Minorias estão sub-representadas na polícia alemã

Ben Knight (pv)

Percentual de pessoas de origem imigrante nas forças policiais é desproporcional à sua presença na população, aponta estudo. Apesar de esforços de alguns estados, racismo institucional ainda é problema.Minorias ainda estão significativamente sub-representadas na maioria das forças policiais da Alemanha, apesar dos esforços para resolver a disparidade, aponta um novo estudo do Mediendienst Integration – um serviço para os meios de comunicação sobre integração. Mesmo que tenham sido feitas tentativas de recrutar deliberadamente minorias, os números mostram uma disparidade em quase todos os estados alemães. Em Schleswig-Holstein, apenas 5,4% dos candidatos eram de origem imigrante, resultando em 3,5% dos novos recrutas. A população imigrante no estado representa 13,2% do total. No estado mais populoso da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestfália, somente 11,7% dos recrutas tinham origem estrangeira, contra 25,6% da população do estado. Por outro lado, as forças policiais de Berlim e Saxônia-Anhalt dispõem de números muito melhores, com uma percentagem de recrutas de origem imigrante acima da média da população. A polícia federal alemã, entretanto, não compilou dados sobre recrutamento, embora o Ministério do Interior tenha dito que tal pesquisa estava planejada. Em geral, o estudo detectou esforços positivos, com cada vez mais forças policiais coletando dados sobre a diversidade em suas próprias guarnições e especificamente tentando recrutar em comunidades minoritárias. Há três anos, apenas seis estados se preocupavam em descobrir tais informações, e agora dez dos 16 estados alemães coletam os dados. O Mediendienst Integration observou também que cada vez mais anúncios de recrutamento mostram policiais de diferentes etnias. Efeito questionável Aleksandra Lewicki, socióloga da Universidade Livre de Berlim especializada em racismo institucional na Alemanha e no Reino Unido, afirma que as forças policiais britânicas têm cada vez mais tentado recrutar agentes de minorias étnicas. No entanto, se diferentes estratégias de recrutamento combatem o próprio racismo institucional é outra questão, diz. "É uma dessas medidas que são fáceis de fazer", afirma Lewicki. "Ao trazer as pessoas, eles parecem achar que podem realizar algum tipo de mágica para mostrar que não são racistas – o que são suposições parcialmente erradas. Aumentar o número de minorias étnicas não necessariamente remedia o racismo – mas o fato de que uma instituição presta atenção à sub-representação é definitivamente um primeiro passo importante para combater o racismo." Se a polícia britânica está ligeiramente à frente de seus colegas alemães quanto ao combate ao racismo, isso se deve em parte à mobilização de comunidades de minorias étnicas em resposta ao assassinato racista do adolescente Stephen Lawrence, em 1993. Cinco anos depois, um inquérito público sobre a investigação do assassinato concluiu que a Polícia Metropolitana de Londres era institucionalmente racista, e recrutar grupos minoritários foi uma das medidas propostas. O paralelo mais claro do caso com a Alemanha foi a investigação policial dos assassinatos racistas cometidos pelo grupo Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU, na sigla em alemão), uma célula neonazista que matou dez pessoas entre 2000 e 2007, até ser descoberta em 2011. "Em todos os casos – seja na Saxônia-Anhalt ou na Baviera –, as forças policias olharam, independentemente uma da outra, para o histórico das vítimas", disse Lewicki. "Todos os departamentos decidiram: aqui está uma pessoa turca, ela deve estar envolvida com drogas ou algum outro crime. Em todos os casos, a polícia interrogou familiares, mas não ocorreu a ninguém em todo o país que pudesse se tratar de um crime racista." Para Lewicki, os vários inquéritos parlamentares que analisaram as falhas da polícia não esclareceram suficientemente a situação. "Suas descobertas apontam para todos os sintomas do racismo institucional, mas eles não concluem que aquilo que veem é racismo institucional", afirma. "[Autoridades alemãs] evitam a palavra racismo, porque equiparam o racismo a crimes como o Holocausto – eles não entendem que o racismo, às vezes, pode significar que uma instituição opera de tal forma que produz resultados discriminatórios." Racial profiling e assassinatos Desse ponto de vista, é irrelevante se o policial é racista – as forças policiais precisam implementar medidas que impeçam que julgamentos discriminatórios afetem as investigações, como aparentemente ocorreu nos homicídios do caso da NSU. "Se isso ocorre sistematicamente, então não se pode simplesmente melhorar a cooperação entre as forças policiais", segundo Lewicki. "Após o caso Stephen Lawrence, a lei britânica contra a discriminação nos serviços públicos foi endurecida consideravelmente – para que assim tenham a garantia que os serviços prestados satisfaçam as necessidades dos diferentes grupos populacionais. E isso é algo em que estão definitivamente milhas à frente da Alemanha." O recente debate sobre racial profiling – abordagem levando em conta as características externas dos indivíduos – ressurgiu após os incidentes de agressões sexuais em massa no réveillon de 2015 em Colônia. "Não apenas fizeram, como usaram termos racistas em tweet sobre o incidente", lembrou Lewicki. "Há muitas evidências de que o racial profiling é sistematicamente aplicado em todo o país, embora seja obviamente ilegal." "Diria que em termos de percepção de que se trata de um problema, o debate no Reino Unido está muito mais avançado", conclui a socióloga. "A liderança policial está ciente de que há um problema, algo com que até agora a liderança da polícia na Alemanha e também a liderança política não se comprometeram o suficiente. Mas isso não quer dizer que deixou de haver muito racismo institucional no Reino Unido."

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