1979: Khomeini retorna ao Irã

Ulrich Encke

No dia 1º de fevereiro de 1979, o líder xiita iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini encerrou seu exílio de 13 anos no Iraque e na França e retornou à pátria, proclamando a seguir a República Islâmica."Khomeini, somos todos seus soldados", gritavam milhões de pessoas em Teerã, em marcha pela capital iraniana. Isso durou mais de um ano, até que vieram as consequências. Longos protestos e distúrbios tinham obrigado o xá a deixar o país em meados de janeiro. A dinastia imperial desabou como um castelo de cartas e o xá foi derrubado do trono. Os líderes religiosos da revolução assumiram o poder, criando uma República Islâmica, entendida como um Estado teocrático. Após 13 anos de exílio, o ancião aiatolá Khomeini, líder religioso e revolucionário, retornou a Teerã sob o júbilo esperançoso de milhões de iranianos. Mesmo que Khomeini tenha visto a questão posteriormente de forma distinta: o que ocorreu no Irã, no final dos anos 70, foi inicialmente uma revolução política, não islâmica. O reinado autoritário do xá, uma oligarquia que vivia da corrupção e do nepotismo; a repressão de longa data através dos órgãos de segurança iranianos e a influência do Ocidente, dominante não apenas no setor econômico mas também na política, levaram a um afastamento entre a liderança do país e o povo. O sentimento da população de que teria de arcar com os benefícios usufruídos pelos americanos e pelo xá fez acumular a amargura durante anos a fio, até que ela explodiu numa ação política. Essa resistência teve de ser organizada e o único espaço livre disponível durante a ditadura do xá era oferecido pelas mesquitas. Assim, os líderes religiosos puseram o pé na soleira revolucionária, no início, sendo mais acompanhantes que iniciadores. Ainda não se falava de fundamentalismo islâmico. Essa hora só chegou quando a revolução obteve êxito, para surpresa geral. Teve-se então de encontrar um novo conceito social. Ele foi oferecido pelo aiatolá Khomeini com sua doutrina islâmica. Pois ela continha tudo o que a castigada alma popular desejara nos longos anos da ditadura: o isolamento do Ocidente, considerado decadente e explorador; a rejeição do Leste ateu e, em vez disso, um retorno à religião e à tradição próprias e assim, a base cultural para uma nova autoconfiança. Era o que se tinha de impor – com a ajuda da jihad, a guerra santa – contra os inimigos internos e externos. Luta pelo poder continuou Foi impressionante a rapidez com que foram reprimidos todos os grupos que não defendiam a linha do líder revolucionário. O partido Tudeh, comunista, e os grupos de luta marxistas, que deram uma contribuição substancial para o êxito militar da revolução, foram desmantelados pela guarda revolucionária, antes mesmo de notarem que já não estavam do lado dos vencedores. Com a criação de um Estado centralista, que nada ficava a dever ao do xá, no qual tudo era decidido em Teerã e não mais em outras partes do país, Khomeini assumiu o controle dos diversos grupos minoritários no país multiétnico. E, com a ajuda dos comandos de execução, extremamente ativos em todo o país, foi feito processo sumário a todos aqueles que lamentavam o fim do regime imperial ou que defendiam uma democracia civil.

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