísifo de desmascarar a onda de notícias falsas, o especialista da Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo sugeriu que East Stratcom siga outra estratégia. "Necessário seria realmente perseguir a fonte de dinheiro e provar que essas publicações são operadas, financiadas ou apoiadas de alguma forma por entidades russas. E não me consta que isso tenha acontecido."

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