Merkel viaja à Turquia em missão delicada

Richard Fuchs (ca)

Encontro entre chanceler federal alemã e presidente Erdogan em Ancara atrai atenção internacional. Críticos alegam que questão dos direitos humanos não faz parte da agenda.Nesta quinta-feira (02/02), a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, deve ser foco da atenção internacional ao desembarcar em Ancara, capital da Turquia. Esta é a primeira vez que a líder alemã vai ao país desde a tentativa frustrada de golpe militar em julho do ano passado. Nesse meio-tempo, o presidente Recep Tayyip Erdogan vem governando a Turquia de forma autocrática. Dezenas de milhares de políticos, jornalistas, promotores públicos e cidadãos comuns já foram presos. A imprensa crítica foi desmantelada; a aliança curda de oposição foi dissolvida. As alegações são sempre as mesmas: as partes envolvidas participaram do golpe fracassado. O governo turco acusa os apoiadores do movimento do líder religioso Fethullah Gülen de serem os responsáveis pela tentativa de golpe. O AKP, partido governista islâmico-conservador, rejeita qualquer crítica internacional a suas medidas repressivas. Por outro lado, o governo turco acusa a Alemanha de falta de solidariedade na luta contra o alegado terrorismo. Além disso, a Turquia reclama que a Alemanha tem fornecido refúgio ao proibido Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), possibilitando-o de angariar fundos e recrutar combatentes no país. Oposição teme apoio a Erdogan Esses não são bons presságios para a viagem de Merkel. Em Berlim, muitos políticos de oposição acreditam que a visita está enviando um sinal completamente errado. A deputada federal pelo partido A Esquerda Sevim Dagdelen afirma acreditar que a ida de Merkel a Ancara vem num "momento particularmente inoportuno". Dagdelen disse recentemente, em entrevista a uma emissora pública alemã, que a presença da chanceler federal poucas semanas antes do referendo constitucional só poderia ser vista como um apoio a Erdogan. Pouco mais de uma semana atrás, o AKP conseguiu passar no Parlamento uma lei de reforma constitucional que prevê o sistema presidencialista e que daria mais poderes ao chefe de Estado. O referendo constitucional iria cimentar essa reforma. A deputada federal pelo Partido Verde e vice-presidente do Parlamento alemão, Claudia Roth, traçou paralelos com a última visita oficial de Merkel à Turquia em 2016. Roth disse que Erdogan instrumentalizou esse encontro como uma plataforma oportuna para a sua eleição de então. O referendo que está por vir servirá somente para trazer a "abolição da democracia parlamentar", segundo Roth. A deputada verde afirmou ainda que, se Merkel não se manifestar sobre as violações de direitos humanos na Turquia, isso seria um sinal para Erdogan de que ele poderia chantagear a Europa com sua ameaça de abrir as fronteiras para os refugiados. O pacto de refugiados assinado entre a União Europeia (UE) e a Turquia, para impedir a onda migratória para a Europa, resultou num número muito reduzido de requerentes de asilo que chegam à Grécia. No passado, Ancara cogitou rescindir o acordo. O porta-voz do governo em Berlim, Steffen Seibert, rejeitou fortemente críticas à visita de Merkel em Ancara. "As alegações de que a chanceler federal iria tomar qualquer posição sobre o próximo referendo turco são absurdas", disse Seibert, afirmando que a viagem serviria apenas para fazer uma visita oficial a um parceiro da Otan e que também é um importante vizinho da UE. "Especialmente em tempos como esses, em que a situação na Síria está em discussão, em que há questões bilaterais na agenda, como também a relação entre a Turquia e a UE, é importante procurar um diálogo." AI diz que direitos humanos faltam na agenda Para os críticos, no entanto, as discussões intergovernamentais não são suficientes. Em conversa com a DW, Marie Lucas, especialista em Turquia na seção alemã da Anistia Internacional (AI), apelou para que a chanceler federal defenda ativamente o respeito aos direitos humanos. "A chanceler Merkel deve levantar a questão da detenção de críticos do governo pacíficos e ela deve também se encontrar com membros da oposição e perseguidos ativistas de direitos humanos", exigiu Lucas. "A Alemanha ainda pode, obviamente, exercer a sua influência, e deve fazê-lo." Lucas acredita que, nas negociações com a Turquia sobre o acordo de refugiados com a UE, o governo alemão falhou em institucionalizar qualquer diálogo verdadeiro sobre os direitos humanos. "No passado, vimos que objeções por parte de outros países podem realmente ajudar críticos perseguidos por governos", afirmou a ativista, acrescentando que, até agora, o governo alemão se manteve calado, em particular sobre a questão da tortura nas prisões turcas. "De acordo com nossa pesquisa, as pessoas acusadas de envolvimento no golpe foram severamente torturadas. Até agora, o governo alemão não teve muito a dizer sobre isso."

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