Em "O remanescente", autor carioca faz pazes com Alemanha

Carlos Albuquerque

Livro de Rafael Cardoso conta saga de imigração de seu bisavô, um dos homens mais ricos e influentes da Alemanha pré-Hitler, e de sua família para o Brasil nos anos 1940. Uma história mantida em segredo por décadas.Há histórias que merecem ser contadas. Uma delas é a dos antepassados do autor e historiador carioca Rafael Cardoso. Em conversa com a DW, Cardoso disse que, se é verdade que quem emigra desce alguns degraus, a sua família "caiu escada abaixo". Em 1933, seu bisavô detinha uma das dez maiores fortunas da Alemanha. "E ele morreu quase indigente no Brasil, sem nenhuma propriedade, sem casa própria." Banqueiro, colecionador, ministro alemão das Finanças, amigo de Albert Einstein e Thomas Mann, Hugo Simon terminou seus dias empobrecido. De origem judaica, Simon e sua família emigraram para a França nos anos 1930, mas foi no Brasil onde deram início a uma nova vida a partir dos anos 1940. Mantida em segredo durante décadas, essa história é contada agora por Rafael Cardoso em seu novo livro O Remanescente, lançado no Brasil pela Companhia das Letras e, na Alemanha, pela editora S. Fischer Verlag, sob o título Das Vermächtnis der Seitenraupen (O legado dos bichos-da-seda, em tradução literal). Realidade e ficção O livro retrata a fuga de seu bisavô para o interior do Rio de Janeiro. Em 1941, Simon e sua família vieram para o Brasil com nomes e passaportes falsos. "Meu bisavô e minha bisavó com passaportes tchecos. Meu avô, minha avó, minha tia-avó e meu pai, com passaportes franceses. E todos eles viveram no país com essas identidades falsas", contou o autor à DW. Para o resgate da saga familiar, Cardoso recorreu a um romance onde realidade e ficção compartilham a narrativa. Tanto os fatos quanto as pessoas são reais, mas, segundo o autor, o seu principal interesse não é a história. "Meu interesse é compreender os personagens. A cabeça deles, o que eles sofreram, o que eles sentiam, o que eles pensavam. Então, a parte que me interessava era muito mais um trabalho de ficção. Mas para esse trabalho de ficção ficar direito, eu tive de fazer o trabalho de história também", elucidou o autor. O livro tem cinco protagonistas e cada capítulo se refere a um determinado mês, há um capítulo intitulado Março de 33; outro, Agosto de 41. E cada um deles é narrado de um ponto de vista diferente por esses cinco protagonistas. "O preponderante é o meu bisavô, ele é o que mais tem capítulos. Ele é, por assim dizer, o ator principal da novela", notou Cardoso. Um homem à frente de seu tempo Cardoso disse que só foi conhecer a verdadeira história da família de seu pai aos 16 anos, quando sua mãe, uma mineira criada no Rio de Janeiro, lhe confessou: "Olha, seus avós não são franceses, são alemães; seu bisavô era um homem muito rico e importante na Alemanha; e a família de sua avó é judia e você não pode contar isso para ninguém." Segundo Cardoso, no início, esse segredo era compreensível, pois houve uma circular secreta do Itamaraty, entre 1940-41, que acabou resultando numa diretriz que proibia a entrada de estrangeiros indesejáveis, e "isso basicamente eram os judeus e comunistas." Seu bisavô recebeu então uma ordem de expulsão. Hugo Simon buscou então refúgio em Penedo, depois em Barbacena, onde ficou escondido. Segundo o autor, Hugo Simon foi uma figura totalmente à frente do seu tempo. "Uma pessoa que juntava a arte com questões sociais, com a justiça social – ele era socialista – e com a natureza e questões ambientais. Ele realmente era um homem do século 21, vivendo no século 20." O que interessou ao autor foi aquela figura humana. "Não a figura histórica, não o fato de que ele era amigo de Einstein e tal, mas essa figura humana capaz de passar por tudo o que ele passou e reagir da forma como ele reagiu." Psicologia do refugiado Nascido em 1964, o autor afirma fazer parte da primeira geração de descendentes a abordar tais temas. "Por causa dessa pesquisa eu já conversei com muitos descendentes de famílias de refugiados, de exilados e é impressionante que quase sempre surge essa frase na conversa: 'A gente não conversava sobre isso em casa, esse assunto era tabu'." Cardoso disse à DW que seu pai tinha dez anos quando chegou ao Brasil. "Se você falasse alemão na frente do meu pai, ele saía da sala. Era proibido falar alemão em casa. Ainda há o fato de meu pai já ter nascido no exílio. Ele já nasceu na França. Meu pai se via como francês e brasileiro. Ele havia sido criado como francês e alemão, mas então falaram para ele: 'Você não pode mais falar alemão'. Ele se fixou então na identidade francesa. Meu pai falava francês perfeitamente. Mas na verdade ele só nasceu na França, toda a família era alemã." "E é isso que me interessa, essa psicologia do refugiado, da pessoa que sofreu uma grande violência, e acaba de certa forma internalizando isso", disse o autor. Círculo da vida Cardoso não conheceu seu bisavô. Hugo Simon morreu em 1950. Ainda na Alemanha, Simon havia adquirido a Schweizerhaus, uma fazenda em Seelow, próximo da fronteira com a Polônia, onde cultivava plantas, convidava artistas, fazia experimentos, o que o torna um personagem bastante moderno. No Brasil, ele foi gerente de uma fazenda de plantas medicinais em Penedo durante a guerra e trabalhou mais tarde com a extração de seda, deixando inacabado um romance autobiográfico intitulado Seidenraupen (Bichos-da-seda, em tradução literal). Em 2013, Cardoso visitou Seelow. A última pessoa da sua família que havia posto os pés ali fora o seu bisavô em 1933. "E eles nos receberam, fizeram um almoço, veio o prefeito, convidaram os descendentes dos ex-funcionários da fazenda, foi algo superemocionante", disse o autor. Cardoso explica que realmente se começou a fechar um círculo de uma história que estava mal resolvida para todos. "E esse tipo de coisa tem acontecido muito comigo aqui, essa possibilidade de fazer as pazes, não só para mim, mas em termos de toda uma história que é maior do que a gente. Uma história de família, uma história de países", concluiu o autor.

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